Mas o que significa ser "sem religião"
no Brasil? Por que esse grupo cresce, e como isso se relaciona com
a diminuição da população católica
e ascensão das religiões evangélicas no país?
Por que esse fenômeno é maior entre os jovens e nas
grandes cidades? E que relação tudo isso tem com o
comportamento eleitoral da juventude brasileira?
A BBC News Brasil ouviu três cientistas sociais especialistas
em religião para explicar o fenômeno.
Quem são os brasileiros 'sem religião'
Em primeiro lugar, é preciso ter clareza que apenas uma
minoria dos "sem religião" no Brasil são
ateus ou agnósticos. Os ateus são pessoas que não
acreditam na existência de Deus, já os agnósticos
avaliam que não é possível afirmar com certeza
se Deus existe ou não.
No Censo de 2010, por exemplo, dos 15,3 milhões de brasileiros
que se diziam sem religião, apenas 615 mil (4% dos sem religião)
se consideravam ateus e 124 mil se afirmavam agnósticos (0,8%).
"A maior parcela dos sem religião tem a ver com uma
desinstitucionalização, o que quer dizer que o sujeito
está afastado das instituições religiosas,
mas ele pode ter uma visão de mundo e até mesmo práticas
pessoais informadas por crenças religiosas", explica
Silvia Fernandes, cientista social e professora da UFRRJ (Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro).
Entre outros livros, ela é autora de Jovens religiosos e
o catolicismo — escolhas, desafios e subjetividades (Quartet/FAPERJ,
2010), Novas Formas de Crer — católicos, evangélicos
e sem-religião nas cidades (Promocat, 2009) e organizadora
de Mudança de religião no Brasil — desvendando
sentidos e motivações (Palavra e Prece, 2006).
"Então esse sujeito é sem religião porque
não está vinculado a uma igreja, porque não
frequenta, mas pode ter crenças relacionadas a alguma religião
que já teve ou ter uma dimensão mais pluralista da
religiosidade", diz a especialista.
"Ele incorpora elementos de uma espiritualidade mais fluida,
pode fazer um sincretismo [misturar elementos de diferentes religiões],
pode ter crenças muito associadas ao universo do cristianismo
— acreditar em Deus, em Jesus, em Maria — mas seguir
se declarando sem religião."
Mariana, a carioca de Irajá que acredita em Deus, em Jesus,
nas entidades da umbanda e em energias é um exemplo típico
desses brasileiros sem religião, mas de forma alguma sem
fé.
Por que cada vez mais brasileiros se dizem
'sem religião'
Regina Novaes, pesquisadora do ISER (Instituto Superior de Estudos
da Religião), observa que a fase dos 16 aos 24 anos, onde
os "sem religião" são mais presentes, é
uma fase de experimentação.
"Há uma trajetória de busca e experimentação
que foi colocada para as novas gerações que não
era colocada para as antigas", diz a pesquisadora.
Ela observa que, atualmente, muitos jovens crescem em famílias
plurirreligiosas, por exemplo, com avó mãe de santo,
pai católico não praticante e mãe evangélica.
Esses jovens não sentem a obrigação de seguir
uma religião de família e tendem a buscar uma religiosidade
própria.
Essa fase de experimentação pode seguir dois caminhos:
uma busca que resulta mais tarde na escolha de uma religião;
ou a construção de uma síntese pessoal, em
que a pessoa se diz "sem religião" por não
pertencer a nenhuma igreja, mas combina diversos elementos de fé.
"Isso é interessante, porque havia uma ideia de que,
com o passar do tempo e o avanço da secularização
[processo através do qual a religião perde influência
sobre as variadas esferas da vida], haveria um aumento das pessoas
que se desvinculariam da fé, do sobrenatural. Mas isso não
está acontecendo. O que está acontecendo são
outros modos de ter fé", diz Novaes.
A pesquisadora observa que esse é um fenômeno que
vem desde a década de 1990, mas há outros dois processos
mais recentes que têm contribuído para o avanço
dos "sem religião".
Luta antirracista e 'desigrejados'
O primeiro deles é a emergência das religiões
afro-brasileiras como uma opção cultural, diante do
fortalecimento da luta antirracista no país.
