13/02/2016
AME BRASIL SE POSICIONA COM RELAÇÃO
AO ABORTO DE CRIANÇAS COM RISCO DE MICROCEFALIA POR VÍRUS
ZIKA

O professor Jáder Sampaio publicou
em seu blog "Espiritismo
Comentado" texto coletivo e instigante da Associação
Médico-Espírita do Brasil sobre a questão do aborto
a partir dos últimos eventos de microcefalia no Brasil e em outros
países, associados ao vírus Zika.
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por Jáder Sampaio
Os argumentos oriundos principalmente
do ensino dos espíritos, como a questão da reencarnação
a partir da concepção, não foram empregados, como
pude observar.
O texto é bem informativo e apresenta em linguagem fácil
as alternativas médicas de tratamento e as incertezas sobre o
desenvolvimento de portadores de microcefalia.
Outra perspectiva, já conhecida, mas oportuna,
são os estudos sobre depressão após o aborto, e
sua não associação com as crenças religiosas
das mulheres que se submeteram a este procedimento. É uma outra
perspectiva da saúde da mulher que normalmente não é
discutida pelos partidários da legalização do aborto.
Entendo que este texto pode ser objeto de uma boa discussão
entre os interessados no tema.
Boa leitura.
Jáder Sampaio - pelo Espiritismo
Comentado
____________
Zika Vírus e o Aborto
Associação Médico-Espírita
do Brasil
Os que defendem a legalização
do aborto encontraram na associação do aumento da microcefalia
com o surto de zika vírus uma oportunidade para retomar a discussão
da liberação do aborto no Brasil.
Recentemente foi noticiado que grupo
liderado pela Débora Diniz, do instituto de bioética Anis,
prepara uma ação no STF para a liberação
do aborto em casos de microcefalia. É o mesmo grupo que propôs
a ação para interrupção da gravidez de anencéfalos,
acatada pelo STF em 2012.
A bióloga e feminista Ilana
Löwy, numa entrevista para a Revista ÉPOCA, vê no
surto de zika vírus uma oportunidade para se debater o direito
de decisão da mulher de ter ou não o bebê, como
aconteceu com a epidemia de rubéola no Reino Unido. Interessante
é que a Rubéola hoje em dia é uma doença
totalmente controlável e passível de prevenção
através da vacinação, deixando de ser um risco
epidêmico, usado como justificativa para a liberação
do aborto na Europa.
Os argumentos utilizados se baseiam
na liberdade da mulher poder escolher o que é melhor para si,
esquecendo que existe uma vida a qual se está negando o primeiro
e mais fundamental dos direitos humanos, o direito à vida.
Cabe ressaltar que os fundamentos utilizados
para liberar o aborto dos fetos anencéfalos não se aplicam
nesses casos.
O diagnóstico da microcefalia
é tardio, em torno da 28ª semana, diferentemente da anencefalia,
que é feito a partir da 12ª semana de gestação.
As lesões da microcefalia geralmente
aparecem na ultrassonografia depois da 24ª e não são
incompatíveis com vida, como nos casos de anencefalia.
Além disso, o diagnóstico
ecográfico de lesão neurológica não é
100% seguro, já que depende da análise de um profissional
passível de equívocos. Existem inúmeros relatos
de erros em fetos com diagnóstico de mal-formações
neurológicas e que nasceram perfeitamente normais.
No entanto, os que argumentam em favor
do aborto querem transformar o diagnóstico de microcefalia em
atestado de morte para todas as crianças das mães que
contraíram o zika vírus e que optarem pela interrupção
da gravidez, mesmo com possibilidades de nascerem normais ou com poucas
sequelas neurológicas.
Com o avanço da medicina fetal
e da genética médica, hoje é possível a
detecção, ainda no útero, de várias anomalias
fetais. Diversas técnicas como ultrassom morfológico,
ultrassom de terceira dimensão, a biópsia de vilos coriais,
a amniocentese, a cordocentese, o desenvolvimento da técnica
citogenética molecular permitem o diagnóstico intrauterino
de várias doenças. O diagnóstico permite iniciar
o tratamento antes do nascimento, como cirurgias intrauterinas para
correções de más-formações, assim
como a preparação psicológica dos pais para o enfrentamento
das graves anomalias.
Querer selecionar apenas as crianças
saudáveis com direito à vida é retomar a prática
da eugenia feita na Grécia antiga e pelo nazismo, abrindo um
precedente para a liberação do aborto em outros casos
de microcefalia como as causadas por hipóxia neonatal, desnutrição
grave na gestação, fenilcetonúria materna, rubéola
congênita na gravidez, toxoplasmose congênita na gravidez,
infecção congênita por citomegalovírus ou
em doenças genéticas como Síndrome de Down, Síndrome
de Cornelia de Lange, Síndrome Cri du Chat, Síndrome de
Rubinstein – Taybi, Síndrome de Seckel, Síndrome
de Smith-Lemli–Opitz e Síndrome de Edwards.
