por Marcelo Toledo - Folha de São Paulo
FRANCA (SP)
Ao microfone, o médium João Berbel
fala, fala e repete: “Não deem dinheiro, ninguém
está autorizado a receber nenhum dinheiro aqui. Dai de graça
o que de graça recebeu”. O IMA (Instituto de Medicina
do Além), polo de peregrinação espírita
em Franca (a 400 km de São Paulo), não está
lotado como de costume, quando chega a receber até 7.000
pessoas para consultas e cirurgias espirituais.
Mesmo assim, havia dificuldades para andar em alguns
setores neste sábado (15), enquanto o “doutor Alonso”
não iniciava os trabalhos. Berbel, 63, afirma incorporar
o espírito do médico Ismael Alonso y Alonso, ex-prefeito
de Franca, que morreu em 1964.
“Um médium só é derrubado
por dinheiro, sexo e vaidade. É o que derruba”, disse
o médium à Folha enquanto autografava livros psicofonados
–no espiritismo, é a comunicação de espíritos
através da voz do médium.
A afirmação foi uma resposta ao questionamento
da situação de outro médium, João Teixeira
de Faria, 76, o João de Deus, alvo de denúncias de
crimes sexuais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia
(GO).
“Já até me confundiram com ele
[depois da revelação das denúncias], por causa
do nome, mas não tenho nada a ver com isso”, disse.
Berbel ainda afirmou ser “necessário
que haja escândalo”, mas que ele será julgado
por Deus, não pelos homens. “Lobo só cai em
armadilha de lobo. Ovelha não cai em armadilha de lobo.”
Disse ainda que seu coração fica apertado com as denúncias
recebidas pelo médium e disse ter pedido a Deus que o ilumine.
Berbel iniciou atendimentos em casa, em 1996, que
hoje são feitos num imóvel de 8.000 metros quadrados
de área construída em Franca, cidade com 350 mil habitantes
e que tem cerca de 80 centros espíritas. O terreno foi doado
por uma família.
A reportagem acompanhou a chegada de frequentadores
e a triagem dos casos, os trabalhos feitos e as consultas e retornos
de cirurgias. Antes das 8h já havia pessoas no local –os
atendimentos são por ordem de chegada–, muitas das
quais foram embora depois das 13h.
Antes de começar os trabalhos, as conversas
no IMA entre voluntários e frequentadores passaram invariavelmente
pelo nome de João de Deus.
“Aqui não tem nada disso [denúncias].
Doutor Alonso e o Berbel são muito sérios”,
disse a dona de casa Maria Auxiliadora Clemente, que levou a mãe,
com fortes dores nas costas, para uma consulta.
O atendimento no “consultório”,
iniciado às 12h, é muito rápido: o médium
encosta a mão no paciente e já indica aos seus auxiliares
os medicamentos que deverão ser tomados por 30 dias, por
meio de códigos.
Após deixarem a sala, com as anotações
em mãos, os pacientes vão para a fila do receituário
e, em seguida, para a farmácia, onde recebem os remédios.
“Travei de dor nas costas e ciático
quando cheguei aqui, doía demais. Agora estou melhor”,
disse o mineiro de Borda da Mata José Helcio dos Santos,
deitado numa maca, após a consulta.
No local, são servidos, também de
graça, café da manhã e sopa, feitos numa cozinha
industrial. Consultas e cirurgias ocorrem às quartas e aos
sábados.
RENDA
Em comum com o que ocorre em Abadiânia, a
venda de livros é uma das fontes de renda da entidade de
Franca, ao lado de doações dos frequentadores, segundo
Marcos Afonso de Almeida, presidente do instituto. Berbel psicofonou
257 livros e lança em média um novo por mês.
As semelhanças param por aí. Diferentemente
de Goiás, onde a casa de João de Deus comercializa
frascos de passiflora, calmante natural fabricado pelo grupo, no
IMA os medicamentos fitoterápicos são entregues de
graça aos frequentadores.
Os pacientes recebem por mês mais de uma tonelada
de remédios, produzidos num sítio da instituição
–também recebido em doação.
“O tratamento espiritual é um complemento
do convencional. Fazendo os dois juntos aumenta a chance de cura”,
disse Almeida.
Também não há atendimento individualizado
e as cirurgias espirituais são feitas sem cortes –sem
lâmina e com algodões embebidos em álcool e
iodo. A Federação Espírita Brasileira condena
atendimentos individuais, conforme nota divulgada após as
denúncias envolvendo João de Deus.
Para aumentar a renda e conseguir pagar os 20 funcionários
fixos e construir um hospital espírita –já pronto–,
o IMA faz bazares, rifas, eventos (almoços e jantares) e
tem uma pequena cantina que funciona num imóvel vizinho.
Os trabalhos são conduzidos por 180 voluntários.
O IMA é gerido pelas Obras Assistenciais
Dr. Ismael Alonso Y Alonso, mantenedora também do sítio,
do laboratório farmacêutico, de um serviço de
atendimento a crianças em vulnerabilidade social e do Hospital
da Caridade.
O hospital ainda não foi inaugurado, mas
já faz 800 atendimentos fisioterápicos por semana,
em parceria com uma universidade. Terá 104 leitos no total
e o objetivo é atender inicialmente pacientes que necessitem
de cuidados paliativos.
A explicação para o IMA não
ter lotado sábado como em outros dias não tem elo
com a situação enfrentada em Abadiânia, mas
sim com a proximidade das festas de final de ano, segundo o presidente
da casa.
“É que não pode ingerir nenhum
tipo de carne nem beber ou fumar 7 dias antes da cirurgia e 15 dias
após. Isso afasta um pouco as pessoas nesta época
do ano”, disse Almeida.





Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/12/espirita-atrai-milhares-em-sp-e-diz-que-um-medium-so-cai-por-dinheiro-sexo-e-vaidade.shtml