"Junto à questão racial, vem a questão
da ancestralidade. Então há muitos jovens que deixam
de ser católicos, protestantes, evangélicos e se ligam
a um terreiro, a uma mãe de santo ou pai de santo",
diz Novaes.
"Mas há também uma parcela que não vai
se ligar institucionalmente, mas vai se sentir parte de uma cultura.
Então eles podem se dizer sem religião, mas participar
de festas, cultuar orixás, usar signos como turbantes e colares,
como parte de um processo identitário."
Um segundo fenômeno são as novas gerações
de evangélicos, criados na igreja, mas que passam a ter problemas
com seus pastores, por questões morais, comportamentais,
por críticas políticas ou com relação
à maneira de conduzir a igreja.
Muitos desses jovens vão para outras igrejas, como as alternativas
ou inclusivas. Mas há um outro grupo que passa a se definir
através de uma palavra nova: são os "desigrejados",
jovens que seguem partilhando do mundo evangélico, mas que
ficam sem igreja.
"Ao ficar sem igreja, muitos desses jovens podem passar a
se definir como sem religião. Porque, diferentemente do catolicismo,
em que o batizado católico é, no mundo evangélico,
a frequência à igreja é fundamental para a pessoa
se definir", observa a especialista.
Um fenômeno jovem e urbano
Para Ricardo Mariano, professor da USP (Universidade de São
Paulo) e autor do livro Neopentecostais: Sociologia do novo
pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999), a perda de força
da igreja católica é um dos motivos que explicam o
avanço dos "sem religião".
Em 1950, quase 94% da população brasileira se dizia
católica, percentual que caiu a 65% no Censo demográfico
de 2010 e está em 49% entre os entrevistados do Datafolha
de 2022.
"O forte declínio dos católicos em idade de reprodução
contribui para a redução no número de crianças
educadas em famílias católicas e consequentemente,
dos jovens com formação católica", observa
o sociólogo.
"Além disso, a igreja católica tradicionalmente
tem um enorme contingente de católicos ditos 'nominais',
ou seja, que não frequentam os cultos, não estão
expostos às autoridades eclesiásticas e nem às
suas orientações doutrinais, morais e comportamentais",
acrescenta.
"Isso também reduz a socialização religiosa
intrafamiliar, aquela que ocorre dentro da família, o que
torna menos provável que os filhos de pais católicos
permaneçam na religião ou sejam por ela influenciados."
Para o pesquisador, outro fator que explica a maior parcela de
jovens sem religião é o fato de que esse grupo tem
redes de sociabilidade mais diversas — diferentemente, por
exemplo, dos idosos, cuja sociabilidade muitas vezes é restrita
à família e à igreja — e está
exposto a múltiplas fontes de informação, como
colégios, universidades, redes sociais e veículos
midiáticos.
"Os jovens ocupam seu tempo engajados em atividades de lazer
e entretenimento — o funk, o hip hop, blocos e escolas de
carnaval, e por aí vai — que muitas vezes entram em
conflito com orientações comportamentais e morais
das igrejas cristãs mais conservadoras", observa.
Para Silvia Fernandes, da UFRRJ, isso ajuda a explicar também
por que os "sem religião" são em maior número
nos grandes centros urbanos, como Rio e São Paulo.
"É preciso considerar que mais de 80% da população
brasileira hoje é urbana. E, nas grandes cidades, há
uma celeridade da vida e acesso a uma multiplicidade de informações
que colocam a religião como uma das esferas possíveis
da existência, mas ela não é mais tão
determinante para a sociabilidade e o encontro como no mundo rural",
diz Fernandes.
Escolhas eleitorais
Há relação entre o aumento do número
de jovens "sem religião" e o fato dessa parcela
do eleitorado ser uma das que mais indica intenção
de voto em Lula (PT) nas eleições de outubro, já
que Jair Bolsonaro (PL) construiu sua imagem como um candidato da
comunidade evangélica?
Aqui, os especialistas têm visões diversas.
Para Ricardo Mariano, da USP, isso é sim um fator que contribui
para a melhor performance da candidatura petista junto a esse segmento
da população.
"O governo Bolsonaro abraçou pautas morais ultraconservadoras,
as armas, homofobia, autoritarismo, políticas antiecológicas
e anticientíficas, sobretudo na pandemia. Tudo isso afastou
muito os jovens", observa o professor.
