Entre o financiamento recorde em 2018 e
as críticas pelo seu enfoque religioso, as comunidades
terapêuticas no centro de um debate sobre drogras, direitos
humanos e saúde que a sociedade precisa encarar
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A baiana Laura*, 36, é uma das veteranas
de uma comunidade para dependentes químicos na região
do Vale do Paraíba, interior de São Paulo. Ela permaneceu
no local mesmo após o fim do tratamento para alcoolismo,
doença que a fez perder o emprego em um hospital - ou "lá
fora", como ela mesmo fala. Laura lembra que, para aplacar
as crises no início da recuperação, foram muitas
idas à capela do complexo. "Graças a Deus, no
dia de hoje, no momento presente, eu já não sinto
mais falta da bebida, da droga, do cigarro", afirma.
Assim como outras "madrinhas” –
uma das muitas palavras do vocabulário interno –, Laura
tem responsabilidades na fazenda onde funciona a comunidade. Ela
acompanha as recém-chegadas e monitora os trabalhos. Há
uma horta e fabricação de produtos com babosa, que
são vendidos para as famílias das residentes –
é assim que são chamadas as mulheres que ali vivem
e decidiram “ficar limpas”. Esse grupo é formado
por brasileiras de várias origens e algumas estrangeiras
latino-americanas que compartilham uma rotina de grupos de apoio,
missas e orações. "O dia-a-dia aqui é
trabalho, convivência e espiritualidade", afirma Laura.
"É o tripé".
Esse conceito de tratamento ganhou o nome de comunidade
terapêutica (CT). A proposta desses espaços é
servir à recuperação de dependentes químicos
por meio da espiritualidade. Esses centros são entidades
privadas que contam com apoio crescente de várias esferas
do governo, embora muitas desrespeitem protocolos de proteção
de direitos humanos – ; como a liberdade ou a ou a ausência
de crença. A maioria é ligada à instituições
religiosas. Dentro deles a presença de profissionais da saúde
varia, mas quase metade não contam, por exemplo, com consultório
médico.
Fundada há 30 anos, a comunidade Fazenda
Mãe da Esperança, onde Laura vive, é pioneira
no acolhimento de mulheres. Na noite anterior à visita da
reportagem, uma delas havia dado à luz. Mães podem
ficar com filhos de até um ano durante os tratamentos, que
são longos – uma das exigências é assinar
a carta de entrada que prevê um período de 12 meses
fora da vida em sociedade.
"Tempo temos de sobra, não é
problema", brincam três jovens com quem a reportagem
conversou em uma instituição masculina da mesma rede
de comunidades, a Fazenda da Esperança. No local, não
há médicos ou psicólogos fixos, mas voluntários
e lideranças espirituais. Também não há
celulares. Atividades de lazer têm horário e a presença
nas atividades religiosas é obrigatória – se
a pessoa tem outra fé, deve participar "em respeito",
dizem os responsáveis. Além da laborterapia, o tratamento
tem base em ensinamentos católicos e regras para um novo
estilo de vida. Marcos*, 23, se diz esperançoso com o processo,
mas não crê que a possível nova vida permita
a atuação dele na área da sonoplastia e do
trabalho com bandas, a qual ele associa ao uso de drogas. A "ativa",
como chamam.
Além das comunidades católicas, há
no Brasil um número ainda maior de evangélicas, algumas
espíritas, outras ecumênicas e muitas que misturam
linhas diferentes do cristianismo. São mais de 2.000 registradas,
além de outras irregulares espalhadas pelo interior dos Estados
e periferias das grandes cidades. O método mais comum de
divulgação desses locais são panfletos entregues
no transporte público por ex-residentes que se tornaram voluntários.
As regras internas podem ser mais ou menos rígidas. O que
a maioria tem em comum é o chamado tripé – trabalho,
convivência (alguns colocam disciplina aqui) e espiritualidade
– citado por Laura, reiterado como um mantra por quem passa
pelas comunidades.

