17/08/2014
DEPRESSÃO: DOENÇA QUE PRECISA DE TRATAMENTO
Ricardo Moreno é médico psiquiatra e professor
do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.
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Depressão não é
tristeza. É uma doença que precisa de tratamento. Cerca
de 18% das pessoas vão apresentar depressão em algum período
da vida. Quando o quadro se instala, se não for tratado convenientemente,
costuma levar vários meses para desaparecer. Depressão
é também uma doença recorrente. Quem já
teve um episódio na vida, apresenta cerca de 50% de possibilidades
de manifestar outro; quem teve dois, 70% e, no caso de três quadros
bem caracterizados, esse número pode chegar a 90%. A depressão
é uma patologia que atinge os mediadores bioquímicos envolvidos
na condução dos estímulos através dos neurônios,
que possuem prolongamentos que não se tocam. Entre um e outro,
há um espaço livre chamado sinapse, absolutamente fundamental
para a troca de substâncias químicas, íons e correntes
elétricas. Essas substâncias trocadas na transmissão
do impulso entre os neurônios, os neurotransmissores, vão
modular a passagem do estímulo representado por sinais elétricos.
Na depressão, há um comprometimento dos neurotransmissores
responsáveis pelo funcionamento normal do cérebro.
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DIFERENÇA ENTRE TRISTEZA
E DEPRESSÃO
Drauzio – Vamos começar pela pergunta
clássica: qual a diferença entre tristeza e depressão?
Ricardo Moreno – Tristeza é um fenômeno
normal que faz parte da vida psicológica de todos nós.
Depressão é um estado patológico. Existem diferenças
bem demarcadas entre uma e outra. A tristeza tem duração
limitada, enquanto a depressão costuma afetar a pessoa por mais
de 15 dias. Podemos estar tristes porque alguma coisa negativa aconteceu
em nossas vidas, mas isso não nos impede de reagir com alegria
se algum estímulo agradável surgir. Além disso,
a depressão provoca sintomas como desânimo e falta de interesse
por qualquer atividade. É um transtorno que pode vir acompanhado
ou não do sentimento de tristeza e prejudica o funcionamento
psicológico, social e de trabalho.
SINTOMATOLOGIA DA DEPRESSÃO
Drauzio – Muitas pessoas portadoras de depressão não
reconhecem os sintomas da doença. Que dicas dar aos familiares
para ajudá-los a identificar o comportamento de um deprimido?
Ricardo Moreno – Em geral, o indivíduo com depressão
reconhece que está sendo afetado por algo novo, diferente das
outras experiências de tristeza que teve na vida. A família
pode identificar o comportamento do deprimido pela mudança de
atitudes, porque ele deixa de ser o que era, deixa de sentir alegria,
apresenta queda de desempenho e passa a agir de forma diferente da habitual.
Drauzio – Exatamente por estarem deprimidos, a maioria leva bastante
tempo para procurar ajuda, não é?
Ricardo Moreno – Infelizmente, isso acontece. Muitas vezes, os
indivíduos custam a identificar como anormal o que estão
sentindo. É comum atribuírem a depressão a um mau
momento da vida ou a relacionam com um obstáculo que poderá
ser transposto sem dar-se conta de que foram acometidos por uma doença
que tem tratamento capaz de melhorar sua qualidade de vida.
Drauzio - Quais são os sintomas mais característicos
de um quadro depressivo?
Ricardo Moreno – São muitos os sintomas da depressão.
Talvez o mais evidente seja o humor depressivo, que se caracteriza por
tristeza e melancolia, acompanhado por falta de ânimo e de disposição,
incapacidade de sentir prazer em atividades habitualmente agradáveis,
alterações do sono e do apetite, pensamentos negativos,
desesperança, desamparo.
Drauzio – Um de meus pacientes dizia que apesar de estar tudo
bem na vida, não conseguia olhar para nenhum lado sem ver os
aspectos negativos e que esses assumiam importância muito maior
do que os positivos.
Ricardo Moreno - De fato, essa doença provoca uma distorção
na visão de mundo e de si mesmo. Lembro-me bem de um paciente
que dizia existir uma nuvem cinzenta a seu redor que o impedia de olhar
o espectro das cores. Achei uma definição interessante
que bem traduz o sentimento depressivo.
COMPORTAMENTO FAMILIAR PARADOXAL
Drauzio – Existe uma contradição que se estabelece
nesses quadros. A família vê a pessoa nesse estado e quer
que reaja, mas ela não consegue e os familiares se voltam contra
o deprimido. Isso é regra?
