Perpera Suruí tem cerca de
65 anos de idade. O número exato é um mistério
até mesmo para ele, que viveu até 1969 em uma aldeia
indígena isolada, no trecho da floresta amazônica entre
os Estados de Rondônia e Mato Grosso. Ainda na juventude,
Perpera se tornou pajé e viveu assim por muitos anos.
Agora, ele é o protagonista de um filme exibido no Festival
de Berlim: "Ex-Pajé", do diretor Luiz Bolognesi,
que retrata o conflito interno de um líder espiritual indígena
com a nova realidade de sua aldeia, hoje de maioria evangélica.
Assim como boa parte dos paiter-suruís,
grupo com cerca de 1.400 habitantes que ocupa pouco mais de dez
aldeias na Terra Indígena Sete de Setembro, Perpera se tornou
evangélico há alguns anos e deixou de atuar como pajé.
Mas o filme de Bolognesi sugere que a conversão não
foi resultado de um processo dos mais espontâneos.
Em uma das cenas, Perpera é
questionado sobre a possibilidade de voltar a ser pajé. Ele
responde que essa chance não existe. "Depois que o pastor
disse que pajés são do inferno, ninguém falava
comigo. Eles me ignoravam", afirma, no trecho do filme. "Só
voltaram a falar comigo depois que eu fui à igreja."
"Eu me apaixonei por essa história,
por esse homem, e me sensibilizei demais com esse drama", conta
Bolognesi. "Eu já tinha ouvido falar de ex-gerente de
banco, ex-jogador de futebol, mas nunca de ex-pajé. Fiquei
chocado com aquilo."

Perpera Suruí em cena do filme exibido
em Berlim
Perpera não fala português
e se comunica apenas na língua dos paiter-suruís,
que pertence à família linguística mondé,
do grupo tupi. Por meio de um intérprete, em uma das conversas
com Bolognesi, contou ao diretor do filme que dorme de luz acesa.
Caso contrário, teme apanhar dos espíritos da floresta,
que estariam bravos porque o ex-pajé não dá
mais atenção a eles.
"Ora, se ele vê os espíritos,
e os espíritos ameaçam bater nele, ele não
deixou de ser pajé", argumenta Bolognesi. "Eu sinto
que eles não se desligaram do conhecimento do pajé,
porque, quando a coisa aperta, eles procuram o pajé, quase
que escondidos. Mas é uma coisa que não pode ser feita
em público, porque vai ferir o dogma evangélico."
Pajé quando ninguém vê
Sócia-fundadora da Associação
de Defesa Etnoambiental Kanindé, a indigenista Ivaneide Bandeira
Cardozo foi casada por mais de 20 anos com um dos principais líderes
dos suruís. Durante o tempo em que viveu com o grupo, testemunhou
a angústia de Perpera e a pressão evangélica
sobre os pajés.
"Ele não é ex-pajé,
ele é pajé", diz a ativista, mais conhecida como
Neidinha.
"Quando o povo que faz a vigilância lá não
está controlando, eu já vi ele fazendo cura."
Ivaneide cita como exemplo um caso
ocorrido com a cantora canadense Grace Young, da banda Grace &
The Victory Riders, que esteve com os suruís por algumas
vezes entre 2010 e 2011. "O marido dela, Jérôme
[Degey], teve uma reação alérgica a algo dentro
da aldeia, andando no mato. O Perpera fez um ritual de cura, quando
ninguém estava olhando."
A cantora canadense confirma a história.
"Ele cuidou de algumas feridas na boca do Jérôme
que não tinham melhorado com a medicina convencional. Nós
o seguimos pela floresta, ele cortou uma casca vermelha de uma árvore
e disse para Jérôme mastigar", recorda Grace.
"Logo depois, Jérôme sentiu um alívio imediato
e as feridas se fecharam rapidamente."
Almir Suruí (à esq.) e a cantora
canadense Grace Young
Neidinha e Bolognesi contam que a intimidação
sofrida pelos pajés é sutil. A indigenista diz que
o conflito não é visível e só é
perceptível para quem convive por muito tempo com os suruís.
"Se você for fazer uma prática de pajelança,
a maioria olha e diz que aquilo não é de Deus. Ou
pelo menos não é do Deus que eles acreditam, do novo
Deus que chegou lá."
"O que mais me chamou a atenção
é que a violência acaba sendo sutil e acaba sendo cometida
pelos próprios indígenas", afirma Bolognesi.
"Na medida em que se tornam evangélicos, eles são
os primeiros a reprimir, porque assumem o dogma fundamentalista
de que tudo o que o pajé faz é ligado ao demônio.
E aí eles são os primeiros a isolar o pajé,
persegui-lo."
"Rituais são antibíblicos", diz missionário
Apesar de criticar a perseguição a pajés, Neidinha
diz que a presença evangélica em terras indígenas
também tem um impacto positivo. "O lado bom é
que as pessoas envolvidas com álcool deixam de beber",
afirma a indigenista.
