28/12/2015
por Sabrina Pabst
Deutsche Welle
As feridas emocionais das crianças refugiadas
Um terço dos migrantes que chegam à
Alemanha são crianças e adolescentes. Muitos passaram
por violência e necessidades no caminho. Clínica na Alemanha
oferece atendimento psicológico gratuito para esses pacientes.

"Eu tinha tanto medo no barco. Eu estava
com meu irmão mais novo nos braços, também quando
a gente caiu na água. Eu o segurei em meus braços e
chorei. Eu rezei a Deus para ir para o paraíso. Eu pensei que
fosse morrer. A morte estava tão perto".
Farah tem 10 anos e fugiu da Síria junto com
a família.
"Durante fuga, tivemos que ficar por cinco
meses em um campo de refugiados na Bulgária, que era horrível.
Os guardas batiam na gente", lembra Namir, de 12 anos.
Sua família cristã vivia em Damasco, na
Síria, onde, segundo ele, era perseguida. Ele relata que alguns
parentes foram até forçados a se converterem ao Islã.
"No caminho para a Alemanha, andamos por
uma floresta escura. Lá eu perdi os meus sapatos, e meus pés
ficaram sangrando por causa dos galhos e espinhos. Meu pai teve que
me carregar e também carregar a minha irmã. Eu passei
fome e sede."
Luta pela sobrevivência e medo da morte
"Meu irmão mais
novo foi separado de nós durante a fuga. Durante três
dias nós não o achamos. Choramos três dias seguidos",
diz Walid.
Quando finalmente encontraram
Nidal, três dias depois, ele estava traumatizado.
"Ele chorava e ria
ao mesmo tempo. Foi indescritível. Se tivesse acontecido comigo,
tudo bem, mas ele é só uma criança", conta
Walid, de 17 anos.
Durante a fuga, Walid se
tornou adulto. Ele fugiu da Síria com a mãe e dois irmãos.
Seu pai teve que ficar para trás.
"Minha mãe às
vezes chora sem parar. Nós todos temos pesadelos. Vimos combatentes
matarem duas pessoas, quando passávamos uma noite dormindo
no chão de uma escola. Eu nunca vou esquecer disso. Meus dois
irmãos também viram aquilo. Às vezes, Nidal parece
querer machucar a si mesmo."
Walid diz que o dia mais feliz
para ele será quando puder ver seu pai novamente.

Amadurecimento precoce: aos 17 anos, Walid cuidou
de sua mãe e irmãos durante a fuga
Um terço são crianças
As vivências de Farah, Namir e
Walid comovem. São experiências de que os pais tentam poupar
os filhos. Mas o desespero desses pais é grande. Todos eles têm
o desejo de dar a seus filhos um futuro seguro. De acordo com o governo
alemão, um terço de todos os refugiados que vêm
para a Alemanha são crianças e adolescentes. Organizações
de proteção à criança, como a Save
the Children, alertam que muitos desses menores passam por
experiências cruéis e traumatizantes – mas poucos
falam sobre isso.
"É um sofrimento terrível,
ouvimos isso todos os dias", diz o psicólogo Andreas Mattenschlager,
diretor de um projeto em Ulm que oferece consulta e apoio psicoterapêutico
para crianças refugiadas traumatizadas.
"Crianças refugiadas,
como todas as crianças, querem ter uma sensação
de segurança. Na fuga, elas e seus pais conseguiram escapar
do sofrimento e da violência, mas a situação delas
continua sendo catastrófica", destaca Mattenschlager."
Perda de segurança
"Crianças pequenas
experimentam esse sentimento de segurança não em lugares,
mas no relacionamento com seus pais", explica o terapeuta familiar.
"As crianças vivenciam pais fortes em casa. Já
quando seus pais não estão presentes ou ficam para trás
durante a fuga, essa segurança é perdida".
Em seu trabalho, ele também
percebeu que as crianças afetadas sofrem com a alta expectativa
dos pais.
"Eles deixaram tudo
para trás, a fim de dar a seus filhos um futuro melhor",
ressalta Mattenschlager.
"As crianças, então, têm que desempenhar
seus papéis na Alemanha e temem não decepcionar seus
pais."
Experiências de guerra,
prisão e tortura no país de origem, assim como na fuga
de meses para a Europa sobrecarregam muito essas crianças. A
situação nos campos de refugiados, a discriminação
e o isolamento aumentam a carga psicológica.
"Nos abrigos, com 1.500
pessoas em um espaço confinado, as famílias passam muitos
dias e meses. Este é um grande fardo", diz o médico
Volker Mall, diretor no Kinderzentrum München, um centro de atendimento
social e pediátrico em Munique."
Terapia pode melhorar integração
Muitos dos menores sofrem de transtornos
psicológicos devido à experiência pela qual passaram.
"Para melhor integrar
as crianças em creches e escolas, é preciso oferecer,
de forma rápida e simples, um auxílio psicoterapêutico",
acredita Mall.
"Nossas estruturas são boas. Temos instalações
para lidar com o problema. Mas alguns pedidos de asilo duram anos
para serem aprovados", constata Mall.
Somente após uma autorização
de residência, o seguro de saúde na Alemanha pode cobrir
tratamentos psicoterapêuticos. Andreas Mattenschlager e sua equipe
oferecem, uma vez por semana, atendimento gratuito em um centro para
refugiados em Ulm. O serviço é financiado pela Igreja.
"Mas conseguir ganhar
confiança nesse tempo reduzido é um grande desafio",
sublinha Andreas Mattenschlager.
"As crianças e adolescentes desacompanhados passaram por
muitos relacionamentos rompidos. Eles perderam os pais ou, na fuga,
tiveram contato com pessoas que posteriormente se perderam. Em primeiro
lugar, é importante para eles ter alguém para conversar
em quem confiam."
Mas, no início, as famílias
ficavam desconfiadas de que o conteúdo das conversas fosse encaminhado
para o setor de imigração do governo.
"Só depois que a
confiança é criada, é que as crianças
traumatizadas conseguem falar sobre o que viveram."
Fonte: http://dw.com/p/1H0dQ
- http://www.dw.com/pt/as-feridas-emocionais-das-crian%C3%A7as-refugiadas/a-18830356
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