06/07/2014
O pesquisador Vital Cruvinel publicou
em seu blog (link)
um artigo escrito pelo editor da Revista Espírita Pierre-Gaëtan
Leymarie em resposta ao artigo do pesquisador russo
Alexander Aksakof, publicado dois meses antes no mesmo
periódico britânico "The Spiritualist".
O artigo do Aksakof apresenta duras críticas a obra e a pessoa
de Kardec - link para o artigo de Aksakof
-> http://decodificando-livro-espiritos.blogspot.com.br/2010/03/uma-controversia-em-detalhes.html
Neste link - Uma
controvérsia em detalhes - Vital detalha e contextualiza
as fontes de sua pesquisa e da controvérsia.
_________
Na época desta publicação, o pesquisador russo
Alexandre Aksakof tinha 43 anos e já estava
consagrado como um especialista em fenômenos psíquicos
tendo traduzido obras de Emmanuel Swedenborg e Andrew Jackson Davis.
Era respeitado por sua posição de conselheiro imperial
russo. Estava há pouco mais de um ano como editor do periódico
alemão Psychische Studien. Mas, somente mais tarde,
18 anos depois, ele viria a publicar a sua mais famosa obra Animismo
e Espiritismo.
Nesta época Leymarie
estava foragido na Bélgica para evitar sua prisão por
conta do Processo dos Espíritas no qual ele foi condenado por
cumplicidade na fraude de fotos de espíritos obtidas pelo fotógrafo
Buguet e pelo médium Firman.
O periódico
O artigo foi publicado no influente semanário britânico
"The Spiritualist (ou The Spiritualist Newspaper)"
que permaneceu em circulação de 1869 a 1881. Era editado
por W. H. Harrison e fazia parte da British National Association of
Spiritualists que mais tarde se tornou a Society
for Psychical Research.
A tradução
do Livro
O Livro dos Espíritos
tinha acabado de ser publicado na língua inglesa com tradução
da Anna Blackwell,
amiga do casal Rivail. Até então esta obra já tinha
sido traduzida a mais de uma década para o alemão e para
o espanhol. E o opúsculo O Espiritismo em sua Expressão
mais Simples em alemão, polonês, português,
grego, italiano, e espanhol, mas menos em inglês.
Anna Blackwell também
respondeu a Aksakof: veja neste link:
http://decodificando-livro-espiritos.blogspot.com.br/2010/04/uma-controversia-com-anna-blackwell.html
_______________
O professor Jáder Sampaio apontou muito bem ao comentar a publicação
de Vital:
"As acusações de
Aksakof fizeram parte da história do espiritualismo moderno,
mas a defesa de Leymarie foi esquecida ou ficou desconhecida."
- comentário retirado do blog de
Vital, na página onde está publicada a resposta de Leymarie
________________
O artigo original de Leymarie
em resposta a Aksakof foi reproduzido na publicação
eletrônica de março de 2009 da PsyPioneer
(link).
Vejamos a tradução do artigo
para a língua portuguesa, conforme publicada no blog:
- Editor da "Revista Espírita" sobre Allan Kardec -
Excelentíssimo senhor,
tendo folheado recentemente alguns dos principais periódicos
espiritualistas de sua cidade, eu fiquei extremamente surpreso ao descobrir
que, nesta crise, quando todos nós (Espíritas ou Espiritualistas)
deveríamos estar unidos, a fim de resistir e repelir os ataques
de nosso inimigo comum, o espírito do mal está disseminado;
e isto quando se está perfeitamente consciente da influência
irresistível e perniciosa exercida neste país por uma
determinada parte do clero, quando você mesmo, tratando do tema
do processo, falou do senhor Leymarie e senhor Firman como sendo as
vítimas desta parte que, nesta crise, eu repito, você abre
as colunas de seu influente jornal para todos aqueles que procuram depreciar
a memória de Allan Kardec por calúnias mesquinhas e insinuações
desprezíveis, sabendo, como você provavelmente sabe, de
que fonte elas vêm. Para mim é muito doloroso ver tais
alegações errôneas divulgadas pelos impressos públicos,
e permita-me, senhor, assim espero, defender a honra da memória
de um homem dos mais honrados e injuriados.