MODELO DESPERTAR
A cerca de 30 minutos do centro de Itapira, no interior
paulista, há uma comunidade ecumênica, a Santa Carlota.
O local pertence ao Instituto Psiquiátrico Bairral, fundado
pelo líder espírita Américo Bairral em 1937
e muito conhecido na região. Já a comunidade em si
é mais discreta – moradores da área rural vizinha
pouco sabem sobre o lugar. Esse complexo funciona em uma antiga
fazenda de café. A administração manteve a
arquitetura da época, com casas pequenas, como em uma vila,
onde ficam os residentes. No alto de um pequeno morro, com vista
panorâmica, fica uma casa maior, usada como escritório.
Ao lado dela, há uma capela com as paredes internas retratando
25 símbolos religiosos. No centro do altar, um quadrado branco.
Esse local foi pensado para ser modelo de comunidade terapêutica.
Aberto em 2012, foi idealizado pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira,
coordenador do programa anticrack da da última gestão
de Geraldo Alckmin (PSDB) no governo do Estado de São Paulo.
Não vejo eficácia desse tratamento na minha
trajetória. Faltam outros recursos para as famílias
conseguirem cuidar sem internar
Isabel Bernardes, assistente social
do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e
Drogas da Faculdade de Medicina da USP
Segundo o responsável técnico Maurício
Landre, 70% dos residentes da comunidade modelo foram parar ali
via programa Recomeço, ou seja, passaram por uma mudança
brusca de meio - trocaram o centro da capital paulista por um cenário
bucólico. Muitos chegam só com a roupa do corpo. Por
conta de laços desfeitos, nem todos têm contato com
a família, apesar de o local afirmar buscar essa conexão.
O programa não segue uma religião, mas usa uma versão
da bíblia chamada “Despertar”, que tem a filosofia
dos 12 passos do A.A. (Alcoólicos Anônimos) e fala
sobre a crença em um "poder superior".
Essa metodologia é diferente do programa De Braços
Abertos, criado na gestão Fernando Haddad (PT) na Prefeitura
de São Paulo e interrompido pelo governo João Doria
(PSDB). O conceito implantado pelo petista tinha como alvo o mesmo
e interrompido pelo governo João Doria (PSDB). O conceito
implantado pelo petista tinha como alvo o mesmo público que,
hoje, é levado para comunidades terapêuticas como a
de Itapira, mas propunha a diminuição gradual do consumo
de drogas sem retirar o o indivíduo da sociedade. O próprio
Landre já passou por um tratamento para para dependência.
Hoje ele faz mestrado em psiquiatria e acredita numa "demanda
reprimida"; por locais como as comunidades. Na Santa Carlota,
onde ele atua, o modelo é o da abstinência
– embora o tabaco seja liberado, o que varia de um lugar para
outro. Ao contrário de outras comunidades, há presença
diária de enfermeiro e psicólogos.




Verbas e Denúncias
A demanda reprimida citada por Maurício Landre
está longe de ser consenso entre profissionais da saúde,
bem como os métodos e a eficácia do programa das comunidades,
mas é usada como argumento para um financiamento público
recorde do governo federal. Em abril de 2018, foi lançado
um edital no valor de R$ 87,3 milhões (quase o dobro do anterior)
para subsidiar 7.000 leitos nas CTs, calculando atender 20 mil pessoas
por ano. "Temos uma grande procura por esse método de
acolhimento", disse, na ocasião, Quirino Júnior,
coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e Outras
Drogas do Ministério da Saúde.
Para o psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do Programa de de Orientação
e Assistência a Dependentes da Unifesp (Universidade Federal
de São Paulo), essa "grande procura" se deve ao
fato de que há no Brasil um senso comum de que, para tratar
dependentes químicos, há apenas o modelo de reclusão.
