Notícias: Entrevista - Edgar Morin: é preciso
educar os educadores
21/08/2014
"Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à
sociedade,
mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo."
- Edgar Morin
por O Globo
Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês,
retorna ao Brasil para conferência magna no evento Educação
360, que acontece no Rio de Janeiro, nos dias 05 e 06 de setembro,
e conta com outros convidados como Pierre
Lévy e Shukla Bose. Em entrevista ao O Globo, Morin
critica o modelo ocidental de ensino e diz que o professor tem uma missão
social, por isso, segundo ele, “é preciso educar os educadores”.
O antropólogo, sociólogo e filósofo
Edgar Morin fará uma das quatro conferências magnas do
encontro internacional Educação 360, promovido por O
GLOBO e "Extra" em parceria com Sesc e da Prefeitura
do Rio, com apoio do Canal Futura. O evento acontece dias 5 e 6 de setembro,
na Escola Sesc do Ensino Médio, em Jacarepaguá.
Nesta entrevista, Morin critica o modelo ocidental de
ensino e diz que o professor tem uma missão social, por isso,
segundo ele, “é preciso educar os educadores”.
O Globo: Na sua opinião, como
seria o modelo ideal de educação?
Edgar Morin: A figura do professor é determinante
para a consolidação de um modelo “ideal” de
educação. Através da Internet, os alunos podem
ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um
professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença
de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo
desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo,
quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai
buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os
erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado.
É preciso desenvolver o senso crítico
dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação,
já que a criança não aprende apenas com os amigos,
a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário
criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da
curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo,
não pode ignorar a curiosidade das crianças.
O Globo: Quais são os maiores problemas do modelo
de ensino atual?
Edgar Morin: O modelo de ensino que foi instituído nos
países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos
artificialmente através das disciplinas. E não é
o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar
que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não
ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido
pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento complexo
evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe
mal a sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa
fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o
erro e a ilusão.
O Globo: O senhor pode explicar melhor esse conceito
de conhecimento?
Edgar Morin: Vamos pensar em um conhecimento mais simples,
a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão
comigo, essa visão é uma percepção da realidade,
que é uma tradução de todos os estímulos
que chegam à nossa retina. Por que essa visão é
uma fotografia? As pessoas que estão longe são pequenas,
e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma
a reconhecermos essa alteração da realidade, já
que todas as pessoas apresentam um tamanho similar.
Todo conhecimento é uma tradução, que é
seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem
o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado
pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da humanidade
é que todos nós somos idênticos e diferentes, e
precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis.
A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias
que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser
um indivíduo adaptado à sociedade, mas ele também
precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.
O Globo: O que é a transdisciplinaridade, que
defende a unidade do conhecimento?
Edgar Morin: As disciplinas fechadas impedem a compreensão
dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião,
é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão
de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro “O
homem e a morte” é tipicamente transdisciplinar,
pois busco entender as diferentes reações humanas diante
da morte através dos conhecimentos da pré-história,
da psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por
todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de
áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.
O Globo: Como a associação entre a
razão e a afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?
Edgar Morin: É preciso estabelecer um jogo dialético
entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão
pura não existe. Um matemático precisa ter paixão
pela matemática. Não podemos abandonar a razão,
o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista,
muitas vezes, só trabalha através do cálculo, que
é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar
em consideração as emoções dos seres humanos,
um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica
em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo
atualmente.
O Globo: A literatura e as artes deveriam ocupar mais
espaço no currículo das escolas? Por quê?
Edgar Morin: Para se conhecer o ser humano, é
preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências
sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também
são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo
na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem
conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições
humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer
e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte,
como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento
vital, que é a emoção estética, que nos
possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura
e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como
conhecimento secundário.
O Globo: Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro
de ensino?
Edgar Morin: O Brasil é um país extremamente
aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas, a revolução
do seu sistema educacional vai passar pela reforma na formação
dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores
precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de
conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu.
O professor possui uma missão social, e tanto a opinião
pública como o cidadão precisam ter a consciência
dessa missão. [
Leia esta entrevista no site do O Globo - clique aqui]
Edgar Morin - Os limites do conhecimento
na globalização |
No vídeo, Morin reflete sobre seus interesses
enquanto filósofo e sociólogo: os limites do conhecimento
e da razão, bem como a relação entre a poesia e
a racionalidade. Ainda, questiona a possibilidade da mudança
de pensamento em um mundo globalizado e acelerado.
É possível sairmos de uma visão
fechada em formas particulares para o pensamento complexo, capaz de
ver os problemas em sua integralidade?
Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, reflete
sobre seus interesses enquanto filósofo e sociólogo:
os limites do conhecimento e da razão, bem como a relação
entre a poesia e a racionalidade. Ainda, questiona a possibilidade
da mudança de pensamento em um mundo globalizado e acelerado.
É possível sairmos de uma visão fechada em formas
particulares para o pensamento complexo, capaz de ver os problemas
em sua integralidade?