Um sentimento de respeito e veneração aos que partiram,
e especialmente àqueles cujas vidas foram consagradas à
realização de tudo que é bom e grandioso, sempre
foi reconhecido como inerente à nação inglesa,
e assim ela pode se orgulhar de tal nobre sentimento. Na França,
é costume atacar a reputação de todo homem célebre,
cujos serviços não forem oferecidos à Igreja como
manda a lei vigente. Ridicularizá-lo, torná-lo desprezível,
manchar o seu bom nome, nada é poupado para esse efeito, nem
a utilização de linguagem vil, nem os repetidos e simultâneos
ataques destes dois grandes órgãos de fanatismo e Jesuitismo,
o Univers e o Figaro.
Os senhores Dirckinck Holmfeld e Aksakof estão pelo menos familiarizados
com Allan Kardec? Não, no mínimo. Eles simplesmente repetem
as calúnias que nunca deveriam ter escutado. É fato bem
aceito que um homem de talento, o senhor Piérart [1],
e outros, cujos nomes seria inútil mencionar, se dão o
trabalho de circular estas falsidades, que, naturalmente, impressionam
os estrangeiros em Paris, que tomam muito pouco cuidado em descobrir
a verdade, e se limitam a repetir o que foi comunicado a eles. Não
temos a honra de conhecer pessoalmente o senhor Piérart, mas
não sairíamos mundo afora dizendo qualquer inverdade,
ainda que, estivéssemos em campanha contra ele, mas nem a centésima
parte das calúnias inventadas por ele contra Allan Kardec, tanto
durante sua vida como após ter sido remetido ao túmulo,
que era incapaz de se ressentir de uma injúria, e cuja vingança
consistia apenas em dizer todo o bem que ele poderia encontrar no seu
mais implacável inimigo!
Ser contrário a certos estudos ou a certas doutrinas, é
perfeitamente compreensível e natural. Diferentes homens terão,
necessariamente, que buscar a solução de muitos problemas
diferentes, e cada um deles buscando a verdade (ou o que ele considera
como tal) vai inevitavelmente aumentar a importância desse assunto
que é mais freqüentemente chamado a investigar: a harmonia
é o resultado da variedade, tanto no mundo físico quanto
no espiritual. Esse sistema filosófico do senhor Dirckinck Holmfeld
deve ser incompreensível para aqueles cuja apreciação
ele está a espera, como deve ser incompreensível para
nós, o que isso significa? Será que prova alguma coisa
contra uma reputação científica e literária
altamente valorizada na Dinamarca? porque ele não pode explicar
facilmente suas teorias na língua francesa, deveríamos
condenar a priori? Seria absurdo, e ele certamente possui o
direito de formular suas idéias e dar-lhes publicidade (ele deve
encontrar leitores); ele também não deve reivindicar o
direito de pegar pedaços estranhos e trechos de escândalo,
e tê-los inseridos nos jornais ingleses?
Que o senhor Piérart possa escrever livros, e influenciar a mente
de muitos por uma vigorosa argumentação, concisa e lógica,
é seu dever e seu direito. Nós podemos examinar suas obras
com satisfação infinita para nós mesmos, mas, certamente,
sem cuidar de saber o que era ou o que ele fez dez ou vinte anos atrás.
Temos de lidar apenas com as suas idéias, e nunca se
enveredando em bisbilhotar a vida privada ou ações de
qualquer homem.
Que o senhor Aksakof, um eminente membro da sociedade, como é
dito, e um pioneiro da nossa causa, possa recolher os materiais necessários
para a propagação da verdade; que ele possa acabar com
os velhos hábitos e com os desgastantes preconceitos científicos,
diremos: bravo, senhor Aksakof! Estaremos entre os primeiros a aplaudir
e agradecer-lhe; nós te honramos pelo que você tem feito,
pelo o que há de fazer, mas não podemos nos rebaixar investigando
a sua vida passada.
Estes senhores têm se unido com o propósito de atacar não
só o fundador do Espiritismo, mas também a doutrina da
reencarnação, e sua antipatia a ela, certamente os levou
longe demais. Permitam-me dar-lhes uma breve e resumida exposição
da biografia de Allan Kardec.
