Filme sobre Allan Kardec conta como um cético
se tornou pai do espiritismo
Cinebiografia com temática espírita
promete levar multidão de fiéis aos cinemas
por Anna Virginia Balloussier
Folha/UOL
Tinha que ser no Brasil. Pergunte na França
sobre Allan Kardec e pouquíssimos franceses vão saber
dizer quem foi o conterrâneo que criou, no século 19,
uma doutrina que até hoje move paixões — e cifras
— no outro canto do mundo.
Nosso país é o mais espírita
do planeta, com 3,8 milhões de pessoas que declararam seguir
a religião, fora os simpatizantes — é aquela
história do sujeito que vai à missa ou culto para
tentar falar com a finada mãezinha por meio de um médium.
A cinebiografia “Kardec - A História
por Trás do Nome”, por isso, tinha mesmo
que ser do Brasil, onde filmes com temática espírita
levam milhões aos cinemas.
A produção de Wagner de Assis não
é sobre um homem de fé. Não a princípio.
Definitivamente não era assim que Hippolyte Léon Denizard
Rivail (1804-1869) se via. Ele era o cético que tentava explicar
fenômenos paranormais pela ciência e virou Allan Kardec,
autor de “O Livro dos Espíritos”, de 1857. Na
tela, é interpretado por Leonardo Medeiros.
Há uma linhagem de médiuns importantes
na sua família, diz o ator. Seu tio-avô, por exemplo,
Eurípedes Barsanulfo, era médium mineiro tido como
tão poderoso que Chico Xavier batizou um filho seu com o
nome dele. “Só que tenho questionamentos pessoais”,
diz. Precisa ver para crer.
Assim como Kardec. “Me sinto muito confortável,
pois me sinto parecido com ele, que não era médium,
não psicografava. Mas, diante de um fenômeno natural
que começou a testemunhar, percebeu coerências e aplicou
o método científico”, afirma Medeiros. A história
está em “Kardec - A Biografia” (2013), livro
de Marcel Souto Maior que embasou o filme.
Há cerca de 150 anos, o professor foi atrás
do espetáculo das mesas girantes que tanto agitava a França.
Objetos que pareciam dominados por forças ocultas e que eram
ironizados pelos jornais à época.
“Só se ouve falar, por toda parte, da mesa que gira:
o próprio Galileu fez menos ruído no dia em que provou-se
realmente a Terra que girava em torno do Sol”, publicou o
L’Illustration em 1853.
De assombração a delírio coletivo,
pululavam explicações para o fenômeno. A Igreja
achava que era obra do Diabo. Kardec usou as ferramentas científicas
do momento para palpitar: podia ser a eletricidade —essa grande
novidade— dos corpos reunidos numa sala, a força magnética
deles, que fazia as mesas darem seus duplos twists carpados. Havia
até quem apostasse na recém-inventada telefonia como
um canal para o além.
Kardec não se contentou com seu palpite.
Quem optar pela ciência, dizia, “não mais crerá
em fantasmas, não mais tomará fogos-fátuos
por espíritos”.
Havia embustes, claro, que se assemelhavam a traquitanas
que Kardec viu num teatro no qual trabalhou —como charlatães
que exibiram o suposto esqueleto de uma sereia num museu, à
época. Mas, depois de tudo o que presenciou, convenceu-se:
espíritos eram muito reais.
Com ajuda de médiuns que diziam se comunicar
com eles, escreveu seu best-seller, um compilado de 501 diálogos
entre vivos e mortos. No último capítulo, incluiu
entre os colaboradores do além de João Evangelista,
apóstolo de Cristo, a Samuel Hahnemann, pai da homeopatia.
O autor escolheu um pseudônimo, afirma Souto
Maior, por antever a luta contra a Igreja, o ataque da imprensa
e a descrença dos companheiros da ciência. De pouco
adiantou, pois foi descoberto e penou com tudo isso.
