País envelhece e enfrenta
dilema para ampliar rede de abrigos públicos para idosos

Há três anos, Arnaldo Pedro da Silva,
67, teve que se adaptar a uma nova rotina quando passou a morar na
Ilpi (Instituição de Longa Permanência para Idosos)
da Vila Mariana, zona sul de São Paulo.
Viúvo e sem contato com seu único filho,
Arnaldo morava sozinho e sofreu um infarto em uma rua no centro de
Diadema, município onde vivia. Como passou a precisar de cuidados
permanentes, ele foi encaminhado à residência em 2021.
Em dez anos, o número de idosos como Arnaldo,
acolhidos em instituições conveniadas a estados e municípios,
cresceu 65% no Brasil - saltou de 40,6 mil em 2012 para 67,2 mil em
2022.
Mesmo com esse crescimento, as vagas disponíveis
estão longe de atender a demanda e a situação
pode piorar, pois o ritmo de envelhecimento da população
no país acelera.
O Censo Demográfico 2022, divulgado ano passado
pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),
apontou que 11% dos brasileiros têm 65 anos ou mais. Já
são 22,2 milhões de brasileiros nesta faixa etária
no país.


'Início foi difícil'
O dia a dia na Ilpi é tranquilo, diz Arnaldo.
Ele gosta de passar as tardes assistindo à televisão
e também descobriu novos passatempos, como o dominó.
A instituição, que tem capacidade
para até 30 idosos e para cobrir todos os turnos conta com
28 funcionários, entre assistentes sociais, enfermeiras e
profissionais da limpeza, é mantida pelo Instituto Novos
Horizontes, conveniado com a Prefeitura —o repasse à
entidade é de R$ 124 mil por mês.
No local, os residentes têm acesso também
a dois funcionários de uma Unidade Básica de Saúde,
para acompanhamento com o SUS. Entre as atividades, estão
passeios, como ida ao cinema — o que as funcionárias
dizem ser o mais requisitado pelos conviventes.
A aposentada Rosa Nullman, 86, também vive
na Ilpi Vila Mariana. Ex-vendedora de roupas no bairro do Bom Retiro,
ela foi para a instituição em 2017, um ano depois
da abertura da unidade. "No início foi difícil,
principalmente para a gente, que está acostumada com a nossa
rotina em casa."
Hoje, Rosa decora seu quarto, compartilhado com
uma colega, com objetos que deixam o espaço com sua cara,
como o retrato de sua única filha. Elas ainda mantêm
contato, ainda que com menos frequência.
Sem casa própria, ela e o marido foram encaminhados
para a instituição. "Tivemos a chance de vir
juntos para cá, mas ele tinha muita resistência. Ele
faleceu oito meses depois que chegamos", conta.
Entre suas atividades diárias, a preferida
é o caça-palavras. Vaidosa, ela também sai
da instituição para fazer as unhas na manicure semanalmente.
Sinto que as pessoas se assustam
quando eu digo que moro em uma casa de repouso, ainda tem muito
preconceito. Mas não deixo de fazer as coisas de que
gosto
Rosa Nullman

Oferta de vagas ainda é restrita
Os dois principais serviços conveniados com o poder público
no Brasil para o acolhimento de idosos são:
- Ilpi (Instituição de Longa Permanência para
Idosos): instituições governamentais ou não governamentais
que funcionam como residência permanente. São voltadas
para idosos em situação de vulnerabilidade social (risco
pessoal e social, como fragilidade de vínculos familiares,
negligência, abandono, violência física, psicológica
ou econômica).
Centro-Dia: unidade pública onde eles podem permanecer durante
um período, com refeições e atividades. Também
é voltado para pessoas que dependem de cuidados para a realização
de suas atividades diárias, que tiveram suas limitações
agravadas por violações de direitos (isolamento social,
confinamento, falta de cuidados adequados, alto grau de estresse do
cuidador familiar). A equipe do Centro-Dia compartilha, com os cuidadores
das famílias, os cuidados necessários.
A maior parte da oferta de vagas para acolhimento de idosos está
no setor privado.
A médica geriatra Karla Giacomin, consultora da OMS (Organização
Mundial da Saúde) para cuidados de longa duração,
afirma que o Brasil tem ainda uma política muito restrita.
Hoje, só vai para uma
instituição aquele que estiver em violação
de direito. É uma leitura equivocada do nosso tempo porque
as nossas famílias não são mais aquelas
numerosas. E a mulher também tem outro papel na sociedade.
Cada vez menos existe aquela situação de uma mulher
exclusivamente focada em cuidar dos idosos.
Karla Giacomin, geriatra
O maior desafio, diz Giacomin, é
ampliar o acesso e o repasse das entidades. A Sociedade São
Vicente de Paulo, organização internacional civil formada
por católicos, estima que as prefeituras pagam às entidades
mantenedoras das instituições, em média, R$ 250
por mês por pessoa idosa atendida.
"Isso é completamente inviável. As exigências
são grandes e a contrapartida do Estado é muito pequena.
As instituições privadas vão atingir seu público.
A questão é o número de pessoas que estão
envelhecendo e que não têm acesso a esse cuidado."
Além da expansão da rede pública, Giacomin diz
que é preciso uma mudança de cultura. "Nossa sociedade
é extremamente idadista, ou seja, ela tem preconceito contra
velhice e também tem um preconceito contra essas instituições",
diz a médica.
Nosso maior desafio é
rever e construir uma imagem diferente das instituições,
porque as pessoas têm a imagem do abandono, da negligência,
da violência e dos maus tratos.
Karla Giacomin, geriatra