Allan Kardec (Léon Hyppolite Denizard Rivail), de uma antiga
família, com tradição na magistratura e na advocacia,
foi um dos mais eminentes discípulos de Pestalozzi, em Yverdon,
na Suíça. Pestalozzi, o grande pensador, o profundo filósofo,
o homem da ciência e do progresso, que exerceu uma influência
tão grande sobre a reforma da educação na França
e na Alemanha; Allan Kardec se tornou um de seus alunos mais ilustres
e, posteriormente, seu colaborador. Italiano, Inglês e Alemão,
ele escrevia e falava perfeitamente; ele era um bom estudante de Latim,
e traduziu várias obras para a língua alemã, e
dentre elas, as de Fénelon; Membro da Academia de Arras em 1831
ele recebeu a medalha de honra pela sua dissertação "Qual
sistema de estudos é mais adequado para o desenvolvimento social
e intelectual de nossa época?"
Em um estabelecimento de ensino, fundado por ele na Rue de Sèvres,
em Paris, ele ensinou, durante cinco anos (1835-1840), química,
física, anatomia e astronomia. Ele também deu palestras
gratuitas durante o mesmo período, ele foi o inventor de um método
engenhoso de aprender a contar, e também de um quadro mnemônico
para fixar na memória as datas de fatos históricos e descobertas
notáveis, ele também era membro de diversas sociedades
científicas.
O senhor Rivail era um homem de mérito próprio; era muito
íntimo de Alvarez Levi, e elaborou conjuntamente com ele as palestras
que foram assistidas pelos jovens aristocratas e estudiosos de Paris.
Do senhor Rivail nós devemos: 1 "Um Plano proposto para
a Melhoria da Instrução Pública" (1828), 2
"Curso Teórico e Prático de Aritmética"
(1839), 3 "Gramática Francesa Clássica" (1831),
4 "Manual dos exames para diplomas de capacidade, e soluções
de questões e problemas de aritmética e geometria"
(1846), 5 "Catecismo Gramatical da Língua Francesa"
(1848), 6 "Programação dos cursos normais de Química,
Física, Astronomia, Fisiologia" (da qual foi professor no
Liceu Polymathic), 7 " Exercícios para os exames, no Hotel
de Ville e da Sorbonne, com Ditados sobre Dificuldades Ortográficas"
(1849). Estas várias obras, ainda muito prezadas, estiveram em
alta conta no momento de sua primeira publicação. Em 1868,
o senhor Rivail teve novas edições de sua publicação,
e seu nome era bem conhecido e merecidamente, não entre os escritores
sensacionalistas, ou participantes da literatura simples, mas para os
homens de letras e homens de bom senso, que gostariam de ver o conhecimento
útil difundido por toda a parte.
A senhora Amelia Boudet, de uma família rica e respeitável,
trouxe um dote de 80.000 francos ao marido, senhor Rivail. Com a morte
deste, o montante de 80.000 francos não paga o imposto sobre
herança (droits de succession). É extremamente
fácil de verificar o fato. Após seu casamento, senhor
e senhora Rivail emprestaram grandes somas aos amigos, que, em conseqüência
de falhas e outras circunstâncias imprevistas, nunca os reembolsaram.
Um deles, o gerente de um teatro (Les Folies dramatiques),
recebeu 50.000 francos, o resto de sua fortuna, e quando este montante
estava em perigo, o senhor Rivail foi obrigado a superintender os assuntos
pecuniários do teatro, a fim de se salvar do último naufrágio
de sua fortuna. A partir desta circunstância muito natural seus
inimigos querem nos fazer crer que ele tinha sido um vendedor de entradas
de teatro. O nome do gerente, guardaremos em segredo, de acordo com
os últimos desejos de Allan Kardec, que o perdoou no seu leito
de morte. Após a perda total de sua fortuna, a senhora Rivail
criou uma escola para jovens moças; o marido se tornou contador
de diversos estabelecimentos de grande porte, e, entre outros, para
o escritório do jornal Univers. Manteve, assim, honrado
com o produto de seu suado salário em várias casas diferentes.
Que infelicidade é esta de trabalhar para esta função?
E foi ele um colaborador do Univers porque se debruçou
sobre livros contábeis duas horas por dia? Pode um único
artigo ser produzido como prova de que ele seja o contrário do
que era, um amante da liberdade, do progresso e da justiça; um
inimigo do fanatismo e da superstição em todas as suas
formas? Como ele foi enterrado? "Mas, caluniam, caluniam",
diz Basílio, "algo que sempre virá do mesmo".
