O francês Allan Kardec, o codificador da doutrina
espírita, morreu há mais de 150 anos e deixou um vasto
legado. De lá para cá, o mundo passou por profundas transformações.
Será que suas ideias podem ajudar o mundo atual?
Essa é a ideia do recém-lançado
“Kardec para o Século 21”, de Dora Incontri, jornalista,
mestre, doutora e pós-doutora em filosofia da educação
pela Universidade de São Paulo, sócia-fundadora da Editora
Comenius, além de dirigir uma experiência de educação
alternativa, a Universidade Livre Pampédia.

Dora Incontri publica o livro “Kardec para
o Século 21” — Foto: Arquivo Pessoal
A obra é um diálogo entre o espiritismo
e o pensamento contemporâneo. “Trata-se de um livro que
foi sendo escrito no decorrer dos últimos dez anos, entre avanços
e paradas, por diversos motivos, mas isso serviu para um amadurecimento
das ideias e do próprio tempo histórico”, comenta
a escritora.
Para ela, no entanto, a publicação sai
no momento certo, “com intenção de colocar Kardec
em diálogo com nossos tempos”. “Primeiro, situando-o
no seu século, compreendendo seus condicionamentos históricos
e seus limites. Depois, apresentando aquilo que é atemporal,
que é mais sólido da filosofia espírita para debatermos
com ideias atuais e com perplexidades que enfrentamos hoje”.
Dora considera que, na obra de Kardec, há coisas
datadas, que exigem que sejam usadas “lentes críticas”
de modo a atualizá-las. “Mas há contribuições
ainda muito pertinentes e atemporais, que só Kardec trouxe e
que é preciso ressaltar. Por exemplo, o seu trato com a mediunidade,
como lidar de forma segura, ética e produtiva com ela; a questão
da reencarnação numa dimensão evolucionista e pedagógica;
a possibilidade de investigarmos cientificamente os fenômenos
mediúnicos; a retomada de uma ética inspirada em Jesus,
sem os dogmas e mitos das igrejas”.
Kardec foi um educador que estudou cientificamente o
fenômeno mediúnico. Pergunto a ela se, de alguma forma,
seu legado foi subvertido ao se transformar em uma religião.
“A questão da religião é
complexa, e eu analiso esse assunto detidamente no livro. Kardec não
pretendia que o espiritismo se transformasse numa religião, no
sentido tradicional do termo, com dogmas, hierarquias, rituais. Mas,
ao mesmo tempo, ele escreveu ‘O Evangelho segundo o Espiritismo’,
em que preconizava a oração. Ele mesmo tinha uma inclinação
bastante religiosa”, comenta Dora.
Segundo ela, há atualmente um sem-número
de manuscritos inéditos do pensador francês, que estão
sendo transcritos, traduzidos e publicados pelo Projeto Kardec (https://projetokardec.ufjf.br),
da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
“Muitas preces, pensamentos que demonstram a religiosidade de
Kardec. Então, minha proposição nesse livro é
que assumamos uma palavra, que não era usada no seu tempo e que
traduz perfeitamente o que Kardec queria para o espiritismo: espiritualidade.
Aliás, uma espiritualidade livre e crítica. Mas, sim,
no Brasil, o espiritismo se transformou numa religião, no sentido
bem fechado do termo, num modo que não pretendia Kardec”,
observa a autora.
Ela sustenta que essa obra “pretende também
intervir na realidade, ajudando a mudar o rumo do movimento espírita”,
de que ela faz parte, “mas que perdeu em grande parte horizontes
de transcendência, de criticidade, de racionalidade”. “Kardec
e os espíritos que com ele dialogam deixaram bem claro que o
espiritismo pretendia ser um agente de transformação da
sociedade”.
E emenda: “Em termos cristãos, podemos
dizer que devemos nos empenhar na implantação do reino
de Deus no mundo. Mas o movimento espírita brasileiro, justamente
por ter-se tornado essa religião à moda dogmática,
se tornou conservador, não engajado em ideias progressistas,
que propõem mudanças no mundo”.
Dora finaliza comemorando que, nos últimos anos,
tem, “felizmente, visto brotar diversos movimentos internos, chamados
de ‘progressistas’ (e esse foi um termo que Kardec usou
para qualificar o próprio espiritismo), que trabalham de forma
mais questionadora e aberta, colocando-se em diálogo com os problemas
contemporâneos”. “Mas nós, da Editora Comenius
e da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita
(mantenedora da Universidade Livre Pampédia) já estamos
nessa caminhada há mais de 20 anos. ‘Kardec para o século
21’ é um marco decisivo de todo esse trabalho”.
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Lançamento
“Kardec para o Século 21”
Dora Incontri
Editora Comenius
321 páginas
R$ 95
Onde comprar: https://editoracomenius.com.br

Como entender Kardec hoje? Que espiritismo queremos?
De que espiritismo precisamos? Qual a atualidade e qual a datação
histórica das obras de Kardec? Como podemos dialogar com as ideias
e com as angústias contemporâneas? Qual a proposta espírita
para esse mundo em profunda crise?
Dora Incontri se propõe nesse livro a
fazer um encontro entre as ideias de Kardec do século 19 com
correntes do pensamento contemporâneo. Um diálogo crítico,
para reler Kardec em nossos tempos e trazer ao mesmo tempo o contexto
em que as ideias espíritas nasceram na França daquela
época.
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Fonte:
https://www.otempo.com.br