"Os indígenas procuram as missões evangélicas
porque elas dão uma série de garantias", avalia
a antropóloga Marta Amoroso, da USP (Universidade de São
Paulo). "Elas têm um apelo muito forte para dramas, crises.
Tem muitos casos documentados de suicídios, alcoolismo, drogas.
Muitas vezes, a missão evangélica entra aí.
O apelo dela é reorganizar as relações, dar
um sentido para isso tudo."
O pajé paiter-suruí Perpera em
foto registrada pela antropóloga Betty Mindlin, em 1979
O missionário Cícero Simões,
mais conhecido como Bacana, da Igreja Adventista do Sétimo
Dia, começou a frequentar as aldeias suruís por volta
de 2002. Ele diz que os rituais tradicionais da cultura indígena
são respeitados pelos evangélicos, mas não
deixa de manifestar sua opinião sobre eles.
"[Os rituais] São antibíblicos.
Tem espiritismo nisso. Pajé, você sabe que é
tudo espiritismo. Não há apoio bíblico para
isso", diz Bacana. "Mas a gente respeita. É o aprendizado
deles da vida toda."
Para ajudar no trabalho de conversão, os
missionários traduzem hinos evangélicos para a língua
dos paiter-suruís e procuram engajar os indígenas
em atividades de lazer, com música, brincadeiras e refeições
coletivas.
"Eu tiro um momento pra gente assistir a filmes,
fazer ação social. A gente leva outras pessoas pra
brincar junto, se divertir, tomar suco, comer pipoca e a gente sempre
vai conversando", conta Bacana. "A gente tenta criar uma
dinâmica para cativar o pessoal, e as portas se abrem."
No início de seu trabalho junto aos suruís,
Bacana diz que havia uma resistência grande a outras religiões
e sua presença chegou a provocar grande revolta entre os
caciques.
Eu arrisquei a vida. Muitas
vezes, me cercaram na estrada, à noite, para me bater.
Hoje, está tudo bem. Devagarzinho, a gente conseguiu
falar sobre a Bíblia
Cícero Simões, o Bacana,
missionário evangélico
Mesmo assim, Bacana diz que a entrada dos missionários
em algumas aldeias ainda não é permitida. "Mas,
na maioria, a gente é conhecido de bastante pessoas e vai
tranquilo", acrescenta. "Os mais novos entendem mais fácil.
Com os mais velhos, foi mais difícil. Eles queriam expulsar
a gente."
A Funai (Fundação Nacional do Índio)
é responsável pelas autorizações para
a entrada em terras indígenas. Em nota, o órgão
diz que "prima pelo respeito e cumprimento dos direitos dos
povos indígenas" e que "o proselitismo como objetivo
de atuação de instituições religiosas
em terras indígenas sempre foi coibido".
Discussão polêmica
Desde os primeiros contatos com o homem branco,
em 1969, as terras dos paiter-suruís passaram a receber visitas
frequentes de missionários de diferentes religiões.
Hoje, as aldeias contam com a presença das
igrejas batista, católica, luterana, Assembleia de Deus e
Adventista do Sétimo Dia. Diferentemente da maioria da população
local, Almir Suruí, o principal líder do grupo, diz
que não é evangélico e segue a religião
cultural de seu povo.
Almir se tornou uma celebridade internacional graças
ao trabalho na defesa da floresta. Na década passada, sob
sua liderança, os suruís ganharam notoriedade graças
a uma parceria com o Google para mapear as terras indígenas
e denunciar as ações ilegais de madeireiros e garimpeiros
na região.
Os suruís também foram pioneiros em
projetos para a arrecadação de recursos para preservar
a floresta e para a colheita sustentável de castanhas e café
para exportação.
Almir reconhece que os novos hábitos adquiridos
com o aumento da população evangélica são
um desafio para o seu povo. E teme o risco de que o conhecimento
praticado e transmitido pelos pajés possa ser prejudicado
pelas novas religiões dos suruís.
"Esperamos que essa história do filme
traga uma grande reflexão. Existe uma discussão bem
profunda dentro das aldeias. Uma parte diz que a atuação
do pajé não é bem-vinda", diz o líder
indígena. "Quando os suruís começaram
a atuar bastante dentro da religião, os pajés deixaram
mesmo de fazer alguns rituais. Hoje, os próprios suruís
comandam as igrejas dentro do território."
Apesar de reconhecer a importância do debate,
Almir diz que o assunto não está entre suas maiores
preocupações.
"Quando a gente começou a discutir isso,
foi muito polêmico. Então, a gente deixou de falar
muito sobre isso para não criar conflitos dentro do território
suruí", afirma. "Não é uma prioridade
nossa. Nós temos hoje outras prioridades que nos preocupam
aqui, que são a floresta e o desmatamento."
Saúde indígena
é dominada por ONGs evangélicas
O dilema sobre a evangelização
e a preservação da cultura tradicional dos povos indígenas
não se limita aos paiter-suruí. Um outro documentário,
"Monocultura da Fé", lançado no ano passado,
também tratou da intolerância religiosa entre os guarani-kaiowás,
no Mato Grosso do Sul.
