16/12/2016
A revista de História, Ciências, Saúde
— Manguinhos, dedicada a pesquisa, documentação
e divulgação científica em história das
ciências e da saúde, publicou entrevista com Marcelo Gulão
Pimentel, Klaus Chaves Alberto e Alexander Moreira-Almeida, em virtude
da publicação do artigo “As investigações
dos fenômenos psíquicos/espirituais no século XIX:
sonambulismo e espiritualismo, 1811-1860”, a ser publicado
em HCS-Manguinhos (volume 23, número 4).
Marcelo Gulão Pimentel, Klaus Chaves Alberto
e Alexander Moreira-Almeida discutem as principais explicações
oferecidas pelos pesquisadores da época a respeito dos fenômenos.
por Marina Lemle
Blog de HCS-Manguinhos

Gulão Pimentel é doutorando do Programa
de Pós-Graduação em História Política
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Chaves Alberto é
professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal
de Juiz de Fora (UFJF). Moreira-Almeida é professor de Psiquiatria
da Faculdade de Medicina da UFJF e fundador e diretor do Núcleo
de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Nupes/UFJF).
Os autores deram entrevista exclusiva para a Semana Especial de HCS-Manguinhos
no Blog SciELO em Perspectiva | Humana.
__________
O artigo em HCS-Manguinhos aborda dois
movimentos principais no período: o sonambulismo magnético
e o espiritualismo moderno. Como era a visão de cada um sobre
os fenômenos e as pessoas que os apresentavam?
Relatos sobre fenômenos psíquicos/espirituais são
encontrados em todas as culturas ao longo da humanidade. Esses fenômenos
geralmente envolvem a ideia de que a mente (espírito ou alma,
dependendo da abordagem de cada autor) poderia transcender o corpo físico,
gerando vivências como relatos de comunicação direta
entre mente e mente (telepatia), aquisições de informações
indisponíveis aos canais sensoriais normais (clarividência),
previsões de acontecimentos futuros (precognição),
curas a distância e de comunicação ou aparição
de pessoas já falecidas.
No início do século XIX, o sonambulismo magnético
e espiritualismo moderno foram dois movimentos ligados aos fenômenos
psíquicos/espirituais que despertaram o interesse da comunidade
científica nascente através de alguns dos principais investigadores
do período, como Michael Faraday, físico e químico
considerado um dos cientistas mais influentes da história; o
médico e naturalista William Carpenter, um dos primeiros estudiosos
a explorar a existência de mecanismos inconscientes na mente humana;
o físico e primeiro-ministro francês François Arago;
e o médico cirurgião James Braid, iniciador da hipnose
científica. Além desses nomes consagrados, havia ainda
diversos intelectuais que se debruçaram sobre o tema, como Hippolyte
León Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, que criou
uma teoria abrangente a partir da observação desses fenômenos,
chamada de espiritismo (que é um dos ramos do espiritualismo
moderno). Um dos principais objetivos desses pesquisadores era entender
as causas desses fenômenos e suas implicações para
a compreensão da mente, de seus transtornos e da própria
natureza humana.
Na segunda metade do século XIX, herdeiros desse debate, o fisiologista
Hippolyte Bernheim e o neurologista Jean Martin Charcot, por exemplo,
se envolveram em um intenso debate representando a Escola de Nancy e
a Escola de Salpêtrière sobre se esses fenômenos
deveriam ser considerados patológicos ou não.
Que concepções surgiram por volta de 1850 e como
elas explicavam os fenômenos?
Houve basicamente duas abordagens na comunidade científica da
época. A primeira buscava combater o sonambulismo magnético
e o espiritualismo moderno, pois os considerava manifestações
ou causas de doenças mentais, ou os julgava serem movimentos
místicos e supersticiosos que não resistiriam a uma análise
metodológica mais rigorosa. Uma segunda concepção,
reconhecia a importância do estudo desses fenômenos para
o melhor entendimento do funcionamento da mente humana. Nesta segunda
categoria havia pesquisadores que achavam que todos estes fenômenos
psíquicos/espirituais seriam explicáveis pela atuação
do cérebro e/ou da mente inconsciente, enquanto outros aceitavam
a possibilidade de que a mente teria capacidade de perceber e atuar
além do corpo físico e dos cinco sentidos, através
de uma real telepatia ou até mesmo da sobrevivência da
mente após a morte do corpo físico. Tais estudos geraram
muitos avanços na compreensão abordagem da mente humana,
a partir de seus mecanismos involuntários ou inconscientes. Também
houve espaço para que, no Brasil, essas discussões tivessem
contribuído para o desenvolvimento de terapias complementares,
como as que são aplicadas por grupos e hospitais psiquiátricos
espíritas que ainda hoje possuem uma significativa presença
do país.
Até hoje o tema intriga a sociedade, pauta a mídia
e gera tensões. O que mudou nestes dois séculos?
A grande mudança tem sido o retorno de pesquisas na área
de espiritualidade, ciências e saúde que foram negligenciadas
ao longo da maior parte do século XX. Nos últimos 20 anos,
tem aumentado o interesse na comunidade acadêmica, o que se demonstra
pelo crescente número de artigos científicos indexados
nas principais plataformas de buscas do mundo. Hoje percebemos uma maior
receptividade a essas pesquisas do que, provavelmente, tiveram os pesquisadores
do século XIX. Ainda assim, muitos especialistas afirmam que
o tema se configura como um dos tabus científicos do século
XXI. Há um rico campo a ser explorado, com uma série de
lacunas a serem preenchidas, como nas investigações históricas,
filosóficas e metodológicas das pesquisas sobre o tema.
Fonte: SciELO
em Perspectiva – Humanas
http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/fenomenos-psiquicosespirituais-tabu-cientifico-ha-200-anos/
Para ler o artigo, acesse
PIMENTEL, M. G., ALBERTO, K. C. and MOREIRA-ALMEIDA, A. As investigações
dos fenômenos psíquicos/espirituais no século XIX:
sonambulismo e espiritualismo, 1811-1860. Hist. cienc. saude-Manguinhos
[online]. In press. [viewed 19th October 2016]. ISSN 0104-5970. DOI:
10.1590/S0104-59702016005000010. Available from: http://ref.scielo.org/bsyvjb
Como citar este post [ISO 690/2010]:
LEMLE, M. Fenômenos psíquicos/espirituais: tabu científico
há 200 anos. SciELO em Perspectiva: Humanas. [viewed 27 October
2016]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2016/10/26/fenomenos-psiquicosespirituais-tabu-cientifico-ha-200-anos/
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