Ricardo Moreno – Essa é uma armadilha em que caem as famílias
e o deprimido porque, esgotadas todas as tentativas para estimulá-lo,
surge a raiva: “Ele não reage; eu tento, mas ele não
quer melhorar”. Tal comportamento reforça a desesperança
e a baixa autoestima próprias do indivíduo com depressão.
Por isso, é importante esclarecer familiares e paciente que essa
incapacidade de reação é uma das características
da doença e ajuda a diferenciar o estado patológico do
normal. Quando estamos tristes, somos capazes de reagir aos estímulos
de prazer. O deprimido dificilmente o consegue. A depressão tira-lhe
as forças. Ele não tem como lutar contra ela.
DOENÇA PREVALENTE NAS MULHERES
Drauzio – Por que as mulheres têm mais depressão
do que os homens?
Ricardo Moreno – O sexo feminino passa por vários processos
hormonais durante a vida: o início dos ciclos menstruais, a gravidez,
o parto e, por último, a menopausa. Tudo isso implica alterações
na produção dos hormônios sexuais femininos e torna
a mulher mais vulnerável. Tanto é assim que no período
da gravidez, do parto e da perimenopausa, a depressão ocorre
com maior frequência. Após a menopausa, a relação
da incidência entre homem e mulher tende a igualar-se, pois nessa
fase cessam essas flutuações hormonais femininas.
DEPRESSÃO PÓS-PARTO
Drauzio – Fale um pouco da depressão ligada ao parto,
especialmente desses quadros graves que se estabelecem no pós-parto
quando mulheres chegam a matar seus próprios filhos?
Ricardo Moreno – Existem duas posições no pós-parto.
A primeira é um estado leve de melancolia que dura de cinco a
sete dias e não traz grandes consequências nem para as
mães nem para as crianças. A outra é a depressão
pós-parto propriamente dita, um manifestação mais
grave, porque compromete a mulher e sua visão de mundo e favorece
o risco de um infanticídio. É um caso tão sério
que o código penal não o reconhece como crime, pois considera
que a mulher perdeu a crítica e o ajuizamento da realidade.
DEPRESSÃO NA MENOPAUSA
Drauzio – Na passagem da menopausa, muitas mulheres se queixam
de que de repente caem numa tristeza incontrolável e apresentam
forte labilidade emocional. Por que isso acontece?
Ricardo Moreno – A menopausa também é um período
de risco de depressão para as mulheres. É um fenômeno
relacionado com a perda da capacidade reprodutiva e com as mudanças
hormonais do sexo feminino.
DEPRESSÃO NOS HOMENS
Drauzio - Em que faixa etária os homens estão mais predispostos
a sentir depressão?
Ricardo Moreno – Nos homens, a depressão é mais
frequente nos adultos jovens, isto é, no final da adolescência
e início da vida adulta. Pode-se dizer que o pico da incidência
da doença ocorre dos 18 aos 30, 40 anos, justamente na fase mais
produtiva do indivíduo.
DEPRESSÃO NA VELHICE
Drauzio – E na velhice, também ocorrem casos de depressão?
Ricardo Moreno – A depressão pode ocorrer em qualquer
ciclo da vida: na infância, adolescência, na vida adulta
e na velhice. A infância é a fase de diagnóstico
mais difícil. Muitos casos passam despercebidos, pois os sintomas
são atribuídos a características de personalidade
da criança. Na velhice, acontece algo semelhante. Muitas vezes,
atribui-se a queda de energia e disposição ao peso da
idade. “Ele está velho, já fez o que tinha de fazer”
é a explicação que se dá, ignorando os sintomas
da depressão e a possibilidade de mudar sensivelmente a condição
de vida do velho porque existe tratamento para essa doença.
MUDANÇAS NO PARADIGMA DO TRATAMENTO
Drauzio – No passado, depressão era tratada com aconselhamento
e psicoterapia. Hoje, depressão é tratada mais agressivamente.
O que mudou no conhecimento da fisiologia da depressão que permitiu
essa transformação no tratamento?
