16/11/2014

Allen Frances
Allen Frances (Nova York,
1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e
Estatístico (DSM), documento que define e descreve
as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia
dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado
aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu
a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão
que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos.
Em seu livro Saving Normal (inédito
no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal
referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente
medicalização da vida.
Pergunta. No livro, o senhor faz
um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas
do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos
[no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar,
nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho.
Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o
impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas
no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não
soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos,
pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é
algo muito comum e de fácil solução. O resultado
foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano,
especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação
de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação
diagnóstica em hiperinflação.
P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que
tinham participado da última revisão e os vi tão
entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia:
vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles,
que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência
me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência
em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então
provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como
quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda
me dói, devo ter caído em uma depressão. É
absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas
cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.
P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram
fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão
enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem
com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são
necessários e muito úteis em transtornos mentais severos
e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não
ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de
medicação causa mais danos que benefícios. Não
existe tratamento mágico contra o mal-estar.
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Os laboratórios estão
enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se
resolvem com comprimidos.
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P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos
e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades
oferecidas para se medicar, o que está provocando além
do mais a aparição de um perigosíssimo mercado
clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país,
30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio
compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico
que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose
e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos
do que por consumo de drogas.
P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34%
das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade
e déficit de atenção. É crível que
uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno
de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das
crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso
dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com
fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças
em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso
é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles
que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados.
Perdeu-se o controle.
P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam
as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV,
e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo
ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios,
os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança
brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram
no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso
puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.
P. A influência dos laboratórios é evidente,
mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes
a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório,
porque a professora disse que a criança não progride adequadamente,
e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até
que ponto esses fatores culturais influenciam?
R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não
há evidência em longo prazo de que a medicação
contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode
acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar
melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não
foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande
escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos
adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim
como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança
para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar
o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar
que há diferenças entre as crianças e que nem todas
cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito.
É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso
de medicação.
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Os melhores especialistas, aqueles
que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados.
Perdeu-se o controle.
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P. Na medicalização da vida, não influi
também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos
há milhões de anos graças a essa capacidade de
confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque
ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas
lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança
mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir
a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança
em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade
inteira se debilitará frente à adversidade. Além
disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade,
diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.
P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno
mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos
foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados
por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito
fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil
reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos
adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo
uma corrente crítica em relação a essas práticas.
O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio
demais faz mal para a saúde.
P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos
um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população
fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços
em saúde da história recente, e foi conseguido por uma
mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes
somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos
medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências
científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança
foi muito rápida.
P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias
tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios
sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar
o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um
medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito
do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália,
alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência
para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que
gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A
esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança
de atitude nas pessoas.
P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica
para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que
o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo.
Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos
adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente
mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os
fármacos receitados a ele sejam justificados.
P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso
mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta
de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às
22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando
vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à
noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.
El País
Fonte:
http://psibr.com.br/noticias/ex-coordenador-do-dsm-sobre-a-biblia-da-psiquiatria-transformamos-problemas-cotidianos-em-transtornos-mentais
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Ex-diretor do DSM concede nova entrevista sobre
livro que denuncia lobby da indústria farmacêutica
Traduzido
para 12 idiomas, mas ainda em busca de editora no Brasil, o livro de
Allen Frances “Saving Normal” (Salvando o normal, em tradução
livre) questiona o manual que é referência para psiquiatras
do mundo no diagnósticos de transtornos mentais. Para Frances,
dificuldades diárias ganharam nomes de distúrbios no DSM
(Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
Como resultado, uma legião de pessoas usa remédios sem
necessidade, tendência que, ele diz, tem influência da indústria
farmacêutica.
O DSM 5, mais recente edição da “bíblia
da psiquiatria”, é cercado de polêmicas, e uma delas
veio do Instituto Nacional de Saúde Mental (NHI), um dos principais
órgãos norte-americanos, que decidiu excluir de financiamentos
as pesquisas que se baseiam nas categorias do guia. Especialistas como
Frances — diretor da revisão da edição anterior
a esta, o DSM IV — dizem que os critérios de diagnósticos
são “frouxos” e podem sofrer pressões de setores
interessados.
