Yvonne Pereira, Memórias de um suicida
e o Centro de Valorização da Vida

por Pedro Camilo de Figueirêdo
Yvonne Pereira, Memórias de um suicida e
o Centro de Valorização da Vida.
O ano de 2022 marca o aniversário de 60 anos
de criação, no Brasil, do Centro de Valorização
da Vida (CVV).
Inspirado na experiência do grupo The Samaritans, fundado
na década de 1950, em Londres, com a finalidade de prestar
assistência a candidatos ao suicídio, o CVV, como se
tornou conhecido entre nós, iniciou suas atividades em São
Paulo no dia 1.º de março de 1962, inaugurando uma bela
trajetória de benefícios inestimáveis prestados
a serviço da vida.
Contando com trabalho voluntário de milhares de pessoas,
o principal papel desempenhado pelo CVV é o Programa de Apoio
Emocional àqueles que desejam retirar a própria vida.
Utilizando-se do telefone, chat, e-mail, VoIP, correspondência
ou pessoalmente nos postos do CVV em todo o país, qualquer
pessoa tem acesso livre e gratuito ao serviço, que tem conseguido
ótimos resultados na dissuasão da ideia suicida.
Segundo o site do grupo, através dos canais de atendimento:
[...] são realizados mais de 3 milhões de atendimentos
anuais, por aproximadamente 4000 voluntários, localizados
em 24 estados mais o Distrito Federal [...] Além dos atendimentos,
o CVV desenvolve, em todo o país, outras atividades relacionadas
a apoio emocional, com ações abertas à comunidade
que estimulam o autoconhecimento e melhor convivência em grupo
e consigo mesmo. A instituição também mantém
o Hospital Francisca Júlia que atende pessoas com transtornos
mentais e dependência química em São José
dos Campos-SP.
Uma das políticas do grupo é o anonimato. Não
apenas se desconhece a identidade dos seus colaboradores, como também
de seus fundadores, que adotaram tal postura para garantir o caráter
impessoal do trabalho e, consequentemente, o seu melhor desempenho.
Apesar do nosso dever de compreensão e respeito a essa opção,
que revela nobreza e desprendimento dos idealizadores de tão
proveitosa iniciativa, não nos podemos furtar, porém,
a assinalar um aspecto importante dessa história: a influência
positiva e decisiva que um certo livro espírita e uma certa
médium exerceram para concretização do CVV.
Falamos do livro Memórias de um suicida
e da médium Yvonne do Amaral Pereira.
Em entrevista datada do dia 17 de julho de 1979, Elizabeth Operti,
sua sobrinha, que entrevistava a saudosa médium juntamente
com seu marido, Mauro Operti, e o já desencarnado médium
Altivo Pamphiro, pergunta sobre os benefícios que o livro
Memórias de um suicida produzira até então.
Yvonne Pereira, diante do questionamento, faz a seguinte revelação:
Esse movimento (de valorização da vida) é
mundial, mas no Brasil, ainda não havia. Jacques Conchon,
nosso confrade de São Paulo, criou essa instituição
influenciado pelo Memórias de um suicida, por causa do apelo
que o livro faz para os homens, para que criem alguma coisa para
evitar o suicídio... Não fazer nada e depois ficar
confortando o suicida também não é um trabalho
completo. Então, ele criou esse movimento. Hoje, há
até hospitais. E, aqui no Rio, está em funcionamento
uma filial dessa obra de São Paulo. Tem plantão noite
e dia... São verdadeiros abnegados esses espíritas
que passam a noite lá. É uma coisa muito disciplinada.
Eles se propõem a receber o apelo da pessoa que está
sofrendo.
Com efeito, Jacques Conchon foi fortemente influenciado pela leitura
dos relatos de Camilo Castelo Branco. Visitava frequentemente a
médium, na casa de sua irmã Amália, e esses
encontros geraram o estímulo necessário para que,
fundamente sensibilizado pela necessidade de se fazer algo em favor
dos potenciais suicidas, se associasse a outros dois amigos, Flávio
Focássio e Valentim Lorenzetti, para dar início a
essa grande obra de amor à vida, que projeta suas luzes em
todos os cantos do país.
Se a nossa admiração pelo trabalho da parceria Yvonne
A. Pereira / Camilo Castelo Branco já era grande, face à
excelência literária do livro e à riqueza doutrinária
de suas páginas, muito mais felizes ficamos ao saber que
esse fruto opimo do Consolador tem produzido muitas sementes que,
lançadas em solos fecundos, têm produzido outros tantos
frutos de amor e iluminação.
Que possam receber, Camilo e Yvonne, onde quer que se encontrem,
as preces que nossos gratos corações lhes endereçam,
com sentimento e verdade. E que possam receber, os anjos anônimos
do Centro de Valorização da Vida, a renovação
de forças necessárias para prosseguirem, firmes e
gentis, nesse belo desiderato de reaquecer corações
que se deixam fraquejar por entre as rudes provações
da existência!
Pedro Camilo de Figueirêdo
Informação disponível em: https://www.cvv.org.br/o-cvv/.
Acesso em: 31 ago. 2022.
PEREIRA, Yvonne A. (autora); CAMILO, Pedro. (organizador).
Pelos caminhos da mediunidade serena. 3ª ed., Bragança
Paulista: Lachâtre, 2013, p. 114.