A assistente social Isabel Bernardes, integrante do Programa Interdisciplinar
de Estudos de Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da
USP (Universidade de São Paulo), concorda com ele: "O
investimento é uma resposta pouco pensada a uma demanda da
população que geralmente se desespera e pede internação".
Lidando diariamente com diferentes setores do tratamento para o
uso abusivo de drogas – CAPs (Centros de Atenção
Psicossocial), comunidades, clínicas de enfoque médico
e hospitais –, Isabel diz notar uma angústia por parte
de todos nesse processo. "Tem paciente que pede para ir para
uma comunidade, alguns por não ter onde morar. Ao voltarem,
reclamam de ter de rezar de dia e noite, vêm carregando falas
muito moralistas, reproduzem que dependência é falta
de caráter. Tem relato de pessoa internada em comunidade
que dizia ter apenas macarrão com salsicha para comer, e
gastava dinheiro de familiares para comprar bolachas numa vendinha
dentro do local", afirma.

Depoimentos parecidos com o de Isabel são comuns. Nos últimos
anos, o Conselho Federal de Psicologia compilou violações
de direitos humanos em dezenas de comunidades, tais como o desrespeito
à escolha ou ausência de credo – a mais comum
–, controle de correspondência, homofobia, impedimento
de comunicação e trabalho forçado.
Essas denúncias levaram críticos das CTs a fazerem
analogias com os manicômios, cujo processo de fechamento no
Brasil foi iniciado em 1989, culminando no surgimento do SUS (Sistema
Único de Saúde), no ano seguinte, e na Lei da Reforma
Psiquiátrica, em 2001, que buscou instituir um modelo de
tratamento para transtornos mentais que priorizasse a cidadania
e os direitos individuais.
Muitas comunidades acusadas de violações contavam
com recursos públicos, em sua maioria vindos de prefeituras,
nos períodos de inspeções (2011 e 2016). Em
2018, ainda sem previsão de data, deve ser lançado
um parecer analítico da última vistoria, feita em
2016.
"Cada comunidade foi uma etapa.
Na primeira eu queria ver Deus, de tanto que busquei, porque
o troço era robotizado"
Antônio*, ex-residente
de comunidade terapêutica
Luciana Barcellos Fossi, psicóloga da rede
pública que estudou as comunidades terapêuticas em
sua dissertação de mestrado na UFRGS (Universidade
Federal do Rio Grande do Sul), acredita que há uma "condição
de fragilidade" que faz muita gente aceitar dogmas com os quais
não concordaria em outra situação. "Como
é um tratamento espiritual, acha-se que tudo é possível,
e aí entram as violações. Se a pessoa não
é religiosa, constrói-se uma outra identidade",
afirma.
Pablo Kulander, gestor da Febract (Federação Brasileira
de Comunidades Terapêuticas), afirma que os relatórios
são tendenciosos. "Inspecionaram baseados em denúncias,
indo direto nos lugares com problemas. A maioria desses locais onde
ocorrem barbaridades como mortes já havia sido denunciada.
Estamos defendendo uma estratégia para que a Febract possa
realizar diretamente denúncias para o Conselho Nacional de
Direitos Humanos", diz.
Entre as barbaridades, há um surto de diarreia que provocou
14 mortes em 2017 dentro de um centro de direcionamento católico
que abrigava dependentes químicos em Jarinu, interior de
São Paulo. O local era alvo de investigação
do Ministério Público e da prefeitura local, funcionando
como uma CT, mas sem ter licença para tal.
OBRIGADO, NÃO?