"Esse contato com os evangélicos é
muito antigo", diz a antropóloga Marta Amoroso. "O
fenômeno novo é essa intervenção violenta,
impositiva, que não dá espaço para outras práticas.
Isso é muito recente, é do século 21."
A professora da USP cita como exemplo os relatos
de casas de reza incendiadas nas terras dos kaiowás e vê
uma relação direta entre o avanço de religiões
cristãs e um vazio deixado pelo Estado brasileiro no atendimento
às populações indígenas.
"Esses atores políticos, que são
os pastores, ocupam um lugar que era ocupado pelo Estado",
diz Marta Amoroso. "A gente sente a presença deles no
atendimento à saúde indígena, na mediação
dos negócios. O Estado se recolhe, diminui, e esse espaço
passa a ser terceirizado para ONGs evangélicas."
A antropóloga observa uma ação
política em que, com o apoio da bancada ruralista, os serviços
de amparo às populações indígenas deixam
de ser oferecidos pelo Estado leigo e passam para entidades como
a Missão Evangélica Caiuá.
A Secretaria Especial de Saúde Indígena
(Sesai), do Ministério da Saúde, é responsável
pelas ações de atenção básica
de saúde nos territórios indígenas. O órgão
atua em um modelo descentralizado, dividido em 34 Distritos Sanitários
Especiais Indígenas (DSEIs) espalhados pelo país.
A atuação da Sesai inclui a contratação,
por meio de convênios, de ONGs que trabalham junto aos distritos
indígenas. Atualmente, a Missão Caiuá, da Igreja
Presbiteriana, atua em 19 dos 34 DSEIs.
"É uma ONG que hoje atende 64% da saúde
indígena", diz Marta Amoroso. "Na maioria das aldeias,
o dinheiro que o Estado brasileiro destina para o atendimento da
saúde indígena é mediado pelos evangélicos."
Por meio de nota, o Ministério da Saúde
afirma que "o trabalho realizado pelas entidades que prestam
assistência à saúde nas localidades indígenas
não tem nenhuma relação com credos ou religião".
"Os convênios formalizados com a Missão
Evangélica Caiuá, assim como os demais, têm
como único objetivo a execução de serviços
complementares de atenção básica à saúde,
respeitando integralmente as características étnicas
e culturais dos povos atendidos, sem qualquer tipo de intervenção
religiosa", acrescenta a nota.
Saúde indígena é dominada por ONGs
evangélicas
O dilema sobre a evangelização e a preservação
da cultura tradicional dos povos indígenas não se
limita aos paiter-suruí. Um outro documentário, "Monocultura
da Fé", lançado no ano passado, também
tratou da intolerância religiosa entre os guarani-kaiowás,
no Mato Grosso do Sul.
"Esse contato com os evangélicos é muito antigo",
diz a antropóloga Marta Amoroso. "O fenômeno novo
é essa intervenção violenta, impositiva, que
não dá espaço para outras práticas.
Isso é muito recente, é do século 21."
A professora da USP cita como exemplo os relatos de casas de reza
incendiadas nas terras dos kaiowás e vê uma relação
direta entre o avanço de religiões cristãs
e um vazio deixado pelo Estado brasileiro no atendimento às
populações indígenas.
"Esses atores políticos, que são os pastores,
ocupam um lugar que era ocupado pelo Estado", diz Marta Amoroso.
"A gente sente a presença deles no atendimento à
saúde indígena, na mediação dos negócios.
O Estado se recolhe, diminui, e esse espaço passa a ser terceirizado
para ONGs evangélicas."
A antropóloga observa uma ação política
em que, com o apoio da bancada ruralista, os serviços de
amparo às populações indígenas deixam
de ser oferecidos pelo Estado leigo e passam para entidades como
a Missão Evangélica Caiuá.
A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do
Ministério da Saúde, é responsável pelas
ações de atenção básica de saúde
nos territórios indígenas. O órgão atua
em um modelo descentralizado, dividido em 34 Distritos Sanitários
Especiais Indígenas (DSEIs) espalhados pelo país.
A atuação da Sesai inclui a contratação,
por meio de convênios, de ONGs que trabalham junto aos distritos
indígenas. Atualmente, a Missão Caiuá, da Igreja
Presbiteriana, atua em 19 dos 34 DSEIs.
"É uma ONG que hoje atende 64% da saúde indígena",
diz Marta Amoroso. "Na maioria das aldeias, o dinheiro que
o Estado brasileiro destina para o atendimento da saúde indígena
é mediado pelos evangélicos.
Por meio de nota, o Ministério da Saúde afirma que
"o trabalho realizado pelas entidades que prestam assistência
à saúde nas localidades indígenas não
tem nenhuma relação com credos ou religião".
"Os convênios formalizados com a Missão Evangélica
Caiuá, assim como os demais, têm como único
objetivo a execução de serviços complementares
de atenção básica à saúde, respeitando
integralmente as características étnicas e culturais
dos povos atendidos, sem qualquer tipo de intervenção
religiosa", acrescenta a nota.