O senhor acredita num retrocesso do DSM 5 em
relação do DSM IV?
Houve pouca controvérsia no DSM IV (1994) porque ele rejeitou
92 de 94 sugestões de novos diagnósticos. O DSM 5 (2013)
é muito polêmico porque abriu as portas para a irresponsável
abundância de diagnósticos e de venda de remédios.
Na sua opinião, novos transtornos foram incluídos
sem necessidade no DSM 5? De quem é a responsabilidade?
Sim, estamos transformando os problemas diários em transtornos
mentais e tratando-os com comprimidos. Parte do problema é que
o sistema de diagnóstico é muito frouxo. Mas o principal
problema é que a indústria farmacêutica vende doenças
e tenta convencer indivíduos de que precisam de remédios.
Eles gastam bilhões de dólares em publicidade enganosa
para vender doenças psiquiátricas e empurrar medicamentos.
Quais seriam os exemplos desses excessos do manual?
Uma tristeza normal se tornou “transtorno depressivo maior”;
um esquecimento da idade é “transtorno neurocognitivo leve”;
birras usuais do temperamento infantil se tornam “transtorno disruptivo
de desregulação do humor”; exagerar na comida virou
“transtorno da compulsão alimentar periódica”;
uma preocupação de um sintoma médico é “transtorno
de sintoma somático”; e em breve todos terão “transtorno
de déficit de atenção e hiperatividade” (TDAH)
e tomarão estimulantes.

Quando o psiquiatra Leon Eisenberg, considerado “o pai
do TDAH”, se deparou com o aumento do diagnóstico nos EUA,
ele o chamou de “doença fictícia”. Qual é
a sua opinião?
O TDAH ocorre em 3% das crianças, mas é diagnosticado
em 11% de americanos e, ridiculamente, em 20% de adolescentes homens.
O remédio pode ser bom para poucos e terrível se usado
em muitos.
Quão profundo pode ser o impacto de remédios
desnecessários no comportamento desses indivíduos?
Fazemos um vasto e descontrolado experimento em nossas crianças,
banhando seus cérebros imaturos com produtos químicos
fortes sem saber seus efeitos de longo prazo. Pais precisam se tornar
consumidores informados e proteger seus filhos.
A indústria farmacêutica exerce alguma pressão
sobre o grupo de trabalho responsável pela revisão do
DSM?
Ela espera às margens e não faz pressão na revisão
de diagnósticos. Mas tem financiamento ilimitado e os melhores
cérebros publicitários dedicados a difundir a desinformação
de que transtornos psiquiátricos são subdiagnosticados
e fáceis de diagnosticar. E apresenta comprimidos como solução.
Temos dados científicos suficientes para embasar os
diagnósticos?
Aprendemos muito sobre o funcionamento do cérebro, mas até
agora isso não ajudou um único paciente. O cérebro
é a coisa mais complicada que existe. A passagem da ciência
básica para a prática clínica é dolorosamente
lenta, e não podemos nos apressar na psiquiatria. Ainda não
temos testes biológicos para definir doenças mentais,
mas isso não significa que não podemos ajudar aqueles
que realmente precisam.
Como balancear a crítica ao excesso de diagnóstico
sem elevar o preconceito com os doentes?
Enquanto tratamos em excesso os que não precisam, vergonhosamente
deixamos os doentes de verdade ao léu. Temos ferramentas para
ajudá-los a ser produtivos e ter dignidade.
Quais são as consequências disto?
Os gravemente doentes terminam na rua, em prisões ou hospitais
psiquiátricos inadequados. Precisamos focar nos que estão
doentes e proteger os que acham que estão. Nos EUA, pessoas morrem
mais por remédios prescritos do que de drogas ilícitas.
Que medidas sociedade, cientistas, autoridades e indústria
farmacêutica poderiam tomar?
Apertar o sistema de diagnóstico; recapacitar médicos
para os riscos, e não apenas os benefícios de remédios;
eliminar a propaganda de companhias farmacêuticas. É uma
batalha de Davi contra Golias, mas foi bem-sucedida contra a indústria
do tabaco.
O Globo
Flávia Milhorance
Fonte:
http://psibr.com.br/noticias/ex-diretor-do-dsm-concede-nova-entrevista-sobre-livro-que-denuncia-lobby-das-industrias-farmaceuticas