Há alguns anos, Álvaro*, 39, passou
por uma experiência traumática em comunidade. Internado
contra sua vontade após sua mãe encontrar carreiras
de cocaína em cima de um livro, ele só conseguiu deixar
o local após entregar um bilhete pedindo socorro para sua
irmã. "Lá dentro, se você se recusasse
a algo vinham hierarquias de punição: sem ligação,
sem comida e, por fim, punições físicas. Pela
tarde começava a sessão de sentar em um grupo religioso
para escutar sermões que duravam horas. A gente era obrigado
a assistir, não tinha conversa. Tive um amigo que foi pra
lá e virou fanático religioso. Como você não
encontra saída para aquilo, muitos se tornam fanáticos",
diz. Também eram ministrados ali dentro medicamentos que
ele não sabia quais eram. "Você é drogado
e forçado a carpir e a ouvir pregação".
A questão da internação involuntária
também é ponto polêmico. Por lei, as comunidades
devem aceitar apenas entradas voluntárias, mas uma busca
na internet mostra lugares que se identificam como CTs e realizam
o procedimento. As federações e comunidades consultadas
pela reportagem reprovam a medida e dizem que esses lugares usam
a nomenclatura de forma irregular. No entanto, está em análise
no Senado o PLC 37, de Osmar Terra (MDB), que propõe a possibilidade
de internações por terceiros.
"Até se advoga do ponto de vista médico as internações
compulsórias e involuntárias para pessoas que não
podem ser tratadas de outra forma porque o Estado não está
aparelhado. Isso é feito para quem mora na rua e eu acho
vergonhoso. Daí começa-se a questionar a função
higienista dessas atuações", diz Dartiu Xavier.
Já o gaúcho Antônio*, 34, passou por diversas
internações ao longo de mais de 15 anos. A primeira
foi aos 16, por fumar maconha, também de forma involuntária
e assinada pela família. "Hoje não uso mais crack,
tenho algum problema com a cocaína vez ou outra. Não
sou um santo e não posso mentir pra mim. Fumo meu baseado
todo dia, parei de lutar contra isso. Isso diminui minha possibilidade
de usar outra coisa, porque não quero tomar remédio,
trocar uma coisa. Agora me conheço, mas foi um processo longo
e doloroso. Conheci gente que teve lavagem cerebral e mudou, mas
comigo não funcionou. Tem umas [comunidades] mais rígidas
e outras mais flexíveis, mais no amor. Acho que aí
funciona mais", diz ele.
PÚBLICO E PRIVADO
O próprio gestor da Febract é um ex-residente.
Uruguaio, Kulander veio ao Brasil para um tratamento, estudou o
assunto e depois comandou uma comunidade ecumênica. Para ele,
a espiritualidade é um apoio. "Porém, é
um tema complicado porque muitas comunidades têm líderes
religiosos à frente", afirma. Kulander acredita que
haja "sensacionalismo" no debate público sobre
o subsídio. "Existe má utilização
de dinheiro no CAPs. Não falo isso pra dizer que eles são
ruins, mas é uma gestão ruim. O tratamento precisa
ser de fácil acesso, o que o serviço público
não oferece", completa.
Para críticos do financiamento de comunidades, entretanto,
o direcionamento crescente de verbas para esses locais significa
diminuição de recursos que podiam ser usados para
melhorar o próprio SUS. "Os CAPs são altamente
potentes, mas estão sucateados. As comunidades não
são instituições de saúde, então
não deveriam receber essas verbas", afirma Paulo Aguiar,
membro do Conselho Federal de Psicologia, reprovando a falta de
transparência no modo como foi decidido o subsídio.
"O que a gente [do Conselho] pensa é que qualquer política
pública deva ser pautada pelas conferências, onde você
tem a participação de todos os envolvidos no processo
– profissionais, usuários e Estado. Agora, chegam pessoas
que se fecham dentro de gabinetes e saem com uma política
pronta", afirma.
Apesar de muitas comunidades não terem aparato médico,
está sendo discutido no momento se elas são ou não
equipamentos sujeitos ao regime do SUS. Ao contrário de decisão
anterior do Ministério Público Federal, em abril restituiu-se
o caráter delas de serviço de apoio e não de
saúde – sendo assim, o financiamento soa ainda mais
controverso. Há nova audiência no dia 19 de junho de
2018.
