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    21/12/2025

 

 

A vida depois de uma experiência de quase morte

Sobreviventes de EQMs intensas citam desafios emocionais e psicológicos ao retomar a rotina

 

O Novo Centro Espírita

 

 

 

por KATHLEEN FELTON
The Washington Post
O Estado de São Paulo

 

 

Mercedes Somich estava na mesa de cirurgia quando disse que deixou seu corpo. Era a primeira gravidez, aos 24 anos, e o parto estava sendo doloroso e dramático. Ela precisou então de uma cesariana de emergência e, apesar da anestesia peridural, afirma que conseguia sentir os médicos a cortando.

“Eu estava sangrando bastante”, lembra. Para tentar controlar a hemorragia, os cirurgiões massagearam seu útero. “A forma como pressionavam era tão rítmica e forte que eu achei que estavam fazendo RCP no meu filho”, diz. “Havia um sentimento interno de desistir, de deixar ir. Minha visão escureceu, e eu flutuava em um tipo de vazio negro que era muito pacífico e calmo.” 

Nisso, pensou no bebê e sentiu, em pânico, que não deveria ir embora. Também sentiu que podia escolher entre “ir embora ou voltar flutuando”, conta. “A próxima coisa de que lembro é de ter recobrado a consciência, e meu filho tinha nascido.”

Não existe uma definição clínica para o que Mercedes diz ter vivido, mas muitos especialistas se referem a isso como uma experiência de quase morte (EQM). Até 17% das pessoas que quase morrem podem passar por isso, segundo algumas pesquisas. Nenhuma experiência é exatamente igual a outra, mas há características comumente relatadas, como ver uma luz brilhante, sentir uma paz profunda ou ter a sensação de deixar o corpo ou ser puxado para um túnel. Independentemente de como pareça, uma EQM pode afetar permanentemente a vida de alguém. “Uma EQM pode ser profunda, especialmente quando é intensa”, diz Marieta Pehlivanova, assistente de pesquisa e professora de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Divisão de Estudos Perceptivos da Universidade da Virgínia, que estuda EQMs.

Receber o apoio adequado pode ser fundamental para a recuperação, explica Marieta, já que “especialmente pessoas que têm EQMs intensas tendem a mudar bastante”.

EXPERIÊNCIA DIFÍCIL DE COMPARTILHAR. Para alguns, é desafiador achar palavras para descrever o ocorrido. “A maioria quer falar sobre, mas as pessoas podem ter receio de compartilhar por medo de serem chamadas de loucas ou não serem acreditadas – isso pode ser isolador”, conta Marieta.

Mercedes, hoje com 35 anos e moradorade Tacoma, Washington, contou como sua EQM se tornou “uma corrente subjacente em tudo, sempre pairando ao fundo”. Ela tentou falar com amigos e familiares sobre o tema, mas as pessoas geralmente não sabiam o que dizer. “É meio esotérico.”

Para alguns, a intensidade da experiência faz com que seja difícil retomar a rotina. “Você se fundiu com o universo, mas no dia seguinte ainda precisa lidar com a vida normal”, resume Christof Koch, neurocientista que estuda EQMs no Allen Institute, em Seattle. “Como você integra isso?”

Valerie Kurkas, de 60 anos, de Portland, Oregon, sofreu uma parada cardíaca há um ano. Ela ficou “desconectada” por 4 minutos enquanto a equipe médica tentava reanimá-la, relata. Enquanto estava inconsciente, Valerie teve a visão de estar em São Francisco – cidade que visitara poucas vezes – e de ver entes queridos já falecidos em um bonde vermelho. Sua mãe lhe estendia os braços enquanto ela se aproximava do bonde, antes de ser trazida de volta com um choque elétrico.

Nos primeiros momentos após o episódio, Valerie lembra que “se sentia completamente renovada, como se fosse uma pessoa nova”. Mas retomar a vida cotidiana não foi simples. “Você precisa de tempo para lidar com as emoções muito fortes que vêm com algo assim.” Na primeira reunião de trabalho após a volta, quando a gestora comentou que a equipe tinha “sobrevivido a mais uma semana”, Valerie se emocionou: “Porque eu quase não sobrevivi a mais uma semana”, lembra. “Foi muito visceral, eu estava na câmera na reunião, e meu rosto simplesmente mudou, as lágrimas jorraram.”

Também não é incomum sentir uma espécie de nostalgia da experiência. “Muitos não querem necessariamente voltar à vida porque experimentaram um amor incondicional, e agora precisam voltar para um corpo profundamente fragilizado”, diz Marieta.

Keir Whitson, de 56 anos, do Condado de Rappahannock, Virgínia, teve enfarte seguido por parada cardíaca há três anos, enquanto visitava a família em Wisconsin. Ficou em coma induzido por um mês e, nesse período, teve “sensação muito forte de estar em algum lugar entre a vida e a morte”. Nesse “entrelugar”, Whitson viajava por diferentes locais do condado onde é funcionário público eleito, às vezes interagindo com pessoas, outras vezes observando a si mesmo como em um filme. “Não consigo me livrar da sensação de que minha consciência, minha alma, meu eu, minha mente, seja lá o que for, estava por aí enquanto eu tentava sobreviver”, diz. Não eram sonhos, acrescenta. “Eu lembro de tudo em grande detalhe.”