Nesses casos pessoas como Ana Carolina
Dias Cáceres, moradora de Campo Grande (MS), hoje com 24 anos
e formada em jornalismo, e tantas outras crianças em situações
parecidas, não teriam direito à vida.
Ao saber da iniciativa de alguns em
defender o aborto de fetos com microcefalia, Ana Cáceres veio
a público dar seu depoimento a BBC do Brasil em defesa dos portadores
de microcefalia.
Nos casos microcefalia não se
pode falar na opção de abortamento, pois não se
trata de patologia letal que inviabilize a vida extrauterina. Embora
as limitações que possam surgir, a expectativa de vida
das crianças com microcefalia não são diferentes
das outras crianças, exigindo, no entanto, estimulação
e cuidados especiais para melhorar a sua qualidade de vida.
A discussão do aborto em casos
de microcefalia retrata bem o momento pós-moderno em que vivemos,
o que Bauman, um dos maiores pensadores da atualidade, chama de modernidade
líquida. Na modernidade líquida os indivíduos não
possuem mais padrões de referência, nem códigos
sociais e culturais que lhes possibilitem, ao mesmo tempo, construir
sua vida e se inserir dentro das condições de classe e
cidadão.
A modernidade líquida trouxe
descentramento do homem, do sujeito, produzindo identidades híbridas,
locais e globais, efêmeras sobre tudo. É a cultura do efêmero,
da destruição criativa, “tudo que é sólido
desmancha no ar” na imagem trazida por Bauman.
Para a maioria dos autores, a pós-modernidade
é marcada como a época das incertezas, das fragmentações,
do narcisismo, da troca de valores, do vazio, do niilismo, da deserção,
do imediatismo, da efemeridade, do hedonismo, da substituição
da ética pela estética, da apatia, do consumo de sensações
e do fim dos grandes discursos.
A educação recebida dos
pais e das escolas, os valores morais que orientam as boas relações
sociais, o fortalecimento da família e a busca do bem comum está
perdendo espaço para novas formas de comportamento regidas pelas
leis do mercado, do consumo e do espetáculo.
Existe uma crise de valores com perda
de referenciais importantes em detrimento de uma vida superficial e
de um discurso liberal.
Na sociedade pós-moderna predomina
o ter acima do ser, o prazer pelo prazer, o prazer acima de tudo, a
permissividade que justifica que tudo é bom desde que me sinta
bem, o relativismo no qual não há nada absoluto, nada
totalmente bom ou mau e as verdades são oscilantes, o consumismo,
se vive para consumir, e o niilismo caracterizado pela subjetividade,
a paixão pelo nada, numa indiferença assustadora.
Renata Araújo descreve muito
bem o sujeito pós-moderno:
“A pós-modernidade nos
apresenta um sujeito imediatista, fragmentado, narcisista, desiludido,
ansioso, hedonista, deprimido, embora também informatizado,
buscando independência, autonomia e defesa de seus direitos.
Mas, a supervalorização e autonomia geram um individualismo,
um egocentrismo, uma ênfase na subjetividade, sendo o outro
apenas para a consecução de seus objetivos pessoais.”
(ARAÚJO, p. 1 e 2)
Vive-se numa época de grande
competitividade e de pouca solidariedade. Em nome dessa nova ideologia,
os indivíduos se permitem agir passando por cima de valores fundamentais.
A coisificação da vida
e o predomínio dos interesses pessoais em detrimento do coletivo
são bem característicos dessa fase em que vivemos.
Entretanto, aprendemos com a genética
que a diversidade é a nossa maior riqueza coletiva. E o feto
anômalo, mesmo o portador de grave deficiência, como é
o caso da microcefalia, faz parte dessa diversidade. Deve ser, portanto,
preservado e respeitado.
Necessário se faz proteger também
a gestante, dando a ela apoio em sua gravidez e proporcionando tratamento
ao seu futuro filho.
Reconhecemos que a mulher que gera
um feto deficiente precisa de ajuda psicológica por longo tempo;
constatamos, porém, que, na prática, esse direito não
lhe é assegurado.
O aborto provocado é um procedimento
traumático com repercussões gravíssimas para a
saúde mental da mulher e que geralmente aparecem tardiamente.
O aborto produz um luto incluso devido
à negação da ocorrência de uma morte real,
mas esse aspecto é totalmente desconsiderado.