A senhora Allan Kardec, já possuidora de uma pequena propriedade,
em que ela vive, e que veio a ela como herança de família,
mas tem uma pequena renda de menos de duas centenas por ano, não
obstante os incansáveis trabalhos ao longo da vida de seu falecido
marido. Desde 1840 o senhor Rivail era sempre um membro do júri
e era eleito presidente na maioria das vezes. Agora, é perfeitamente
sabido que, para ser um jurado deve-se estar na posse de seus direitos
civis e políticos, nunca ter sido objeto de qualquer sanção,
condenação, etc. O leitor inglês tem muito bom senso
para não concordar com que o Barão Dirckinck Holmfeld
impôs sobre à credulidade do verdadeiramente estimável
senhor William Howitt, quando ele lhe pediu para publicar afirmações
tão equivocadas na Spiritual Magazine.
Ah, senhor Aksakof! você tem muitas responsabilidades. Como o
senhor Dirckinck Holmfeld, você dá ouvidos aos caluniadores,
e ainda assim nós temos uma causa em comum. Você deveria
ter usado sua influência para promulgar a doutrina do amor fraterno,
mas ao invés disto tenta nos desunir. O princípio da reencarnação
não é do seu gosto; ora, refute-o calmamente, desapaixonadamente,
filosoficamente, sem recorrer a meios tão mesquinhos como calúnias
e sarcasmo. Homens de grande erudição e talento acreditam
nela, e não vão mudar sua maneira de pensar a menos que
você lhes dê razões plausíveis para tal. Nossos
adversários parecem ter lido Allan Kardec, de forma muito superficial,
e sua opinião quanto à elaboração do Livro
dos Espíritos é totalmente equivocada.
O senhor Rivail começou a estudar o magnetismo animal, em 1830,
e continuou as suas investigações com esse espírito
de imparcialidade e solidez de julgamento que seus contraditores parecem
desejar. Em 1850 ele já havia analisado uma quantidade de documentos,
e fez muitas observações interessantes sobre o assunto;
durante vinte anos ele estudou os fenômenos do magnetismo de todas
as formas; durante vinte anos, você entendeu!
A senhorita Japhet, as madames Roger, Bodin, muitas sonâmbulas
e médiuns, como a senhorita Huet, senhorita Dufaux [2],
senhora Robyno, e centenas de outros foram e ainda são, bem adaptados
aos temas de estudo para um magnetizador inteligente; cada um deles
tem suas qualidades especiais e suas imperfeições. Considerados
separadamente e individualmente, o resultado das pesquisas de um magnetizador
não seria, talvez, grande coisa; considerados coletivamente,
e submetidos a entrevistas de um questionador lúcido, sensato,
e capaz, que sabia como separar os bons grãos dos maus, que passou
a trabalhar como somente um experimentador experiente poderia, o diamante
precioso da verdade foi extraído da mina escura, e dado à
luz do dia. Em 1855 [3],
o Livro dos Espíritos foi publicado pela primeira vez, muitos
acréscimos foram posteriormente feitos a ele até o ano
de 1858 [4],
quando ele apareceu em sua forma completa, como nós o temos no
momento: 100.000 cópias dele foram publicados e traduzidos em
todas as línguas. Allan Kardec quis afirmar alguma vez que o
Livro dos Espíritos ou o Livro dos Médiuns
saíram de sua pena? Nunca. Elas são o fruto de seres sobrenaturais
que fizeram uso dos instrumentos considerados mais úteis para
esse fim, para nos transmitir as suas instruções. Eles
escolheram Allan Kardec, porque ele era um homem de bom senso e discernimento,
para presidir as sessões espirituais, exatamente como seus colegas
o escolheram em todas as ocasiões particulares, ou em todas as
matérias de peso, para ser seu presidente ou o seu árbitro.
Allan Kardec não inventou a reencarnação, o princípio
sempre existiu, sempre teve inúmeros e eminentes adeptos, nos
tempos antigos e modernos; não teria ele repetido isto várias
vezes? e como poderia o senhor Aksakof empregar um argumento tão
fútil e tão falso?
