Livro desconstrói imagem de espiritismo conservador e anticiência
Em 'A Essência do Espiritismo', Alexandre
Caldini Neto descostura sensos comuns sobre a doutrina; lançamento
será nesta quarta (6/08/2025) em SP

Alexandre Caldini Neto, que lança o livro
'A Essência do Espiritismo' (Sextante) - Arquivo pessoal
Anna Virginia Balloussier
Folha de SP
O espiritismo é uma religião?
Que, por sinal, é em sua essência conservadora, vide
pesquisas que apontam uma maioria de bolsonaristas entre seus adeptos.
Não e não. Assim responde
Alexandre Caldini Neto, estudioso do tema há quase quatro décadas,
num livro que descostura alguns sensos comuns sobre a doutrina que,
no imaginário nacional, ficou tão associada à
imagem de médiuns como Chico Xavier e o mais infame, João
de Deus, condenado por abusos sexuais diversos.
No recém-lançado "A
Essência do Espiritismo", Caldini Neto prefere tratar seu
objeto-tema como uma filosofia mais à moda de Allan Kardec,
o francês que a fundou 168 anos atrás, com a publicação
do seu "Livro dos Espíritos".
O espiritismo, segundo o autor, ganhou contornos religiosos no Brasil,
mas é em sua origem uma "doutrina filosófica"
que tem a "parte experimental das manifestações",
que seriam os contatos de espíritos.
Aqui valem as palavras de Kardec:
"Ora, todos os dias sou visitado por pessoas que nada viram e
creem tão firmemente como eu, apenas pelo estudo que fizeram
da parte filosófica; para elas o fenômeno das manifestações
é acessório e o fundo é a doutrina, a ciência".
A roupagem religiosa, contudo, vingou
por aqui, a ponto de espiritismo ser uma das crenças listadas
no Censo.
O quinhão espírita na
população já foi maior, aliás. O levantamento
demográfico apontou que, se em 2010 eram 2,2% dos brasileiros,
caíram para 1,8% em 2022 —de 3,8 milhões de pessoas
para 3,2 milhões.
Caldini Neto tem algumas hipóteses
para o fenômeno.
Ao longo do século 20, o espiritismo
conquistou a simpatia do país, com um caráter dócil
e ativo na caridade. "Passou a ser visto como uma religião,
coisa que afirmo, citando Kardec, não é".
Aí entra um componente de intolerância
histórica com crenças de matriz africana. "Apesar
de igualmente fazerem a caridade e promoverem o bem", e também
terem como base a mediunidade, "sempre sofreram muita discriminação".
Então acontecia direto de umbandistas ou candomblecistas se
declararem espíritas "buscando fugir do estigma".
Nos anos últimos, movimentos de valorização da
cultura negra, ele afirma, levou adeptos a "finalmente se sentirem
mais seguros e orgulhosos para assumir suas religiões".
O estudioso também conjectura
que a doutrina espírita, "do modo como foi sendo configurada
no Brasil, religiosa e conservadora, não se comunica bem com
os dias atuais e ainda menos com as gerações mais novas".
Uma coisa é o pensamento legado
por Kardec, que "traz lógica, serenidade, estudo, autonomia",
diz o autor. Outra bem diferente é a religiosidade presente
nos romances que médiuns brasileiros dizem psicografar, que
viriam encharcados de "maniqueísmo, moralidade, julgamento".
O autor detecta uma abordagem "muito
arrogante e inclemente" dos espíritas brasileiros em geral
sobre tópicos facilmente polarizantes, como aborto, direitos
LGBTQIA+ e eutanásia. "Tratamos esses graves assuntos
de forma incoerente e em total desacordo com temas estruturantes do
espiritismo, como o respeito ao livre-arbítrio, a reencarnação
e a compaixão."
Um olhar atento ao que Kardec escreveu
no século 19, na interpretação de Caldini Neto,
inviabiliza qualquer preconceito com a homossexualidade, por exemplo.
Os espíritos, escreveu o europeu, não têm sexo
"como o entendeis, porque o sexo depende do organismo físico",
e eles não são feitos de carne. Pondera Caldini Neto:
"Se quem ama é o espírito, não o corpo,
qual o problema em dois espíritos se amarem, independentemente
dos corpos que utilizam naquele momento?"
O aborto talvez seja o mais minado
dos campos. Kardec é claro ao afirmar, no que seria uma resposta
que espíritos lhe teriam soprado: "A mãe, ou qualquer
pessoa, cometerá sempre um crime ao tirar a vida de uma criança
antes do seu nascimento, porque é impedir a alma de suportar
as provas das quais o corpo devia ser instrumento".
Mas há sutilezas nessa questão,
argumenta o escritor. Kardec também diz no livro máximo
do espiritismo que a união entre alma e corpo "começa
na concepção, mas só se completa no instante
do nascimento", e que "o grito que sai da criança
anuncia que ela se encontra entre os vivos e servidores de Deus".
Ao apresentar uma leitura menos dolosa
do aborto, Caldini Neto afirma que, "durante a gravidez, o espírito
designado para esse corpo vive fora dele, estando ligado, mas não
ativo no feto". Haveria apenas vida biológica, e não
espiritual, no feto, portanto.
Ele recorre a dados como o fato de
6 em cada 10 vítimas de abuso sexual no Brasil serem menores
de 14 anos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública. Seriam criminosas se abortassem filhos de seu violador?
"É bom frisar que ninguém
é a favor do aborto. Eu tampouco. Mas existem situações
em que o trauma do aborto talvez seja a solução menos
ruim. E, do ponto de vista do espírito, é uma oportunidade
perdida que terá que ser recomeçada."
O autor, que fez carreira no universo
executivo e já presidiu a Editora Abril, diz ter uma "visão
mais contemporânea do espiritismo", mas discorda do adjetivo
progressista para ele. "Sou espírita e pronto."
Mas admite um "espiritismo aberto,
progressivo e, aqui sim cabe o termo, progressista" ao conciliar
a doutrina com a ciência. "O espiritismo não é
uma revelação divina imutável e inquestionável,
mas uma filosofia de elaboração coletiva, de espíritos.
Kardec disse claramente que, conforme a ciência avançar,
se algum preceito do espiritismo se mostrar em erro, o espiritismo
deve se corrigir."
É o caso, para ele, do uso
medicinal de princípios ativos extraídos da maconha,
como o canabidiol, eficientes para tratar males como dores e convulsões
e adotado em casos de Alzheimer. Se for para "ajudar o ser humano
a minimizar seu sofrimento, viver melhor e progredir", diz, o
espiritismo está dentro. Ao menos aquele em que acredita.
A essência do espiritismo
Quando Lançamento nesta quarta (6/8), das
19h às 21h30
Onde Livraria da Vila - Shopping JK Iguatemi (av. Juscelino Kubitschek,
2041 - Itaim Bibi, São Paulo)
Telefone (11) 5180-4790
Preço R$ 59,90 (352 págs.)
Autoria Alexandre Caldini Neto
Editora Sextante/GMT
Link: https://sextante.com.br/products/a-essencia-do-espiritismo