Relatório de 2017 do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada) afirma ter notado, durante pesquisa em comunidades, uma
profissionalização e padronização em
curso que inclui maior abertura para saberes médicos nas
CTs, apontando que esse movimento deva ser percebido considerando
a adequação a editais para obter recursos públicos
e a pressão social diante de críticas.
As pessoas em situação
de vulnerabilidade social têm de enfrentar a truculência
da polícia, que trata eles como se fossem traficantes,
e os médicos, que tratam eles como se fossem criminosos,
porque são levados para um tratamento que não
querem cuja eficácia é questionável
Dartiu Xavier, coordenador
do Programa de Orientação e Assistência
a Dependentes da Unifesp.
Titular da Senad (Secretaria Nacional de Política sobre Drogas),
Humberto Vianna acredita que exista "paixão" no
debate. "Ninguém falou em extinção do
CAPs. Não há nenhuma orientação nossa
de que um modelo anula o outro. Dá para para conviver. Se
está funcionando comunidade que tem espiritualidade, mantém
isso", afirma.
Criada no Brasil em 1998, ligada diretamente ao gabinete militar
e adotando uma abordagem baseada na guerra às drogas proposta
pelo governo norte-americano em convenção de 1988
da ONU (Organização das Nações Unidas),
a Senad, um órgão da Justiça, é quem
administra os contratos das comunidades terapêuticas. Vianna
informa que há R$ 13 milhões extras da pasta destinados
unicamente para essa finalidade.
No fim de 2017, o então ministro da Saúde Ricardo
Barros defendeu a terceirização dizendo que são
alcançadas "muito mais pessoas na parceria com filantrópicas
e entidades que cuidam desses dependentes químicos do que
se nós fizéssemos isso diretamente".
Tanto o êxito da medida quanto seu alcance são questionados
por profissionais da saúde. O percentual de recuperação,
tendo como meta a abstinência, é estimado pelas comunidades
em torno dos 30%. Especialistas da saúde, no entanto, afirmam
não passar de 10%. Os números são baseados
em registros de cada área, não há uma pesquisa
científica no Brasil sobre isso. O psiquiatra Dartiu Xavier
ressalta o custo do programa: "Com o que o Estado gasta para
internar um dependente químico, ele trata 50 no sistema de
saúde pública".
REDUÇÃO OU REMOÇÃO?
No Brasil, as comunidades surgiram há mais
de 40 anos. "Meus estudos começam em uma época
em que não existiam CAPs, era um momento em que as religiões
tinham até mais espaço para atuar", conta Zila
Sanchez, professora do Departamento de Medicina Preventiva na Unifesp,
que em seu doutorado estudou o impacto da religião na prevenção
do uso de drogas. "Acho legal que, a partir do momento em que
o governo passa a financiar você pode exigir, tomar cuidado
com a questão religiosa. Não existe uma resposta certa,
o que não se pode é fingir que elas não existem",
defende.
A primeira expansão se deu nos anos 1990. "Elas pegaram
um vácuo do sistema público. O Estado começou
a se preocupar com essa questão em 2002, quando foi criado
o CAPs AD (Álcool e Drogas)", diz Paulo Aguiar, que
acredita que a comunidade terapêutica de hoje fuja "completamente
ao conceito original", fazendo referência à versão
que aponta o surgimento do modelo na Inglaterra, criado para tratar
soldados no pós-guerra. "A ideia era democratizar as
relações, então há uma distorção".
Uma segunda expansão pode ser localizada há sete anos,
com um alarmismo sobre o uso de crack e a criação
de uma linha de subsídio. "Desde 2011, por força
das determinações do plano Crack: É Possível
Vencer, o governo federal, por meio da Secretaria Nacional de Políticas
sobre Drogas, financia vagas em comunidades terapêuticas para
pessoas com transtornos decorrentes do uso de substâncias
psicoativas", diz relatório do Ipea.