Agora, Whitson lembra desse lugar intermediário com “um pouco de tristeza”. Algumas músicas ou imagens o transportam de volta. “Eu sabia que era algo especial e único, e que era um privilégio, e agora acabou”, reflete. “Quando minha mente volta a esses lugares e começo a sentir aquela atmosfera, penso: ‘Poxa, aquilo foi tão incrível’. Foi como fazer uma grande viagem, e agora só tenho as lembranças.”

 





OUTRA VISÃO DE MUNDO. Ford Jun Taketa, de 73 anos, de Belle Plaine, Minnesota, tinha 64 anos quando passou por uma EQM em uma cirurgia de emergência para corrigir a ruptura de um aneurisma da aorta ascendente. Taketa percebeu que observava a si mesmo na mesa de cirurgia e pensou: “Então é assim que eu pareço com o peito aberto”. Em seguida, ele estava em uma área grande que lembrava um portão de embarque de aeroporto e viu a abertura de um túnel com uma luz fraca ao fundo. Tentou atravessá-lo, mas outras pessoas não o deixaram passar. Alguém tocou seu ombro e disse: “Você tem de voltar”.

A EQM “mudou completamente a forma como eu vejo as coisas”, conta. Ele credita a experiência a um renovado interesse em melhorar-se espiritual e fisicamente, além de ter superado o medo da morte. Morrer, comenta, antes o “apavorava”. “Mas depois de tudo isso, esse sentimento desapareceu”, pontua. “Não tenho medo da morte. Não quero morrer, prefiro continuar vivendo, mas sei que, se eu morrer, não será o fim.”

Quase 70% dos 167 participantes de um estudo recente sobre sobreviventes de EQM – que incluía Taketa – publicado por Marieta e sua equipe na revista Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice relataram mudanças em crenças religiosas ou espirituais após a experiência. Às vezes, essas mudanças podem ser difíceis de compreender, observa Marieta. “A experiência pode basicamente contradizer as visões religiosas, científicas ou filosóficas que a pessoa tinha sobre o que acontece quando se morre”, observa.

Outras pesquisas mostram que as pessoas mudam prioridades ou sua visão de mundo – tornando-se mais empáticas e agradecidas pela vida, ou menos preocupadas com questões materiais. Essas mudanças podem persistir por décadas, segundo um estudo de 2022 do colega de Marieta, Bruce Greyson, da UVA. “Pessoas que tiveram EQM há 20 anos ainda a lembram com a mesma vividez do dia seguinte ao ocorrido; essa memória não parece desaparecer”, informa Koch.

Já Peter Cotter teve uma experiência que não foi particularmente pacífica ao sofrer parada cardíaca aos 64 anos. Ele acordou da cirurgia com a memória de sua equipe médica trabalhando nele, mas como se estivesse sob um vidro. “Comecei a bater no vidro com os punhos, dizendo e gritando o mais alto que podia: ‘Não me deixem morrer aqui hoje!’”, conta ele, que se descreve agora como mais reflexivo e mais grato pelas pessoas à sua volta. “Acredito que me tornei uma pessoa muito menos egoísta.”

Krista Gorman, de 54 anos, da Flórida, assim como Mercedes, passou por uma EQM quando teve uma parada cardíaca no parto de sua filha anos antes. Estava em uma maca no corredor enquanto a equipe médica a levava para a sala de cirurgia quando sentiu uma paz profunda antes de perder a consciência. Sua visão então mudou, e ela olhava de cima para a cena do parto da filha. “Eu não sabia que era meu corpo, era como assistir a um filme, sem identificar nada do que via.” Nisso, uma “força” a puxou, e Krista se viu atravessando a parede e entrando em um espaço luminoso, seguido por outra barreira que a levou a uma paisagem verde. “Eu me fundi a tudo aquilo; era as flores, a água, as árvores – era completamente sublime”, lembra. Krista afirmou que “poderia ter ficado ali para sempre”, mas lembrou-se de escolher voltar – e acordou com uma dor terrível no peito.

Krista e Mercedes fazem parte de um estudo que Marieta conduz sobre EQMs durante o parto. Mercedes encontrou alívio na terapia com uma psicóloga especializada em trauma e também ao se conectar com outras pessoas que tiveram cesarianas traumáticas. Grupos de apoio a EQMs, como os da International Association for Near-Death Studies, também podem oferecer um espaço seguro para compartilhar, diz Marieta. Mas, como cada EQM é diferente – e às vezes são assustadoras –, alguns têm dificuldade para se identificar nesses ambientes. “Quando procurei a comunidade de EQM, me senti duas vezes isolada”, comenta Mercedes. “Parecia que a experiência de tantas pessoas era positiva, e a minha tinha sido profundamente aterrorizante.”

No estudo de Marieta, cerca de 64% dos 167 participantes buscaram ajuda após a experiência. Mercedes diz que é difícil imaginar quem seria hoje se não tivesse passado por aquilo. A experiência influenciou seus planos familiares, além de lhe causar dificuldade para dormir. Mas também a tornou uma pessoa mais empática. “Quem eu era até aquele momento, eu acho que metaforicamente morreu”, resume ela. “Outra pessoa voltou.”

 

 

Fonte: https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo/20251217/page/43/textview

 

 

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