Ir para uma instituição ajudou
Vó Cida a tratar depressão
A aposentada Aparecida Lara de Santana, conhecida como Vó
Cida, completou 90 anos em janeiro. Enfermeira por quase quatro décadas,
ela lidou de perto com o dilema de famílias que precisam de
amparo e assistência para familiares idosos.
"Sempre fui muito independente. Pensei que viria para cá
para trabalhar", brinca, em uma tarde no Centro-Dia de Pinheiros,
zona oeste de São Paulo. O local é gerido pelo Camp
(Centro Assistencial de Motivação Profissional) e recebe
repasse mensal de R$ 80 mil para manter seu funcionamento.
Há dois anos, Cida perdeu seu marido, que tinha Alzheimer,
com quem vivia em Pirituba, na zona norte da capital. Com sinais de
depressão, ela se mudou para a mesma rua onde sua filha morava,
numa tentativa de amenizar a solidão.
"Sempre fui muito alegre e brincalhona, mas estava me fechando
muito. Ficava muito sozinha porque minha filha, seu marido e meus
dois netos saíam para trabalhar e estudar", contou à
reportagem.
Sua filha trouxe uma alternativa: frequentar um Centro-Dia. "Ela
pesquisou, mas não tinha me contado para não me assustar.
Depois, me disse que marcou uma entrevista. Desde minha primeira visita,
me encantei com tudo, principalmente com o tratamento, a educação
e a disciplina da equipe."
Cida frequenta o local três vezes na semana, e o que ela mais
gosta são as aulas de educação física
e a convivência com outras pessoas. De manhã, sua filha
a leva até a instituição e, no final do dia,
ela volta de perua para casa. "Melhorei muito desde que comecei
a vir para cá."

No Centro-Dia, os idosos permanecem por um período
na instituição,
onde têm alimentação e participam de atividades
em grupo
Idosos em situação
de rua preocupam especialistas
A gerontóloga Rosa Chubaci, professora do curso de gerontologia
da USP, aponta que outra preocupação para o contexto
de envelhecimento no país é o aumento do número
de idosos em situação de rua.
Quase 24 mil pessoas maiores de 60 anos não têm um lar
para viver no Brasil, segundo o Cadastro Único, do governo
federal. Em São Paulo, estado que tem metade deste contingente,
os idosos representam 12% do total de pessoas em situação
de rua.
"Esse número aumentou muito por conta da pandemia e também
pela situação econômica do país. Há
um crescimento muito grande de pessoas idosas em situação
de rua porque essas pessoas muitas vezes já não têm
renda ou a renda não é suficiente, e as famílias
não cuidam deles ou eles não têm família",
diz Chubaci.
A especialista afirma que o desafio do país é criar
uma rede de políticas públicas para incentivar e apoiar
esse tipo de serviço de cuidado com o idoso, como países
que já passaram por esse processo fizeram.
"Com a longevidade, as pessoas estão precisando mais
desses serviços. Isso é normal. Em outros países
como Japão, que já é envelhecido, temos 40 mil
Centros-Dias, 30 mil residenciais para idosos. Mas aqui, a rede não
chega próximo a um número desses", pondera a professora.
Antigamente, as pessoas tinham
mais filhos, as famílias eram mais numerosas, então
conseguiam cuidar do seu idoso. Porém, daqui para frente
não será mais assim. Precisamos que políticas
sejam desenvolvidas para cuidar das pessoas mais longevas.
Rosa Chubaci, gerontóloga

Arnaldo (à esquerda) está em uma Ilpi, e Vó
Cida (abaixo) frequentam um Centro-Dia; ambos participam de
estratégias de acolhimento a idosos em vulnerabilidade

Governo prioriza idosos mais vulneráveis
O governo federal diz que a prioridade, no momento, é fazer
um levantamento da situação das instituições
no país e focar nos grupos em vulnerabilidade, informou Alexandre
Silva, secretário nacional dos direitos humanos da pessoa idosa.
O número de instituições que existem no Brasil
pode ser muito maior, já que muitas não estão
cadastradas e outras funcionam na clandestinidade.
O último estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada) que mapeou a rede de instituições de longa
permanência para idosos no Brasil é de 2011. Naquele
momento, o país tinha mais de 20 milhões de idosos,
mas apenas 218 instituições públicas de longa
permanência para idosos.
"O IBGE está atualizando esses dados das Ilpi para fazer
um diagnóstico melhor, dando apoio para que elas possam funcionar
na legalidade e, assim, possam receber recursos do poder público",
explica Silva.
Outra iniciativa é atrair emendas parlamentares como um instrumento
para aumentar recursos para o setor e driblar o desafio do subfinanciamento
da área.
No Centro-Dia e na Ilpi da Vila Mariana, funcionários dizem
notar, cada vez mais, um aumento da procura. "Toda semana alguém
vem se informar e procurar vaga para familiares ou até para
si. Não temos como atender", disse uma assistente social
da Prefeitura de São Paulo.
A fila de quem procura pelo serviço na capital é gerida
pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social,
que não informou, até o fechamento da reportagem, quantas
pessoas aguardam por uma vaga no município.
Aos 90, Cida defende o aumento desta oferta. "As pessoas têm
que ter paciência com seu idoso, e nós precisamos nos
movimentar. Estar aqui, fazer as atividades, faz muita diferença
para nossa saúde."
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