Reportagem Correiro Fraterno / Out. 2022
Por Eliana Haddad e Izabel Vitusso

Registro de Inventário do final do ano
civil de 1872/1873, assinado por Amélie Boudet, uma das fontes
primárias existentes que comprovam que a 4ª edição
de O céu
e o inferno foi
impressa em fevereiro de 1869 (Kardec em vida) e que a 5ª e
6ª edições de A
Gênese são
do ano de 1869.
Nos dias 27 e 28 de agosto, foi realizado em São Paulo,
na sede da USE, o 17º ENLIHPE – Encontro Nacional da
Liga de Pesquisadores de Espiritismo, tendo como tema central “Coerência
doutrinária na pesquisa espírita”.
O evento, também transmitido ao vivo, reuniu participantes
de diversas áreas do conhecimento, muitos deles acadêmicos
dedicados a trabalhos e estudos sobre temas ligados à espiritualidade.

Participantes da roda de conversa - da esquerda
para a direita:
Alexandre Fontes da Fonseca, Humberto Schubert Coelho, Marco Milani,
Jáder Sampaio
Sob a coordenação do físico e pesquisador Alexandre
Fontes da Fonseca, foram apresentados cinco trabalhos:
>
“Coerência doutrinária, limites e desafios”
(Marco Milani);
> “Allan
Kardec: entre Comte e Diltheys, ou porque o espiritismo não
é uma ciência natural”
(Jáder Sampaio);
> “Reflexões
históricas sobre as propostas da versão definitiva
de A Gênese: revista corrigida e aumentada por Allan Kardec
ou adulterada pós-Kardec?” (Adair Ribeiro
Jr., Carlos Seth Bastos e Luciana Farias);
> “A
classificação dos fenômenos estudados no espiritismo,
metapsíquica e parapsicologia”
(Ricardo Terini) e
> “Coerência
doutrinária no capítulo 12 de Nos domínios
da mediunidade” (Allê De Paula e Alexandre da
Fonseca).
O evento também teve uma seção de apresentação
de projetos de pesquisa. Nela, o homeopata e fisiatra Marcelo Saad,
da Associação Médico-Espírita de São
Paulo (em coautoria com Roberta de Medeiros), apresentou o projeto
“A
alteração da escrita nos textos psicografados é
um ato voluntário do médium ou a caligrafia do comunicante?”,
uma proposta de estudo-piloto em que foi utilizada a grafoscopia
— uma especialidade que aplica recursos de verificação
sobre a autoria da grafia.

Marcelo Saad
O 17º Enlihpe contou com duas plenárias.
Numa delas, o pesquisador convidado, Raphael Casseb, apresentou
algumas perspectivas metodológicas do ensaio “Autoria
e psicografia: a hipótese da sobrevivência em obras
de Chico Xavier”, realizado em conjunto com Alexandre
Caroli e Marina Weiler, e que foi premiado internacionalmente
(1).
Na segunda, o pesquisador, físico e professor de filosofia
da ciência da Unicamp, Silvio Chibeni, apresentou o tema “Kardec,
Hume e a ciência do homem”, encerrando as atividades
do primeiro dia do ENLIHPE 2022.
Durante o encontro, foram lançados os livros:
> 160 anos de O Livro dos Médiuns, com os textos selecionados
do 16º Enlihpe (realizado online, devido à pandemia);
> Coerência doutrinária na pesquisa espírita,
com os textos selecionados do 17º Enlihpe;
> Science of life after death, de Alexander Moreira-Almeida,
Marianna Costa e Humberto Schubert;
Apresentação
de Humberto - vejam o vídeo
> Lançamento de "A obra esquecida de Angeli Torteroli",
de Adair Ribeiro Jr.
Vejam
o vídeo da apresentação
Adair autografando
> de Tiago Paz e Albuquerque - Lançamento do Livro: "Chico
Xavier e o Mundo dos Espíritos, um estudo de representações
sociais" -
vejam
o vídeo da apresentação