As mulheres sofrem uma perda e suas
necessidades emocionais são relegadas ou escondidas. Elas não
conseguem vivenciar o seu luto e lidar com a culpa. Esse processo vai
gerar profundas marcas e favorecer o surgimento da Síndrome pós-aborto
(PAS).
Psiquiatras e psicólogos especializados
em atender mulheres que abortaram alertam para o aumento dos transtornos
emocionais causados pelo aborto provocado. Eles afirmam que os efeitos
psicológicos do aborto são extremamente variados e não
são determinados pela educação recebida ou pelo
credo religioso. Esclarecem que a reação psicológica
ao aborto espontâneo e ao aborto involuntário é
diferente, está relacionada com as características de
cada um desses dois eventos. O aborto espontâneo é um evento
imprevisto e involuntário, enquanto o aborto provocado interrompendo
o desenvolvimento do embrião ou do feto e extraindo-o do útero
materno contempla a responsabilidade consciente da mãe. As mulheres
que se submeteram ao aborto afirmam que a culpa não é
gerada de fora para dentro, infundida nelas por outras pessoas ou pela
religião, ao contrário, ela surge e cresce em seu mundo
íntimo a partir do ato abortivo.
Os problemas emocionais gerados pelo
aborto são tão graves, que em muitos países onde
ele é legalizado, foram criadas, pelas próprias mulheres
vitimadas pelo aborto, associações como a Women Exploited
by Abortion (Mulheres Exploradas pelo Aborto) nos EUA, e a Asociación
de Víctimas del Aborto (Associação de Vítimas
do Aborto) na Espanha, que orientam e alertam sobre as consequências
prejudiciais do aborto.
O aborto não é definitivamente
uma "solução fácil" como afirmam muitos,
mas um grave problema, um ato agressivo que terá repercussões
contínuas na vida da mulher.
As consequências danosas provocadas
pelo aborto à saúde mental nos países onde ele
foi legalizado é tão grave como a depressão profunda,
que o Royal College of Psychiatrists (associação dos psiquiatras
britânicos e irlandeses), alertaram que a mulher deve ser comunicada
para os graves riscos emocionas que se submete caso opte pela interrupção
da gravidez.
Portanto, aborto nunca será
uma solução, sempre um lado ou ambos serão prejudicados.
Não é dando a mulher autonomia para matar seu filho dentro
de seu ventre que resolveremos os problemas sociais. Isto não
passa de demagogia. É necessário investir na educação
das massas para prevenção da gravidez indesejada, mas
jamais matar uma criança inocente. Os fins não podem justificar
os meios.
A sociedade que apela para o aborto
declara-se falida em suas bases educacionais, porque dá guarida
à violência no que ela tem de pior, que é a pena
de morte para inocentes. Compromete, portanto, o seu projeto mais sagrado
que é o da construção da paz.
A Associação Médico-Espírita
do Brasil reitera seu posicionamento contra qualquer forma de violência
a uma nova vida que não põe em risco a vida materna e
que surge aguardando o auxílio de braços fortes e sensíveis
que lhe ampare em sua fragilidade.
Concitamos a todos os colegas das AMEs
para continuarmos firmes em defesa da vida e da paz.
AME-Brasil
REFERÊNCIAS
1) ARAÚJO, Renata Castro Branco. O Sofrimento
Psíquico na Pós-Modernidade: Uma Discussão Acerca
dos Sintomas Atuais na Clínica Psicológica. Trabalho de
Conclusão do Curso de Pós-Graduação em Psicologia
Clínica.
Disponível em: http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0311.pdf
Acessado em 09/02/2016.
2) BAUMAN, Zygmunt. Ética Pós-moderna. São Paulo:
Paulus Ed., 1997.
3) BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 2001.
4) BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 2007.
5) BAUMAN, Zygmunt. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,
2014
6) BERMAN, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar.
São Paulo: Schwarce ed., 1986.
7) CÁCERES, Ana Carolina Dias 'Existo porque minha mãe
não optou pelo aborto', diz jornalista com microcefalia.
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/02/1735812-existo-porque-min...
Acessado em 09/02/2016.
8) LÖWI, Ilana. A rubéola levou à legalização
do aborto no Reino Unido. O zika fará o mesmo no Brasil?
Disponível em: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/02/rubeola-levou-legalizacao-do...
Acessado em 09/02/2016.
9) RAZZO, Francisco. Um novo nome para uma velha fantasia.
Disponível em:
http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/um-novo-nome-para-uma-vel...
Acessado em 09/02\/2016.
Fonte: http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/2016/02/ame-brasil-se-posiciona-com-relacao-ao.html?spref=fb
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