Estamos combatendo
a mesma coisa, porque rejeitamos tudo que eles [críticos
das comunidades] rejeitam. É claro que quando vai para
extremos ideológicos fica complicado, tem gente que
acha que não deveria haver terceirização
alguma, que não tinha que ter ONGs - que dão
conta de quase tudo no país. Com esses grupos muito
conservadores religiosos também nem a gente consegue
conversar.
Pablo Kulander, diretor
da Febract
Na época, houve grande comoção
pública em torno da ideia de "epidemia do crack".
"E não dá para chamar de epidemia do ponto de
vista médico, mesmo porque atrás das cracolândias
há um problema muito maior de álcool que ninguém
menciona só porque se trata de uma droga lícita",
diz Dartiu Xavier. Para o psiquiatra, o tratamento tem que envolver
a causa que levou à dependência. "Se você
não aborda isso, não aborda o cerne do problema".
Há muitos estudos hoje que associam essa falta de reflexão
à chamada guerra às drogas, lotando clínicas
da mesma forma que penitenciárias, e criando consequentemente
um mercado lucrativo.
"É muito importante fazer um recorte de classe: um cara
com grana não vai pra uma CT", diz Paulo Aguiar. "Os
residentes na maioria são jovens pobres", afirma a psicóloga
Luciana Barcellos. Apesar da percepção de quem trabalha
na área, ainda não há pesquisa que mapeie origem
étnica e perfil socioeconômico das pessoas. Em questão
de gênero, a maioria das vagas é para comunidades masculinas,
que são maioria.
Toda vez que o governo
lança um edital para que as CTs participem eles não
falam com a gente e colocam questões que ferem os princípios
básicos da abordagem religiosa. Não estamos nos
sentindo acolhidos neste edital
Nelson Giovanelli, fundador
da Fazenda da Esperança
Um exemplo da institucionalização
da relação entre religião e tratamento para
dependência química é de quase dez anos atrás.
O curso Fé na Prevenção foi uma formação
sobre drogas promovida pela Senad em parceria com a Unifesp, voltado
para lideranças religiosas e que teve mais de 5.000 alunos
já em sua primeira edição, em 2009.
Luís Gustavo Américo, dono de uma comunidade em Itapecerica
da Serra, foi um dos gestores que fez a formação.
Ex-dependente químico, tornou-se pastor e comanda hoje a
décima primeira comunidade que abriu em um período
de 23 anos. "Já fui coroinha, minha mãe é
'mesa branca', 'toquei um tabaquinho' na umbanda e hoje estou aqui",
conta. Ele afirma que mudou a forma de pensar a terapia com o passar
do tempo, por ver que só a fundamentação religiosa
não bastava. Até chegar neste ponto, no entanto, foram
dez anos de muita terapia à base de Bíblia, replicando
a forma como foi tratado. Como em outras comunidades com quem a
reportagem conversou, o uso de cigarro ou qualquer substância
psicoativa ali dentro é vetado.
Há quem diga que as coisas são menos polarizadas hoje,
embora o modelo da abstinência seja padrão nas comunidades,
enquanto o da redução de danos atue nos CAPs. Tanto
do lado dos donos de comunidades quanto dos profissionais da saúde
pública, existe quem acredite que os dois métodos
possam ser levados em conta, a depender do indivíduo, e que
transformar isso em dicotomia é pôr um entrave ainda
maior ao debate.
Na área da redução de danos, o Brasil tem estudo
pioneiro. Em 1999, Dartiu Xavier conduziu um experimento examinando
os benefícios da maconha para usuários de crack abandonarem
a dependência. A pesquisa provou que 68% das pessoas pararam
de usar crack, e após seis meses todos abandonaram a maconha.
"Redução de danos são estratégias
para quem não conseguiu ficar abstinente. Não é
estimular o uso de drogas, existe um preconceito", afirma.