Tiago autografando
ENHLIPE - 2023 e 2024
O ENHLIPE de 2023 será realizado em Juiz de Fora, MG, sobre
o tema:
“Perispírito: concepções e pesquisas”.
Em 2024, em São Paulo/SP, sobre os “160 anos de O evangelho
segundo o espiritismo”.
O alinhamento com a codificação
Alexandre Fonseca, fundador do Jornal de Estudos Espíritas,
juntamente com Allê De Paula, destacou a necessidade da análise
doutrinária de subsídios de autores encarnados e desencarnados
para utilização como exemplos e estudo dos conceitos
do espiritismo. Com base na recomendação da própria
doutrina espírita de analisar, separar e ficar com o que
é bom, eles apresentaram um estudo sobre a coerência
doutrinária em cinco pontos selecionados do conteúdo
do capítulo 12 da obra Nos domínios da mediunidade,
de autoria do espírito André Luiz, pela psicografia
de Francisco C. Xavier, sobre a clarividência e clariaudiência.
Um deles diz respeito a Hilário, personagem que desconhece
a doutrina espírita e quer saber se esses fenômenos
se localizavam nos olhos e nos ouvidos do encarnado, sendo esclarecido
ser toda percepção mental, conceito que coincide com
o que Kardec explica em O Livro dos Espíritos, p. 249 A (todas
as percepções são atributos do espírito
e lhes são inerentes ao ser).
“Os demais conceitos apresentados no capítulo seguem
de acordo com o que a doutrina ensina a respeito da mediunidade
e, em particular, sobre as manifestações visuais”,
exemplifica Alexandre Fonseca.
vejam
o vídeo da apresentação

Allê de Paula e Alexandre Fonseca
Termos da parapsicologia e metapsíquica
no espiritismo
O físico e professor Ricardo Andrade Terini, mostrou o emprego
de termos diferentes usados pela parapsicologia e metapsíquica
para as classificações dos fenômenos estudados
e já denominados por Kardec 1855. Diferentes disciplinas
científicas foram criadas e inúmeras sociedades para
pesquisas ao longo do tempo.
“Com a divulgação desses estudos, inclusive
no Brasil, o uso dos termos e conceitos dessas ciências se
misturou àqueles próprios do espiritismo”, explicou
Terini, cujo estudo comparativo procurou justamente recuperar as
principais classificações dos fenômenos psíquicos
ou mediúnicos, buscando reduzir confusões no uso de
termos e conceitos, em particular, na divulgação do
espiritismo.
Ricardo Andrade Terini - As Classificações
dos Fenômenos estudados no Espiritismo, Metapsíquica
e parapsicologia - vejam
o vídeo da apresentação

Ricardo Terini - apresentação
A ciência no tempo de Kardec
Analisando como era a filosofia da ciência na época
de Kardec e atualmente, o psicólogo e pesquisador Jáder
Sampaio, criador do blog Espiritismo
comentado, discorreu sobre o tema “Allan Kardec: entre
Comte e Dilthey, ou porque o espiritismo não é apenas
ciência natural”.
Destacou a faixa de tempo que mostrou mudanças fundamentais
na época de Kardec – de 1830, com a publicação
do Curso de Filosofia, de Augusto Comte, a 1883, com a obra Uma
introdução ao estudo da ciências humanas, de
Wilhelm Dilthey.
Jáder explicou que Kardec desenvolveu o espiritismo num
intervalo entre uma proposta de produção do conhecimento,
que foi a transformação da filosofia natural em ciência
natural, e o nascimento da ciências humanas, trazendo novos
métodos de estudo para seus diferentes objetos e pesquisa.
“Kardec conhecia as discussões metodológicas
de sua época e queria propor um novo conhecimento com status
de ciência e filosofia. A questão da religião
surgiria depois”, elucidou Jáder.
Jáder assinalou que, mais tarde, Dilthey também perceberia
a existência de uma série de disciplinas que seguiam
um método distinto do das ciências naturais, preocupando-se
com o mundo interior do homem. “Isso gerou uma transformação
em métodos e no próprio objeto da filosofia da natureza”,
acrescentou.
vejam
o vídeo da apresentação

Jáder Sampaio - apresentação
A versão definitiva de A Gênese
O estudo foi realizado pelos pesquisadores Adair Ribeiro Jr., Carlos
Seth Bastos, e Luciana Farias, que desenvolvem projetos sobre a
vida e as obras de Kardec, baseados em pesquisa e estudo de textos,
cartas e manuscritos da época, recentemente encontrados em
Paris e que vêm sendo disponibilizados digitalmente (www.allankardec.online).

