Notícias: Má conduta científica é
um problema global !
21/08/2014
por Elton Alisson
Agência Fapesp
Plágio, falsificação e fabricação
de resultados científicos deixaram de ser problemas exclusivos
de potências em produção científica, como
os Estados Unidos, Japão, China ou o Reino Unido. A avaliação
foi feita por Nicholas Steneck, diretor do programa
de Ética e Integridade na Pesquisa da University of Michigan,
nos Estados Unidos, em palestra no 3º
BRISPE – Brazilian Meeting on Research Integrity, Science
and Publication Ethics, realizado nos dias 14 e 15 de agosto, na sede
da FAPESP.
Plágio, falsificação e fabricação
de dados em artigos deixaram de ser exclusivos de potências científicas
e exigem resposta coordenada dos países que fazem ciência,
segundo Nicholas Steneck, da Michigan University (foto: Leandro Negro/Ag. FAPESP)
Segundo Steneck, por ter atingido escala global, é
preciso que universidades, instituições de pesquisa e
agências de fomento em todo o mundo realizem ações
coordenadas para lidar com essas questões, a fim de não
colocar em risco a integridade da ciência como um todo.
“Inicialmente, a má conduta científica
era um problema limitado a poucos países, como os Estados Unidos.
Mas agora, nações emergentes em ciência, como
o Brasil, ‘juntaram-se ao clube’ em razão do aumento
da visibilidade de suas pesquisas, e têm sido impactadas de
forma negativa por esse problema”, disse Steneck, um dos maiores
especialistas mundiais em integridade na pesquisa.
Nos últimos anos, segundo Steneck, passou a
ser observado um aumento global do número de casos relatados
de má conduta científica. Um estudo
publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences
of the United States of America (PNAS) sobre as causas de retratação
de 2.047 artigos científicos, indexados no repositório
PubMed e produzidos por pesquisadores de 56 países, revelou que
apenas 21,3% das retratações foram atribuídas a
erro.
Por outro lado, 67,4% das retratações foram atribuídas
à má conduta científica, segundo o estudo. Dessas,
43,4% ocorreram por fraude ou suspeita de fraude, 14,2% por publicação
duplicada e 9,8% por plágio. Estados Unidos, Japão, China
e Alemanha responderam por três quartos das retratações.
Os autores do estudo estimam que a porcentagem de artigos que tiveram
de sofrer retratação por causa de fraude aumentou cerca
de 10% desde 1975, quando os primeiros casos de má conduta científica
começaram a vir a público.
Outro
estudo, publicado na PLoS Medicine, utilizou
dados da base Medline, a respeito de artigos publicados até junho
de 2012 que abordaram o tema da má conduta científica,
para tentar verificar o problema em países de economias em desenvolvimento.
Segundo os autores, apesar dos poucos dados disponíveis, o resultado
da análise indica que o problema é tão comum nos
países emergentes como nos mais ricos e com maior tradição
científica.
“Vemos que há mais casos de má
conduta científica hoje do que há 10 anos, mas não
sabemos se o número de casos está aumentando ou se estão
sendo mais descobertos e revelados”, disse Steneck à
Agência FAPESP.
“O fato é que as pessoas estão prestando mais
atenção ao problema da má conduta científica
e cada vez mais novos casos têm sido relatados.”
Já um outro
estudo, divulgado em abril no Journal of the Medical
Library Associaton, identificou 20 países com os maiores
números e percentuais de artigos da área de Ciências
Biomédicas retratados por problemas de plágio e duplicação
de dados, publicados entre 2008 e 2012 e indexados no PubMed.
O estudo apontou que a Itália, a Turquia, o Irã e a Tunísia
possuem o maior percentual de artigos retratados por problema de plágio,
enquanto a Finlândia, China e novamente a Tunísia apresentam
a maior taxa de artigos retratados em razão da duplicação
de publicação. O Brasil ocupa a 17ª colocação
no ranking geral, logo atrás da Espanha e à frente da
Finlândia, Tunísia e Suíça.
_____________________________
Interview with Nicholas Steneck (University of Michigan) at
the Brazilian Meeting on Research Integrity, Science and Publication
Ethics (III BRISPE).
De acordo com Steneck, a atenção e a resposta
ao problema da má conduta científica têm sido direcionadas
aos casos de maior repercussão internacional, como o do anestesiologista
Yoshitaka Fujii, da Toho University, no Japão, que teve 183 artigos
retratados desde 2011 por falsificação de dados.
Esses casos especiais, contudo, podem representar apenas
a ‘ponta do iceberg’ do problema. Um levantamento realizado
pelo Deja
vu – sistema computacional que identifica títulos
e resumos de artigos indexados em repositórios científicos
e permite a verificação de suspeitas – identificou
79,3 mil artigos indexados no Medline com esse tipo de problema.