"Eles [os jovens] têm acesso a muita informação
e tendem a ser menos conservadores em uma série de pautas.
Por isso a rejeição maior ao governo Bolsonaro",
avalia.
Já Regina Novaes, do ISER, destaca que é preciso
ter clareza que, assim como os sem religião são uma
categoria fluida, os evangélicos não são um
grupo estático.
"Sim, é possível pensar que mais jovens longe
das igrejas, fazendo suas escolhas, também possam fazer escolhas
mais questionadoras e por isso se aproximar do Lula. Mas qual é
o perigo dessa pergunta?", questiona a pesquisadora.
"É achar que os jovens evangélicos são
estáticos, e que eles são [eleitores de] Bolsonaro,
enquanto os sem religião são [eleitores de] Lula.
Isso não é verdade. Os evangélicos não
são essa massa de manobra que o Bolsonaro pensa que são,
eles têm cor, têm classe social, têm local de
moradia. Esse é um ponto bem importante e acredito que vamos
conhecer melhor o mundo evangélico nessas eleições",
avalia.
Brasil pode nunca vir a ser país
de maioria evangélica?
O crescimento dos sem religião coloca uma dúvida
para o futuro do Brasil: pode ser que o país nunca venha
a ter uma maioria evangélica, como chegaram a prever alguns
analistas?
Olhando para os dados, vemos que, do Censo de 2000 para o de 2010,
o percentual de evangélicos no Brasil saltou de 15% para
22%, e os católicos diminuíram de 74% para 65%.
Já na pesquisa Datafolha desse início de ano para
o Brasil como um todo, os católicos são 49% dos entrevistados,
evangélicos 26% e os sem religião, 14%.
Embora as pesquisas não sejam diretamente comparáveis,
pela diferença de abrangência, os números do
Datafolha trazem algumas pistas do que esperar para o próximo
Censo.
"O declínio histórico do catolicismo continua,
com a igreja católica perdendo fiéis a cada década.
Mas, ao mesmo tempo, você não tem os evangélicos
crescendo na mesma proporção e parte disso é
explicado por esse fenômeno dos sem religião",
diz Fernandes, da UFRRJ.
Para a professora, alguns fatores explicam a perda de ímpeto
da expansão evangélica: em primeiro lugar, as igrejas
pentecostais e neopentecostais deixaram de ser uma novidade.
Um segundo fator é a diversificação na oferta
dessas igrejas, que faz com que elas disputem entre si pelos fiéis,
contribuindo para esse processo de experimentação
característico da experiência religiosa mais fluida
da contemporaneidade.
Por fim, com as igrejas evangélicas já em atividade
há décadas no país, há uma parcela dos
fiéis que se decepcionaram com promessas não cumpridas
de cura, milagres e prosperidade, ou que não conseguem se
integrar às rígidas normas morais e comportamentais,
engrossando as fileiras dos "sem religião".
Para Mariano, da USP, ainda assim é de se esperar que os
evangélicos sejam um dia maioria.
"É inevitável até por razões demográficas,
o perfil dos católicos no Brasil é mais rural, mais
velho do que os evangélicos. Os pentecostais têm um
contingente enorme de pessoas em idade reprodutiva, mais do que
os católicos, além disso, essas igrejas têm
uma grande capacidade de recrutamento e manutenção
de adeptos. Então é uma questão de tempo",
afirma.
Regina Novaes, do ISER, tem outra visão.
"É difícil fazer 'profecia' sociológica,
mas acredito que o Brasil não será um país
evangélico. Por dois motivos: o catolicismo não é
mais 'a religião dos brasileiros', mas ainda é da
maioria dos brasileiros. Ateus e agnósticos vão continuar
sendo minoria, mas a categoria dos sem religião passa a fazer
parte das alternativas presentes do campo religioso", observa.
"Agora, a ideia é não olhar para os sem religião
como uma coisa estática, porque as ofertas [religiosas] continuam
existindo. E o lugar que a religião tem na vida — de
dar sentido a ela, de tornar o sofrimento 'sofrível' —
continua existindo. Então as religiões continuam a
ser recursos culturais para os sem religião", acrescenta.
"O Brasil continuará um país de maioria católica,
os evangélicos crescerão ainda, mas os sem religião
passam a ser uma possibilidade que tem de ser observada."