Ricardo Moreno – No cérebro existem células nervosas,
os neurônios, e substâncias químicas que estabelecem
a comunicação entre elas, os neurotransmissores. Em condições
normais, a quantidade dessas substâncias é suficiente,
mas ela cai consideravelmente durante a crise de depressão. Os
medicamentos antidepressivos aumentam a oferta de neurotransmissores
e promovem a volta ao estado normal do paciente. O tratamento da depressão
mudou muito com a descoberta desses medicamentos que provocam algumas
modificações químicas no cérebro pela oferta
de substâncias mediadoras que estabelecem a comunicação
entre uma célula nervosa e outra durante o processo de transmissão
dos sinais. No deprimido, os níveis dos neurotransmissores são
baixos. Os antidepressivos bloqueiam o mecanismo de recaptura (impedem
que os neurotransmissores retornem à célula de origem)
o que aumenta a quantidade dessas substâncias nesse espaço
virtual entre os neurônios.



Drauzio – Na verdade, a depressão reflete
uma alteração bioquímica do cérebro.
RicardoMoreno – Os estados depressivos são provocados
por uma disfunção na bioquímica do cérebro
o que acarreta manifestações psicológicas e comportamentais.
Drauzio – O tratamento visa à modulação
mais harmônica dessa bioquímica cerebral?
Ricardo Moreno – O tratamento visa a regular essa disfunção
e existem medicamentos bastante eficazes nesse aspecto. Costumo dizer
que, nos últimos 40 anos, eles apresentaram uma evolução
importante porque, apesar das desvantagens dos efeitos colaterais, promovem
uma melhora significativa nos pacientes. Na relação custo-benefício,
a decisão tende sempre para o tratamento uma vez que restabelece
a qualidade de vida e diminui o risco de morte por suicídio ou
outras doenças.
EFEITOS COLATERAIS
Drauzio – Quais os principais efeitos colaterais desses medicamento?
Ricardo Moreno – Existem vários grupos de antidepressivos.
Alguns provocam boca seca, intestino preso; outros, tremor. Os mais
recentes, os chamados antidepressivos de nova geração,
podem ocasionar ansiedade, tremores, inquietação, náuseas
e, às vezes, vômitos. No entanto, isso acontece com pequena
parcela das pessoas que tomam essa medicação, talvez 20%
ou 30% delas.
Drauzio – No tratamento da depressão existe um complicador
importante. Em geral, leva algum tempo para que o doente sinta os benefícios
da medicação, mas os efeitos colaterais desagradáveis
são piores no começo.
Ricardo Moreno – De fato, o medicamento leva de 10 a 15 dias
para começar a ter boa ação antidepressiva. Em
compensação, os efeitos colaterais são imediatos.
Isso dificulta bastante a adesão ao tratamento e faz com que
o paciente tenda a abandoná-lo precocemente.
ESTRATÉGIAS DE CONVENCIMENTO
Drauzio – Que estratégia você usa para explicar
isso aos pacientes?
Ricardo Moreno – Tento ser o mais claro possível para
convencê-los de que vale a pena suportar o desconforto inicial
se considerados os riscos e o sofrimento que a depressão traz.
Mostro-lhes que a primeira escolha de antidepressivos funciona bem em
aproximadamente 70% dos casos. Nos outros, será necessário
trocar de medicamento ou combinar formas diferentes de tratamento.
DURAÇÃO DO TRATAMENTO
Drauzio – Depressão é uma doença crônica.
Em muitos casos há períodos em que a pessoa passa bem
e depois volta a ficar deprimida. Isso implica tratamentos muito longos?
Ricardo Moreno – Sabemos que a doença tende a ser recorrente
em mais ou menos metade dos pacientes. Quem já teve um quadro
de depressão tem 50% de possibilidade de ter outro. Para quem
já teve dois episódios, o risco aumenta para 70% e, para
quem teve três, sobe para mais de 90%. Portanto, alguns pacientes
precisarão tomar medicamentos durante anos e outros, pela vida
toda com o intuito de prevenir a recorrência. Para esses pacientes,
o acompanhamento psicológico e uma boa relação
médico-paciente são fundamentais para a adesão
e sucesso do tratamento.
Drauzio – Como convencer os pacientes de que precisam tomar os
remédios a vida inteira?
Ricardo Moreno – É preciso explicar que a retirada do
medicamento nunca deve ser feita de forma abrupta, porque no processo
de diminuição gradativa da dose os sintomas podem voltar.
Isso convence o paciente da necessidade de manter o tratamento por um
período mais longo ou até pela vida toda.
Fonte:
http://drauziovarella.com.br/audios-videos/estacao-medicina/depressao-doenca-que-precida-de-tratamento/
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