Sobreviventes de EQMs intensas
citam desafios emocionais e psicológicos ao retomar a rotina
por KATHLEEN FELTON
The Washington Post
O Estado de São Paulo
Mercedes Somich estava na mesa de cirurgia quando
disse que deixou seu corpo. Era a primeira gravidez, aos 24 anos,
e o parto estava sendo doloroso e dramático. Ela precisou
então de uma cesariana de emergência e, apesar da anestesia
peridural, afirma que conseguia sentir os médicos a cortando.
“Eu estava sangrando bastante”, lembra.
Para tentar controlar a hemorragia, os cirurgiões massagearam
seu útero. “A forma como pressionavam era tão
rítmica e forte que eu achei que estavam fazendo RCP no meu
filho”, diz. “Havia um sentimento interno de desistir,
de deixar ir. Minha visão escureceu, e eu flutuava em um
tipo de vazio negro que era muito pacífico e calmo.”
Nisso, pensou no bebê e sentiu, em pânico, que não
deveria ir embora. Também sentiu que podia escolher entre
“ir embora ou voltar flutuando”, conta. “A próxima
coisa de que lembro é de ter recobrado a consciência,
e meu filho tinha nascido.”
Não existe uma definição clínica para
o que Mercedes diz ter vivido, mas muitos especialistas se referem
a isso como uma experiência de quase morte (EQM). Até
17% das pessoas que quase morrem podem passar por isso, segundo
algumas pesquisas. Nenhuma experiência é exatamente
igual a outra, mas há características comumente relatadas,
como ver uma luz brilhante, sentir uma paz profunda ou ter a sensação
de deixar o corpo ou ser puxado para um túnel. Independentemente
de como pareça, uma EQM pode afetar permanentemente a vida
de alguém. “Uma EQM pode ser profunda, especialmente
quando é intensa”, diz Marieta Pehlivanova, assistente
de pesquisa e professora de Psiquiatria e Ciências do Comportamento
da Divisão de Estudos Perceptivos da Universidade da Virgínia,
que estuda EQMs.
Receber o apoio adequado pode ser fundamental para a recuperação,
explica Marieta, já que “especialmente pessoas que
têm EQMs intensas tendem a mudar bastante”.

EXPERIÊNCIA
DIFÍCIL DE COMPARTILHAR. Para alguns, é desafiador
achar palavras para descrever o ocorrido. “A maioria quer
falar sobre, mas as pessoas podem ter receio de compartilhar por
medo de serem chamadas de loucas ou não serem acreditadas
– isso pode ser isolador”, conta Marieta.
Mercedes, hoje com 35 anos e moradorade Tacoma, Washington,
contou como sua EQM se tornou “uma corrente subjacente em
tudo, sempre pairando ao fundo”. Ela tentou falar com amigos
e familiares sobre o tema, mas as pessoas geralmente não
sabiam o que dizer. “É meio esotérico.”
Para alguns, a intensidade da experiência faz com
que seja difícil retomar a rotina. “Você se fundiu
com o universo, mas no dia seguinte ainda precisa lidar com a vida
normal”, resume Christof Koch, neurocientista que estuda EQMs
no Allen Institute, em Seattle. “Como você integra isso?”
Valerie
Kurkas, de 60 anos, de Portland, Oregon, sofreu uma parada cardíaca
há um ano. Ela ficou “desconectada” por 4 minutos
enquanto a equipe médica tentava reanimá-la, relata.
Enquanto estava inconsciente, Valerie teve a visão de estar
em São Francisco – cidade que visitara poucas vezes
– e de ver entes queridos já falecidos em um bonde
vermelho. Sua mãe lhe estendia os braços enquanto
ela se aproximava do bonde, antes de ser trazida de volta com um
choque elétrico.
Nos primeiros momentos após o episódio, Valerie lembra
que “se sentia completamente renovada, como se fosse uma pessoa
nova”. Mas retomar a vida cotidiana não foi simples.
“Você precisa de tempo para lidar com as emoções
muito fortes que vêm com algo assim.” Na primeira reunião
de trabalho após a volta, quando a gestora comentou que a
equipe tinha “sobrevivido a mais uma semana”, Valerie
se emocionou: “Porque eu quase não sobrevivi a mais
uma semana”, lembra. “Foi muito visceral, eu estava
na câmera na reunião, e meu rosto simplesmente mudou,
as lágrimas jorraram.”
Também não é incomum sentir uma espécie
de nostalgia da experiência. “Muitos não querem
necessariamente voltar à vida porque experimentaram um amor
incondicional, e agora precisam voltar para um corpo profundamente
fragilizado”, diz Marieta.
Keir Whitson, de 56 anos, do Condado de Rappahannock, Virgínia,
teve enfarte seguido por parada cardíaca há três
anos, enquanto visitava a família em Wisconsin. Ficou em
coma induzido por um mês e, nesse período, teve “sensação
muito forte de estar em algum lugar entre a vida e a morte”.
Nesse “entrelugar”, Whitson viajava por diferentes locais
do condado onde é funcionário público eleito,
às vezes interagindo com pessoas, outras vezes observando
a si mesmo como em um filme. “Não consigo me livrar
da sensação de que minha consciência, minha
alma, meu eu, minha mente, seja lá o que for, estava por
aí enquanto eu tentava sobreviver”, diz. Não
eram sonhos, acrescenta. “Eu lembro de tudo em grande detalhe.”
Agora, Whitson lembra desse lugar intermediário com “um
pouco de tristeza”. Algumas músicas ou imagens o transportam
de volta. “Eu sabia que era algo especial e único,
e que era um privilégio, e agora acabou”, reflete.
“Quando minha mente volta a esses lugares e começo
a sentir aquela atmosfera, penso: ‘Poxa, aquilo foi tão
incrível’. Foi como fazer uma grande viagem, e agora
só tenho as lembranças.”

