'Que Cristo tenha piedade de nós!':
eleições racham também o mundo espírita

O médium José Medrado, fundador
do centro espírita Cidade da Luz, conta que o 'racismo espiritual'
no movimento foi fator determinante para o surgimento da Umbanda
Imagem: Rafael Martins/UOL
por Alexandre Lyrio
Colaboração para o TAB/UOL, de Salvador
Na manhã do dia 2 de julho, quando Jair Bolsonaro
desembarcou em Salvador para uma série de motociatas em cidades
baianas, um encontro com aquele que é apontado como o maior
médium depois de Chico Xavier causou um racha na comunidade
espírita.
Aos 95 anos de idade, o baiano Divaldo Pereira Franco se deslocou
até a Base Aérea da capital baiana para participar,
entre 10h e 11h, de uma cerimônia na qual foi homenageado
com a Medalha da Ordem de Rio Branco — a mais alta honraria
da chancelaria brasileira. Na ocasião, foi fotografado ao
lado do atual presidente da República.
Reconhecido por sua obra social e por uma vasta produção
literária psicografada, Divaldo já se mostrara sintonizado
com as pautas de costumes defendidas pelo bolsonarismo. A sinalização
mais explícita de adesão, no entanto, provocou mal-estar
em parte do mundo espírita. E as discussões sobre
política, antes restritas às conversas informais entre
adeptos da doutrina, passaram a envolver seus grandes líderes.
"Alguns parecem não ter entendido o que é a Lei
de Amor, Justiça e Caridade de 'O Livro dos Espíritos',
embora possam recitá-la de cor", criticou Rui Maia Diamantino,
presidente do Nefa (Núcleo Espírita Francisco de Assis),
pela internet. "Aceitar honrarias já é contrário
à ética cristã-espírita. Com a proveniência
luciférica de tal honraria, é algo inadmissível!
Que Cristo tenha piedade de nós!"
"Aceitar honrarias já é
contrário à ética cristã-espírita',
diz Rui Diamantino sobre a postura de Divaldo Franco Imagem: Rafael
Martins/UOL
'Médium decaído'
Com 40 anos dedicados ao espiritismo, Diamantino
é doutor em psicologia e tem um canal no YouTube onde faz
análises político-psicológicas da situação
do país. Autodeclarado de esquerda, ele afirma que sua crítica
não se deve ao fato de um líder espírita ter
determinada inclinação política, mas que assuma
posicionamentos que vão de encontro aos princípios
cristãos da religião.
"Quando alguém que é considerado um prócer
do espiritismo aparece ao lado do presidente de um governo com características
nazi-fascistas, não tenho como não reagir", justifica.
Para ele, a suposta adesão de Divaldo não é
fato isolado. "O mais preocupante é que tem muita gente
dentro do movimento que se coaduna com tal postura. Que o preconceito,
a xenofobia, o racismo, a homofobia, a misoginia e toda forma de
desprezo pela vida humana se espalhe pelo espiritismo e ganhe apoio
de seus líderes é anticristão."
Para o também médium José Medrado, fundador
do centro espírita Cidade da Luz, no bairro de Pituaçu,
em Salvador, dissidências nos momentos políticos de
grande efervescência são comuns na doutrina. "Em
verdade, esse é um racha que sempre existiu. Estava latente,
mas vem desde a época da ditadura", afirma ele, um crítico
antigo da falta de posicionamento de adeptos da doutrina diante
da violência e da repressão depois do golpe de 1964.
"No momento em que Divaldo toma essa postura, há uma
ebulição [no meio espírita]. Embora ele e as
federações espíritas sempre tenham tido uma
visão conservadora", afirma Medrado, para quem "o
Espiritismo não tem porta-voz oficial". Após
a cerimônia na Base Aérea de Salvador, Ana Claudia
Laurindo, colunista do site Espíritas à Esquerda,
chamou Divaldo de "médium decaído".
'Homenagem à Doutrina'
Em
um pronunciamento na Mansão do Caminho, Divaldo procurou
se justificar. Afirmou que a primeira comunicação
do Itamaraty para que lhe fosse entregue a comenda se dera ainda
no ano passado, quando não pôde comparecer ao evento
em Brasília. E que teria respondido não ter interesse
em receber a honraria. Com a vinda de Bolsonaro a Salvador e o novo
contato do cerimonial da presidência, o médium disse
ter "meditado muito" antes de, finalmente, aceitar o convite.
A fala não acalmou os ânimos. E, no dia 2 de setembro,
a Mansão do Caminho divulgou uma nota argumentando que, durante
a entrega da medalha, Divaldo Franco transferira a homenagem à
Doutrina Espírita. Nos mais de 1,6 mil comentários
da postagem no Instagram, espíritas divergiram e até
bateram boca.
