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14/02/2024

 


Desafio à vista

 

País envelhece e enfrenta dilema para ampliar rede de abrigos públicos para idosos

 

 

por Rute Pina
De VivaBem, em São Paulo

 

 

 

Há três anos, Arnaldo Pedro da Silva, 67, teve que se adaptar a uma nova rotina quando passou a morar na Ilpi (Instituição de Longa Permanência para Idosos) da Vila Mariana, zona sul de São Paulo.

Viúvo e sem contato com seu único filho, Arnaldo morava sozinho e sofreu um infarto em uma rua no centro de Diadema, município onde vivia. Como passou a precisar de cuidados permanentes, ele foi encaminhado à residência em 2021.

Em dez anos, o número de idosos como Arnaldo, acolhidos em instituições conveniadas a estados e municípios, cresceu 65% no Brasil - saltou de 40,6 mil em 2012 para 67,2 mil em 2022.

Mesmo com esse crescimento, as vagas disponíveis estão longe de atender a demanda e a situação pode piorar, pois o ritmo de envelhecimento da população no país acelera.

O Censo Demográfico 2022, divulgado ano passado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apontou que 11% dos brasileiros têm 65 anos ou mais. Já são 22,2 milhões de brasileiros nesta faixa etária no país.

 

 


'Início foi difícil'

O dia a dia na Ilpi é tranquilo, diz Arnaldo. Ele gosta de passar as tardes assistindo à televisão e também descobriu novos passatempos, como o dominó.

A instituição, que tem capacidade para até 30 idosos e para cobrir todos os turnos conta com 28 funcionários, entre assistentes sociais, enfermeiras e profissionais da limpeza, é mantida pelo Instituto Novos Horizontes, conveniado com a Prefeitura —o repasse à entidade é de R$ 124 mil por mês.

No local, os residentes têm acesso também a dois funcionários de uma Unidade Básica de Saúde, para acompanhamento com o SUS. Entre as atividades, estão passeios, como ida ao cinema — o que as funcionárias dizem ser o mais requisitado pelos conviventes.

A aposentada Rosa Nullman, 86, também vive na Ilpi Vila Mariana. Ex-vendedora de roupas no bairro do Bom Retiro, ela foi para a instituição em 2017, um ano depois da abertura da unidade. "No início foi difícil, principalmente para a gente, que está acostumada com a nossa rotina em casa."

Hoje, Rosa decora seu quarto, compartilhado com uma colega, com objetos que deixam o espaço com sua cara, como o retrato de sua única filha. Elas ainda mantêm contato, ainda que com menos frequência.

Sem casa própria, ela e o marido foram encaminhados para a instituição. "Tivemos a chance de vir juntos para cá, mas ele tinha muita resistência. Ele faleceu oito meses depois que chegamos", conta.

Entre suas atividades diárias, a preferida é o caça-palavras. Vaidosa, ela também sai da instituição para fazer as unhas na manicure semanalmente.

 

Sinto que as pessoas se assustam quando eu digo que moro em uma casa de repouso, ainda tem muito preconceito. Mas não deixo de fazer as coisas de que gosto
Rosa Nullman

 

 

 


Oferta de vagas ainda é restrita

Os dois principais serviços conveniados com o poder público no Brasil para o acolhimento de idosos são:

- Ilpi (Instituição de Longa Permanência para Idosos): instituições governamentais ou não governamentais que funcionam como residência permanente. São voltadas para idosos em situação de vulnerabilidade social (risco pessoal e social, como fragilidade de vínculos familiares, negligência, abandono, violência física, psicológica ou econômica).

Centro-Dia: unidade pública onde eles podem permanecer durante um período, com refeições e atividades. Também é voltado para pessoas que dependem de cuidados para a realização de suas atividades diárias, que tiveram suas limitações agravadas por violações de direitos (isolamento social, confinamento, falta de cuidados adequados, alto grau de estresse do cuidador familiar). A equipe do Centro-Dia compartilha, com os cuidadores das famílias, os cuidados necessários.

A maior parte da oferta de vagas para acolhimento de idosos está no setor privado.

A médica geriatra Karla Giacomin, consultora da OMS (Organização Mundial da Saúde) para cuidados de longa duração, afirma que o Brasil tem ainda uma política muito restrita.

 

Hoje, só vai para uma instituição aquele que estiver em violação de direito. É uma leitura equivocada do nosso tempo porque as nossas famílias não são mais aquelas numerosas. E a mulher também tem outro papel na sociedade. Cada vez menos existe aquela situação de uma mulher exclusivamente focada em cuidar dos idosos.
Karla Giacomin, geriatra

 

O maior desafio, diz Giacomin, é ampliar o acesso e o repasse das entidades. A Sociedade São Vicente de Paulo, organização internacional civil formada por católicos, estima que as prefeituras pagam às entidades mantenedoras das instituições, em média, R$ 250 por mês por pessoa idosa atendida.

"Isso é completamente inviável. As exigências são grandes e a contrapartida do Estado é muito pequena. As instituições privadas vão atingir seu público. A questão é o número de pessoas que estão envelhecendo e que não têm acesso a esse cuidado."

Além da expansão da rede pública, Giacomin diz que é preciso uma mudança de cultura. "Nossa sociedade é extremamente idadista, ou seja, ela tem preconceito contra velhice e também tem um preconceito contra essas instituições", diz a médica.