Do total de artigos, apenas 2,1 mil foram examinados e, desses, 1,9
mil foram retratados. Mais de 74 mil ainda não foram verificados
pelas publicações.
“Há muitos casos de má conduta
científica subestimados pelas universidades e instituições
de pesquisa, que poderão ser descobertos no futuro”,
afirmou Steneck.
Na avaliação do especialista, alguns
fatores que contribuem para a subestimação do problema
são as suposições errôneas de que a má
conduta científica é uma prática rara, que é
mais comum em áreas altamente competitivas como a de Ciências
Biomédicas e de que a ciência é uma atividade autorregulada.
“Há enorme confiança na ciência
como uma atividade com controles internos rigorosos que dificulta
estabelecer um consenso de que ela deva ser mais vigiada”, afirmou.
“É preciso que as universidades, instituições
e agências de fomento à pesquisa dos países que
fazem ciência se engajem em educar e promover a integridade
científica entre seus pesquisadores.”
Papel das instituições
Na avaliação de Steneck, a comunidade científica
brasileira tem reconhecido o problema e formulado políticas e
ações para coibir práticas de má conduta
científica e aprimorar a integridade na pesquisa.
É necessário, no entanto, que as universidades e instituições
de pesquisa proporcionem o melhor treinamento possível em integridade
científica a alunos, professores e pesquisadores, indicou o especialista.
“É preciso que as universidades e instituições
de pesquisa, que têm muitos departamentos e laboratórios,
observem se seus pesquisadores estão sendo treinados de forma
eficaz em integridade científica”, afirmou.
Uma das formas indicadas de realizar esse tipo de treinamento,
segundo Steneck, é por meio da criação de um órgão
interno destinado exclusivamente a essa finalidade, como proposto pela
FAPESP em seu Código
de Boas Práticas Científicas.
Publicado em 2011, o código da Fundação estabelece
que as universidades e instituições de pesquisa no Estado
de São Paulo tenham um órgão interno especificamente
destinado a promover a integridade na pesquisa, por meio de programas
de treinamento e atividades educativas, além de responder a eventuais
denúncias de má conduta científica de forma justa
e rigorosa.
“As universidades e instituições
de pesquisa no Estado de São Paulo apoiadas pela FAPESP devem
definir políticas e procedimentos claros para lidar com a questão
da integridade científica e ter um ou mais departamento ou
órgão interno voltado a promover as boas práticas
científicas por meio de programas regulares e para investigar
e punir os eventuais casos de má conduta”, disse Carlos
Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP,
na abertura do evento.
“Mas a investigação e a punição
de eventuais casos de má conduta não representam o papel
mais importante que deverá ser desempenhado pelos órgãos
de promoção de boas práticas científicas
nas universidades. O principal papel desses órgãos deverá
ser promover uma cultura de integridade científica nas instituições
de forma permanente”, sublinhou.
De acordo com Luiz Henrique Lopes dos Santos,
membro da Coordenação Adjunta de Ciências Humanas
e Sociais, Arquitetura, Economia e Administração da FAPESP,
ainda não há universidade ou instituição
de pesquisa no Estado de São Paulo que tenha criado um órgão
interno voltado à promoção da integridade científica,
como determina o Código de Boas Práticas Científicas
da FAPESP.
“Lançamos o código há
três anos e avaliamos que a resposta das universidades e instituições
de pesquisa em relação às responsabilidades atribuídas
a elas tem sido um pouco lenta”, disse.
“As universidades e instituições de pesquisa no
Estado de São Paulo e no Brasil, de modo geral, ainda não
se organizaram para definir e implementar de maneira sistemática
políticas de promoção de boas práticas
na pesquisa”, afirmou Lopes dos Santos.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi
a primeira instituição no Brasil a criar, há um
ano, uma comissão voltada especificamente a promover e tratar
de questões relacionadas à integridade da pesquisa.
Denominada Câmara Técnica de Ética em Pesquisa (CTEP),
o órgão conta com uma comissão formada por cerca
de 30 integrantes, entre professores, funcionários técnicos
e estudantes da universidade.
“O objetivo da câmara é abordar
questões éticas e relacionadas à integridade
acadêmica de uma forma ampla, envolvendo diferentes unidades
e departamentos da universidade, que apresentam demandas específicas”,
disse Sonia Vasconcelos, vice-coordenadora da CTEP.
“Estamos tentando identificar alguns consensos e abordar os
conflitos relacionados à integridade em pesquisa de forma a
refletir positivamente na formação dos alunos, no trabalho
dos professores e nas pesquisas desenvolvidas na universidade”,
afirmou.
____________________________________
Código de Práticas Científicas
| III BRISPE
Entrevista com Luiz Henrique Lopes dos Santos (FAPESP)
e Sonia Vasconcelos (UFRJ), no III BRISPE - Práticas Institucionais
para a Promoção da Integridade Científica e a
Conduta Responsável em Pesquisa.