em primeiro plano, a esquerda, Adair Ribeiro,
Luciana Faria e Carlos Seth (de camiseta vermelha) - ENLIHPE 2022
Eles promoveram uma revisão histórica e uma análise
crítica das diversas propostas que tratam da identificação
da versão definitiva de A gênese. Apresentaram novas
fontes primárias que reforçam serem de Kardec as alterações
da 5ª edição da obra, dentre as quais um exemplar
da sua primeira impressão dessa, de 1869."
“Nenhuma das propostas trouxeram evidências que indique
a interferência de terceiros no texto de A Gênese. Foram
apenas alegações baseadas na existência de diferenças
entre edições, sejam elas originais em francês
ou traduções”, explicaram.
Adair Ribeiro - Museu AKOL – AllanKardec.online,
Carlos Seth - CSI do Espiritismo - https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/
Luciana Faria - https://www.obrasdekardec.com.br/
Vejam
o vídeo da apresentação por Luciana Farias

Luciana Faria
A ciência do homem
O físico e filósofo Silvio Chibeni destacou que a
ciência como conhecemos hoje é relativamente recente
e que, na antiguidade, todos os ramos do saber eram filosofia.
“No século 17, a filosofia natural teve grande avanço
com seus métodos e o desenvolvimento de novas teorias sobre
o mundo, tendo Isaac Newton como sua referência durante 200
anos, inclusive entre os filósofos que estavam interessados
em estudar o ser humano”, salientou Chibeni.
Ele citou o filósofo escocês David Hume, que ao escrever
o livro Um tratado da natureza humana (1740), mostrou a necessidade
de se modificar a forma de estudar o homem – não biologicamente,
mas como ser pensante –, propondo adaptar o método
experimental também para as questões morais, o que
denominou de “ciência do homem”.
“No final do século 19, início do século
20, não havia um projeto integrado para as ciências
humanas que, como Newton, nas ciências da natureza, pudesse
servir de paradigma”, observou, lembrando que Kardec também
tinha esse mesmo projeto, indo atrás dos fenômenos
mediúnicos e sonambúlicos não como fatos isolados,
mas para fazer uma teorização sobre eles.
“Foram os fenômenos observados que acabaram por revelar
a natureza espiritual do ser humano”, destacou, acrescentando
que foram os fenômenos intelectuais que fundamentaram a ciência
espírita.
vejam
o vídeo da apresentação

Coerência doutrinária –
Limites e desafios
Marco Milani apresentou uma amostra de um levantamento realizado
junto a alguns dirigentes espíritas a respeito de critérios
e graus de aceitação de conceitos presentes em obras
mediúnicas, correlacionando as respostas com o tempo de vivência
no meio espírita.
Destacando que Allan Kardec já havia previsto a incorporação
do conhecimento científico e a aplicação do
critério da universalidade dos ensinos dos espíritos
para a legitimação do que poderia ser considerado
um novo saber doutrinário, pontuou alguns desafios importantes,
a serem enfrentados, valorizando a iniciativa de eventos que cuidam
com seriedade da pesquisa espírita, como têm sido os
Enlihpes.
Para ele, a coerência doutrinária espírita
implica a coerência e nexo com os postulados kardequianos,
que devem sempre ser a base de tudo.
vejam
o vídeo da apresentação

O elo entre a ciência e a fé
O filósofo Humberto Schubert, ao término do evento,
comentou na roda de conversa o pensamento de Aristóteles
sobre felicidade.
“Todas as pessoas, sem exceção, querem ser
felizes, terem a sensação de que a vida é plena”.
“Pode-se não ter o entendimento sobre essa busca,
sobre o que seja a felicidade, mas temos isso como meta comum, indicando
que coerência faz parte da lógica, do ser racional.
“É por isso que inúmeros pensadores vêm
preparando o terreno dos nossos espíritos para uma vivência
coerente também da nossa fé, da nossa religiosidade”,
observou, assinalando ter sido essa, também, a busca tão
sonhada por Kardec. “Elaborar uma filosofia que pudesse harmonizar
a forma rigorosa da ciência de abordar a realidade e a construção
de uma fé vibrante, que eleva e transforma as vidas das pessoas”,
concluiu.
vejam
o vídeo da apresentação
Humberto Schubert, em primeiro plano, autografando