 

Nosso maior desafio é rever e construir uma imagem diferente das instituições, porque as pessoas têm a imagem do abandono, da negligência, da violência e dos maus tratos.
Karla Giacomin, geriatra


Ir para uma instituição ajudou Vó Cida a tratar depressão

A aposentada Aparecida Lara de Santana, conhecida como Vó Cida, completou 90 anos em janeiro. Enfermeira por quase quatro décadas, ela lidou de perto com o dilema de famílias que precisam de amparo e assistência para familiares idosos.

"Sempre fui muito independente. Pensei que viria para cá para trabalhar", brinca, em uma tarde no Centro-Dia de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. O local é gerido pelo Camp (Centro Assistencial de Motivação Profissional) e recebe repasse mensal de R$ 80 mil para manter seu funcionamento.

Há dois anos, Cida perdeu seu marido, que tinha Alzheimer, com quem vivia em Pirituba, na zona norte da capital. Com sinais de depressão, ela se mudou para a mesma rua onde sua filha morava, numa tentativa de amenizar a solidão.

"Sempre fui muito alegre e brincalhona, mas estava me fechando muito. Ficava muito sozinha porque minha filha, seu marido e meus dois netos saíam para trabalhar e estudar", contou à reportagem.

Sua filha trouxe uma alternativa: frequentar um Centro-Dia. "Ela pesquisou, mas não tinha me contado para não me assustar. Depois, me disse que marcou uma entrevista. Desde minha primeira visita, me encantei com tudo, principalmente com o tratamento, a educação e a disciplina da equipe."

Cida frequenta o local três vezes na semana, e o que ela mais gosta são as aulas de educação física e a convivência com outras pessoas. De manhã, sua filha a leva até a instituição e, no final do dia, ela volta de perua para casa. "Melhorei muito desde que comecei a vir para cá."

 


No Centro-Dia, os idosos permanecem por um período na instituição,
onde têm alimentação e participam de atividades em grupo

 

 


Idosos em situação de rua preocupam especialistas

A gerontóloga Rosa Chubaci, professora do curso de gerontologia da USP, aponta que outra preocupação para o contexto de envelhecimento no país é o aumento do número de idosos em situação de rua.

Quase 24 mil pessoas maiores de 60 anos não têm um lar para viver no Brasil, segundo o Cadastro Único, do governo federal. Em São Paulo, estado que tem metade deste contingente, os idosos representam 12% do total de pessoas em situação de rua.

"Esse número aumentou muito por conta da pandemia e também pela situação econômica do país. Há um crescimento muito grande de pessoas idosas em situação de rua porque essas pessoas muitas vezes já não têm renda ou a renda não é suficiente, e as famílias não cuidam deles ou eles não têm família", diz Chubaci.

A especialista afirma que o desafio do país é criar uma rede de políticas públicas para incentivar e apoiar esse tipo de serviço de cuidado com o idoso, como países que já passaram por esse processo fizeram.

"Com a longevidade, as pessoas estão precisando mais desses serviços. Isso é normal. Em outros países como Japão, que já é envelhecido, temos 40 mil Centros-Dias, 30 mil residenciais para idosos. Mas aqui, a rede não chega próximo a um número desses", pondera a professora.

 

Antigamente, as pessoas tinham mais filhos, as famílias eram mais numerosas, então conseguiam cuidar do seu idoso. Porém, daqui para frente não será mais assim. Precisamos que políticas sejam desenvolvidas para cuidar das pessoas mais longevas.
Rosa Chubaci, gerontóloga

 


Arnaldo (à esquerda) está em uma Ilpi, e Vó Cida (abaixo) frequentam um Centro-Dia; ambos participam de estratégias de acolhimento a idosos em vulnerabilidade

 

 


Governo prioriza idosos mais vulneráveis

O governo federal diz que a prioridade, no momento, é fazer um levantamento da situação das instituições no país e focar nos grupos em vulnerabilidade, informou Alexandre Silva, secretário nacional dos direitos humanos da pessoa idosa.

O número de instituições que existem no Brasil pode ser muito maior, já que muitas não estão cadastradas e outras funcionam na clandestinidade.

O último estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que mapeou a rede de instituições de longa permanência para idosos no Brasil é de 2011. Naquele momento, o país tinha mais de 20 milhões de idosos, mas apenas 218 instituições públicas de longa permanência para idosos.

"O IBGE está atualizando esses dados das Ilpi para fazer um diagnóstico melhor, dando apoio para que elas possam funcionar na legalidade e, assim, possam receber recursos do poder público", explica Silva.

Outra iniciativa é atrair emendas parlamentares como um instrumento para aumentar recursos para o setor e driblar o desafio do subfinanciamento da área.

No Centro-Dia e na Ilpi da Vila Mariana, funcionários dizem notar, cada vez mais, um aumento da procura. "Toda semana alguém vem se informar e procurar vaga para familiares ou até para si. Não temos como atender", disse uma assistente social da Prefeitura de São Paulo.

A fila de quem procura pelo serviço na capital é gerida pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, que não informou, até o fechamento da reportagem, quantas pessoas aguardam por uma vaga no município.

Aos 90, Cida defende o aumento desta oferta. "As pessoas têm que ter paciência com seu idoso, e nós precisamos nos movimentar. Estar aqui, fazer as atividades, faz muita diferença para nossa saúde."

 

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Fonte: https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/abrigos-publicos-para-idosos/#cover

 

 

 

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