"Será que quem te caluniou tem alguma obra parecida
com a que construiu?", defendeu uma seguidora de Divaldo. "Comenda
suja de sangue", rebateu outro espírita. "Quer
dizer que se Adolf Hitler decide condecorar Divaldo ele receberia
o ditador? Decepcionante!", perguntou outro.
O TAB solicitou entrevista a Divaldo Franco, mas a assessoria de
comunicação da Mansão do Caminho informou que
o médium se encontra debilitado, recuperando-se das consequências
da covid-19.
Defensores do médium baiano argumentam que a tentativa de
vinculá-lo a candidatos, partidos ou ideologias é
"demonstração de desconhecimento ou má
fé" — como disse Marcel Mariano, membro da FEEB
(Federação Espírita do Estado da Bahia) e do
Centro Espírita Caminho da Redenção. "Para
alguns adversários gratuitos, isso [a medalha e a foto] teria
sido um gesto de apoio explícito ao candidato", questiona
Mariano, para quem, aos 95, Divaldo está dispensado de votar
e não tem tempo para questões político-ideológicas.
"São discussões estéreis e inúteis."
Para o religioso, a entrega da medalha foi o reconhecimento do Ministério
das Relações Exteriores a uma trajetória dedicada
a "iluminar vidas".
Contra a 'ideologia de gênero'
Os críticos de Divaldo Franco apontam outros
indícios de alinhamento político com o bolsonarismo.
E citam palestras, análises e exposições de
Divaldo na internet em que o médium alerta sobre a ameaça
comunista no mundo, se coloca contrário ao que chama de "ideologia
de gênero" e trata a homossexualidade como "desvio
de comportamento".
"O atual presidente representava uma esperança, apesar
de eu não aprovar seus discursos a favor da tortura",
posicionou-se Divaldo em 2019, numa entrevista à revista
Veja São Paulo.
Para José Medrado, "os espíritas têm muitas
travas elitistas". Ele cita passagens dos livros de Allan Kardec,
codificador da doutrina, nas quais o progresso e o respeito à
ciência se colocam como pilares. "A pergunta 573 de o
Livro do Espíritos é sobre 'qual a missão dos
encarnados'. Os espíritos respondem: 'instruir e ajudar ao
progresso'. O livro da Gênese diz que o espiritismo está
a par com o progresso. Ou seja, o espiritismo é, na sua essência,
progressista. Alguns espíritas esquecem disso", argumenta.
Na visão de Diamantino, questões relacionadas à
sexualidade e ao gênero também são vistas como
um tabu na doutrina, apesar de o próprio Livro dos Espíritos
afirmar que os espíritos não têm sexo. "Essas
posições da heteronormatividade não têm
nada mais a ver com nossos tempos. O respeito integral a cada um
nas suas identidades de gênero é urgente", argumenta.
Outra questão frequentemente levantada diz respeito ao chamado
'racismo espiritual'. Médiuns kardecistas foram acusados
de discriminar ou menosprezar entidades de matriz africana ou indígenas,
como pretos velhos e caboclos, em seus centros. "Historicamente,
esse foi inclusive um fator determinante para o surgimento da Umbanda.
Ela nasceu dessa dissidência provocada pela discriminação
espírita", explica Medrado.
Medrado questiona veracidade de mensagens patrióticas
'psicografadas' antes do 7 de Setembro Imagem: Rafael Martins/UOL
Espíritos patriotas
Poucos dias antes do fatídico 7 de Setembro
em que Jair Bolsonaro convocou seus apoiadores para os eventos de
comemoração do bicentenário da Independência,
o mundo espírita se viu envolvido em outra polêmica.
Uma mensagem em forma de carta — supostamente psicografada
por uma médium de Uberaba (MG) do espírito do médico
e político Bezerra de Menezes — circulou pelas redes
sociais. Nela, Bezerra convocava os brasileiros para lutarem pela
liberdade em um dia histórico, quando o Brasil "receberá
das mãos de Jesus a nova Independência, que libertará
o país das amarras dos traidores da pátria e da bandeira
nacional".
"Essa carta tem claro tom nacionalista, ao gosto do atual presidente",
rebate Rui Diamantino. "Um espírito superior jamais
escreveria algo nesse nível." "Eu não acreditei
na veracidade de nenhuma dessas mensagens do 7 de Setembro que seriam
psicografadas por espíritos", afirma José Medrado.
Em nota, a vice-presidente da Federação Espírita
Brasileira, Marta Antunes, diz que as afirmações de
que a doutrina espírita estaria mais ligada a uma visão
progressista da política "resultam de interpretações
pessoais, não institucionais". E que a comenda concedida
ao médium Divaldo Franco "é reconhecida homenagem
a um cidadão do bem, que dedicou a sua vida em auxiliar pessoas
desfavorecidas".