OUTRA VISÃO DE MUNDO. Ford Jun Taketa, de
73 anos, de Belle Plaine, Minnesota, tinha 64 anos quando passou
por uma EQM em uma cirurgia de emergência para corrigir a
ruptura de um aneurisma da aorta ascendente. Taketa percebeu que
observava a si mesmo na mesa de cirurgia e pensou: “Então
é assim que eu pareço com o peito aberto”. Em
seguida, ele estava em uma área grande que lembrava um portão
de embarque de aeroporto e viu a abertura de um túnel com
uma luz fraca ao fundo. Tentou atravessá-lo, mas outras pessoas
não o deixaram passar. Alguém tocou seu ombro e disse:
“Você tem de voltar”.
A EQM “mudou completamente a forma como eu vejo as coisas”,
conta. Ele credita a experiência a um renovado interesse em
melhorar-se espiritual e fisicamente, além de ter superado
o medo da morte. Morrer, comenta, antes o “apavorava”.
“Mas depois de tudo isso, esse sentimento desapareceu”,
pontua. “Não tenho medo da morte. Não quero
morrer, prefiro continuar vivendo, mas sei que, se eu morrer, não
será o fim.”

Quase 70% dos 167 participantes
de um estudo recente sobre sobreviventes de EQM – que incluía
Taketa – publicado por Marieta e sua equipe na revista Psychology
of Consciousness: Theory, Research, and Practice relataram
mudanças em crenças religiosas ou espirituais após
a experiência. Às vezes, essas mudanças podem
ser difíceis de compreender, observa Marieta. “A experiência
pode basicamente contradizer as visões religiosas, científicas
ou filosóficas que a pessoa tinha sobre o que acontece quando
se morre”, observa.
Outras pesquisas mostram que as pessoas mudam prioridades
ou sua visão de mundo – tornando-se mais empáticas
e agradecidas pela vida, ou menos preocupadas com questões
materiais. Essas mudanças podem persistir por décadas,
segundo um estudo de 2022 do colega de Marieta, Bruce Greyson, da
UVA. “Pessoas que tiveram EQM há 20 anos ainda a lembram
com a mesma vividez do dia seguinte ao ocorrido; essa memória
não parece desaparecer”, informa Koch.
Já Peter Cotter teve uma experiência que não
foi particularmente pacífica ao sofrer parada cardíaca
aos 64 anos. Ele acordou da cirurgia com a memória de sua
equipe médica trabalhando nele, mas como se estivesse sob
um vidro. “Comecei a bater no vidro com os punhos, dizendo
e gritando o mais alto que podia: ‘Não me deixem morrer
aqui hoje!’”, conta ele, que se descreve agora como
mais reflexivo e mais grato pelas pessoas à sua volta. “Acredito
que me tornei uma pessoa muito menos egoísta.”
Krista Gorman, de 54 anos, da Flórida, assim como Mercedes,
passou por uma EQM quando teve uma parada cardíaca no parto
de sua filha anos antes. Estava em uma maca no corredor enquanto
a equipe médica a levava para a sala de cirurgia quando sentiu
uma paz profunda antes de perder a consciência. Sua visão
então mudou, e ela olhava de cima para a cena do parto da
filha. “Eu não sabia que era meu corpo, era como assistir
a um filme, sem identificar nada do que via.” Nisso, uma “força”
a puxou, e Krista se viu atravessando a parede e entrando em um
espaço luminoso, seguido por outra barreira que a levou a
uma paisagem verde. “Eu me fundi a tudo aquilo; era as flores,
a água, as árvores – era completamente sublime”,
lembra. Krista afirmou que “poderia ter ficado ali para sempre”,
mas lembrou-se de escolher voltar – e acordou com uma dor
terrível no peito.
Krista e Mercedes fazem parte de um estudo que Marieta conduz sobre
EQMs durante o parto. Mercedes encontrou alívio na terapia
com uma psicóloga especializada em trauma e também
ao se conectar com outras pessoas que tiveram cesarianas traumáticas.
Grupos de apoio a EQMs, como os da International Association for
Near-Death Studies, também podem oferecer um espaço
seguro para compartilhar, diz Marieta. Mas, como cada EQM é
diferente – e às vezes são assustadoras –,
alguns têm dificuldade para se identificar nesses ambientes.
“Quando procurei a comunidade de EQM, me senti duas vezes
isolada”, comenta Mercedes. “Parecia que a experiência
de tantas pessoas era positiva, e a minha tinha sido profundamente
aterrorizante.”
No estudo de Marieta, cerca de 64% dos 167 participantes buscaram
ajuda após a experiência. Mercedes diz que é
difícil imaginar quem seria hoje se não tivesse passado
por aquilo. A experiência influenciou seus planos familiares,
além de lhe causar dificuldade para dormir. Mas também
a tornou uma pessoa mais empática. “Quem eu era até
aquele momento, eu acho que metaforicamente morreu”, resume
ela. “Outra pessoa voltou.”