Nos casos em que a redução de danos nem é considerada,
o custo é alto. A cada dez pessoas que entram em abstinência,
uma morre se não for tratada com medicamentos adequados –
o que já ocorreu dentro de comunidades.

NÃO TEM MILAGRE
Outro ponto importante para entender a expansão
das comunidades espirituais é a atual força política
de lideranças religiosas. "Na Bahia, o deputado [federal]
mais votado é dono de uma [Irmão Lázaro, do
PSC, músico, ex-integrante do Olodum e pastor, mantém
o Centro de Recuperação Sentimento Novo]", diz
Paulo Aguiar.
Em Alagoas, quem influenciou muito a política de tratamentos
foi o deputado federal Givaldo Carimbão (PHS), conhecido
por um bate-boca notório durante audiência de 2017
na Câmara sobre o caso QueerMuseu. Foi Carimbão quem
idealizou a Sepaz (Secretaria de Promoção da Paz),
hoje Seprev (Secretaria de Estado de Prevenção à
Violência), órgão que mantém o programa
Anjos da Paz, espécie de "busca ativa" –
como eles falam – por usuários abusivos de drogas.
"O projeto é formado por assistente social e psicólogos
que visitam o usuário nas residências e conscientizam
o dependente ao acolhimento voluntário", explica Esvalda
Bittencourt, atual secretária de Prevenção
à Violência de Alagoas.
E se essa pessoa for ateia? "Quando chega alguém sem
religião, encaminhamos para alguma comunidade ecumênica
que daí essa pessoa vai se encontrar espiritualmente",
diz ela. No Estado há hoje 37 comunidades credenciadas no
programa, segundo Esvalda – o Ipea mapeou 44. Enquanto isso,
existem apenas três unidades de CAPs AD.
Tive muitos questionamentos
durante minha pesquisa, pensei 'trocaram droga por religião?',
mas eles estavam levando uma vida mais adequada do ponto de
vista social. São dependentes da religião? Isso
teria que ser estudado. O ideal seria não ter dependência
alguma, mas qual traz menos problema? É algo a se refletir
Zila Sanchez, professora
da Escola Paulista de Medicina da USP
Relatando falta de base científica na criação
de políticas públicas, profissionais da saúde
dizem que não se trata de impedir que religiosos ajudem dependentes
que buscam um apoio. Ex-residentes com quem a reportagem conversou,
mesmo quando críticos ao modelo, disseram ter uma espiritualidade
ou seguirem uma religião. O problema, para todos, é
o padrão de imposição comum nesses locais,
bem como regimes morais. "Tem pessoas que saem acreditando
que tem a ver com a falta de religiosidade o fato de ela estar usando
droga. Isso não tem fundamento científico", diz
Dartiu Xavier. A reportagem tentou falar com representantes da Cieab
(Confederação da Igrejas Evangélicas Apostólicas
do Brasil) e da Arquidiocese da Igreja Católica de São
Paulo, mas não teve retorno.
Nas comunidades, muitos entram e saem diversas vezes. Na visita
da reportagem a um desses locais, um funcionário avisa que
um homem está de volta ali pela terceira vez. Já em
outro lugar, só no mês de maio 20 jovens foram embora
no meio do processo. Em um terceiro, duas pessoas simplesmente saíram
andando pela estrada de terra, sem informar que iriam embora.
Católico defensor do Estado laico, Leonardo Pinho, membro
da Comissão Nacional de Direitos Humanos, vem participando
de audiências sobre o assunto na Câmara. Para ele, o
debate sobre tratamentos é algo "caro para a sociedade
e complexo". Sem solução milagrosa.
*nomes alterados para preservar os entrevistados
Agradecimentos:
Katerina Volcov, doutora em Saúde
Pública pela USP, e Camila Oliveira, comunidade terapêutica
Anjos de Uma Asa