Mas de onde veio esse nome? Uma entidade chamada
Zéfiro que sugeriu, segundo o biógrafo. O espírito
brincalhão e o compenetrado professor teriam trabalhado juntos
como druidas, na época do imperador Júlio César.
Naquela encarnação, ele atenderia por Allan Kardec.
Há detalhes na trajetória do autor
que não estão no filme de Assis, que já roteirizou
longas da Xuxa e o blockbuster “Nosso Lar”. Como traços
de racismo em “A Gênese” (1868), no qual Kardec
escreveu que não era “uniforme o progresso em toda
a espécie humana”, até porque seria “impossível
atribuir-se a mesma ancianidade de criação aos selvagens,
que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem, ainda menos,
aos europeus civilizados”.
“Nesse trecho polêmico, ele acabou
ecoando preconceitos de sua época. Como dizia Chico Xavier,
somos todos falíveis”, afirma Souto Maior.
No Brasil, os primeiros abolicionistas foram kardecistas
baianos, diz a historiadora Mary del Priore, autora de “Do
Outro Lado - A História do Sobrenatural e do Espiritismo”.
Eram advogados e médicos que recebiam espíritos de
escravos romanos e foram detonadores do movimento.
Não por acaso o espiritismo floresceu no
Brasil, onde chegou no século 19 de “mãos dadas
com a moda do francesismo nas classes mais altas e médias”,
diz a historiadora. Acabou germinando em todas as esferas sociais
num país que “sempre foi encruzilhada de religiões,
e com um culto aos mortos muito presente”.
Bem diferente da França, que pode ter se
empolgado com as mesas girantes por um tempo, mas tem “tradição
desde a Revolução Francesa de combate às religiões”.
O diretor do filme afirma que “torce o nariz
docemente” para a catalogação de sua obra como
um filme espírita. Seria uma produção para
crentes e não crentes, diz, por tratar de aspectos contemporâneos,
como a intolerância religiosa. O diretor, que é espírita,
conta ter se impressionado quando, numa locação carioca
que simulava a casa de Kardec, deparou-se com uma oração
colada dentro da caixa de luz.
Lembra Mary Del Priore: “Santo Agostinho dizia
que, para quem não acredita, nenhuma palavra basta, e, para
quem acredita, nenhuma palavra é necessária”.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
O que é ‘O Livro dos Espíritos’?
Com ajuda de vários médiuns, o professor organizou
501 diálogos com perguntas que fazia, tipo ‘como criou
Deus o Universo?’, e que os mortos respondiam: ‘Para
me servir de uma expressão corrente, direi: pela Sua vontade.
Nada caracteriza melhor essa vontade onipotente do que estas belas
palavras de Gênesis —Deus disse: faça-se a luz
e a luz foi feita’.
Quem o escreveu?
As questões foram lançadas por Kardec, mas ele creditava
as respostas, que lhe vinham por meio de médiuns, a vários
espíritos, alguns deles célebres, como o apóstolo
João Evangelista, Santo Agostinho e os filósofos Platão
e Sócrates.
Por que a doutrina pegou no Brasil?
O kardecismo chegou ao país no século 19, como moda
francesa, e ficou pop nas classes mais altas. Logo se espalhou pela
pirâmide social. O Brasil, afinal, é uma "encruzilhada
de religiões" que têm culto aos mortos, "africanas,
indígenas, mesmo a católica", diz a historiadora
Mary Del Priore.
A ideia da reencarnação é
contestada pelo aumento populacional?
Os espíritos, segundo o kardecismo, são sempre mais
numerosos que a população encarnada. Assim, não
seria preciso ‘criar’ novos espíritos conforme
o mundo cresce. Há, inclusive, trânsito espiritual
entre planetas, segundo ‘O Livro dos Espíritos’,
que diz sobre o tema: ‘O homem terreno está bem longe
de ser, como acredita, o primeiro em inteligência, bondade
e perfeição’.





trailer do filme: