11/12/2014
Por MICHAEL WINES
BOSTON - Aos 9 anos de idade e órfão devido
ao genocídio étnico, ele morava em um carro queimado,
abandonado em um lixão em Ruanda. Vivia de esmolas e ficou mais
de um ano sem tomar banho.

Justus Uwayesu, calouro da Universidade Harvard,
passou a infância em um lixão de Ruanda - Ian Thomas Jansen-Lonnquist/The
New York Times
Um dia, quando uma assistente social americana, Clare
Effiong, visitou o depósito de lixo, outras crianças debandaram.
Justus Uwayesu, porém, ficou onde
estava, e ela indagou o motivo.
"Eu quero ir para a escola", foi a resposta
do menino, que acabou realizando seu desejo.
Neste ano, Uwayesu entrou na Universidade Harvard com uma bolsa de estudos
integral e está cursando matemática, economia e direitos
humanos. Com cerca de 22 anos - sua data de nascimento é desconhecida
-, ele poderia ser apenas um dos 1.667 alunos do primeiro ano por aqui.
Obviamente, porém, ele é diferente.
Nesses 13 anos desde que escapou, Uwayesu não só ascendeu
aos mais altos níveis acadêmicos em seu país. Estudando
em Ruanda, ele aprendeu inglês, francês, suaíli e
lingala. Além disso, ajudou a fundar uma entidade beneficente
para ajudar alunos pobres do ensino médio.
Originário de um país dominado por dois grupos étnicos
- os hutus majoritários e os tutsis, os quais tiveram o maior
número de mortos no conflito em 1994 -, diz estar encantado com
a profusão de nacionalidades e estilos de vida em Harvard. Ele
ficou agradavelmente surpreso com a aceitação em relação
a alunos assumidamente gays -"não se ouve falar disso em
Ruanda"- e perturbado ao ver mendigos morando nas ruas em um país
tão próspero que "é difícil distinguir
quem é rico e quem não é".
Ele conta que os quatro colegas de quarto o ajudaram a se adaptar à
vida em Boston. No entanto, ainda está tentando entender a cultura
americana, que é mais frenética e ruidosa do que a de
sua terra natal.
"As pessoas fazem tudo rapidamente e se movimentam
com pressa. Elas lhe dizem a verdade e contam suas experiências
e restrições. Em Ruanda, tratamos os adultos com grande
deferência. Não gritamos nem somos brigões."
Uwayesu tinha somente 3 anos quando seus pais, ambos
agricultores analfabetos, morreram em um massacre que ceifou a vida
de cerca de 800 mil pessoas em cem dias.
Funcionários da Cruz Vermelha o salvaram junto com um irmão
e duas irmãs e cuidaram deles até 1998, quando a maré
crescente de crianças órfãs fez com que fossem
levados de volta a seu vilarejo. Eles chegaram justamente quando a província
estava devastada pela seca e pela fome.
"Eu fiquei desnutrido", relatou Uwayesu.
Em 2000, Justus e seu irmão foram a pé
para Kigali, capital de Ruanda, com cerca de 1 milhão de habitantes,
em busca de comida e ajuda. No entanto, foram parar em Ruviri, lixão
nos arredores da cidade que era o lar de centenas de órfãos.
Justus e outras duas crianças foram morar em um carro abandonado.
A partir daí, durante um ano e meio, ele passava o tempo todo
procurando comida e abrigo.
"Não havia chuveiro nem qualquer possibilidade
de tomar banho", relatou.
Ele aprendeu a achar caminhões de hotéis
que carregavam refugos e a apanhar a comida antes que as cargas fossem
dadas a outros órfãos. Uwayesu contou que certa vez quase
foi enterrado vivo por um trator que empurrava pilhas de lixo em um
buraco.
Ele passou noites aterrorizado diante da possibilidade de ser atacado
por um tigre que supostamente vagava pelo lixão, embora não
haja de fato tigres na África. Mendigando nas ruas, ele via um
mundo inatingível.
"Ao meio-dia", comentou ele, "crianças
de uniforme saíam da escola e voltavam para suas casas correndo
e brincando. Às vezes, elas me chamavam de nayibobo" -
que significa "criança esquecida".
A Esther's Aid, instituição
de caridade fundada por Clare Effiong nos arredores de Nova York, decidiu
em 2000 se dedicar a ajudar os órfãos de Ruanda. Certo
dia, em 2001, após entregar um contêiner com alimentos
e roupas, Effiong viu Justus e outros órfãos e se ofereceu
para levá-los a um lugar seguro.
"Eu o levei para onde eu estava, o fiz tomar
banho, lhe dei roupas limpas, cuidei de suas feridas e posteriormente
o enviei para a escola primária", disse ela.
Ao final do primeiro ano, ele foi o melhor aluno de
sua turma. Já no ensino médio, suas notas lhe garantiram
uma vaga em uma escola especializada em ciências.
Uwayesu mudou-se para um orfanato dirigido pela Esther's Aid e depois,
junto com suas duas irmãs, para o prédio onde Effiong
morava quando estava em Kigali. Ele trabalhou na instituição
de caridade, que depois também passou a oferecer uma escola de
culinária para meninas e está construindo um campus para
órfãos.
Todavia, ele não teria conseguido concorrer a uma vaga em uma
universidade nos EUA sem ajuda externa. Ele entrou no programa Bridge2Rwanda,
de um ano de duração, sob direção de uma
instituição de caridade em Arkansas que prepara alunos
para o processo de entrada na faculdade.
Durante a década passada, o diretor de admissões internacionais
de Harvard percorria a África anualmente em busca de candidatos.
No entanto, até este ano, o campus de Cambridge tinha apenas
uma estudante de Ruanda, Juliette Musabeyezu, que está no segundo
ano.
Isso, porém, mudou. Dos cerca de 25 inscritos africanos que foram
aprovados neste ano, três são de Ruanda, incluindo um segundo
bolsista da Bridge2Rwanda.
Há uma foto dos alunos ruandeses em Harvard na página
de Musabeyezu no Facebook, com a legenda: "Finalmente minha gente
está aqui".
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/11/1541457-apos-infancia-em-lixao-ruandes-chega-a-harvard.shtml
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