Por que deveria o senhor Kardec tomar um maior conhecimento da senhorita
Japhet do que de outros médiuns e sonâmbulos que ele mesmerizou,
e que todos reinvidicam a sua participação na compilação
do Livro dos Espíritos? Todos eles são igualmente
modestos e despretensiosos. O senhor Leymarie, que desde o ano de 1858
tem sido considerado um bom médium escrevente, acharia um absurdo
que ele fosse reivindicar qualquer parte desse trabalho, porque, em
verdade, as comunicações do espírito viriam através
dele. Não! tais ensinamentos pertencem de direito àqueles
de quem eles emanaram, aos nossos irmãos mais velhos na seara
espiritual, e todos nós deveríamos nos considerar muito
felizes por termos sido escolhidos como instrumentos para a melhoria
dos nossos semelhantes.
Quem pensaria em jogar a senhorita Japhet, ou qualquer outro médium,
ao esquecimento? Todos eles foram úteis em seu caminho em um
determinado momento, mas o que acharia da idéia de colocar uma
dúzia de seus nomes no topo de cada parágrafo? Não
seria simplesmente absurda? Lamentamos que o senhor Aksakof tenha feito
uso de argumentos tão pueris; se ele iria derrubar o colossal
monumento cimentado pelo trabalho de um grande e nobre espírito,
que ele escreva um trabalho próprio, aquele que irá iluminar
nossas trevas, e "nos leve de fora da sombra da morte para os portões
da vida", se puder.
Estão igualmente equivocados os que acusam os espíritas
de estarem ligados a certos ritos, dogmas, etc. Não, eles são
homens de mentes livres e independentes, em busca da verdade, os inimigos
de todos os enganos e prestidigitações, cujo tempo é
gasto estudando os fenômenos do Espiritualismo, e não sobrevoando
o mundo, como o senhor Aksakof, para recolher uma porção
de fofocas, e em seguida, recontar-lhes gravemente Urbi et orbi.
Não, eles não fazem uso de práticas absurdas, eles
não têm artigos de fé previstos para eles como uma
lei; eles respeitam as opiniões alheias, mesmo as mais opostas,
e eles honram e sobrelevam os missionários da verdade e da ciência,
homens como Wallace, Varley, William Crookes, e Davis.
Allan Kardec nunca tentou desvalorizar as manifestações
físicas, nem as pesquisas em ciências naturais; ao contrário,
sempre reconheceu a sua utilidade. Suas obras não provam isso?
Mas ele tem toda a razão em nos alertar contra aqueles que procuram
enganar por meio dessas manifestações. Não temos
experimentado ultimamente a necessidade de tal advertência? E
nós vivemos num país onde até mesmo as pesquisas
sobre os fenômenos seriam toleradas? Não temos sido condenados
por apenas falar dos efeitos físicos produzidos por Firman, Williams,
e Buguet? Falemos da América, da Rússia, onde uma comissão
acaba de ser designada a investigar a ciência do Espiritualismo
e, em seguida, vire os olhos para esta terra, do fanatismo e da intolerância,
onde a prisão é certa para aqueles que acreditam firmemente
na possibilidade de contato físico com outra esfera de seres.
Ah, meus amigos, o momento foi bem escolhido para lançar seus
golpes sobre nós; você tem agido terrivelmente na tentativa
de esmagar aqueles que já estavam debilitados. Se você
desejasse obter informações mais amplas você poderia
ter consultado nossa jovem mídia dos dias de hoje, inteligente,
enérgica e livre pensadora; valentes trabalhadores da nova safra;
e, aos nossos olhos, pelo menos, infinitamente superior a muitos de
quem você glorifica, porque não damos uma importância
excessiva aos médiuns como a senhorita Japhet, senhorita Guldenstubbe,
Sardou, Vaillandier, etc. E por que seu jornal em Leipzig sempre se
recusou a inserir a refutação dos artigos publicados nele
contra a reencarnação?
Você fala de Camille Brédif, mas você provavelmente
não está ciente que foi precisamente o senhor Leymarie,
que, em conjunto com o Dr. Houatz, o revelou como médium, e o
introduziu na sociedade russa em Paris. Será que ele se lembra
de uma certa sessão que aconteceu na Rue d'Isly na presença
do senhor Golovine, senhor e senhora Allan Kardec, e senhor e senhora
Leymarie? O senhor Aksakof gentilmente lhe perguntará se ele
deseja que eu publique uma ata dessa reunião? O senhor Golovine
tomou algumas notas na época, e elas ainda estão em seu
poder. Devo mencionar porque o senhor Kardec não poderia escrever
um artigo sobre o referido médium? por que ele não poderia
dizer nada sobre o que ele tinha visto? Será que ele terá
a bondade de responder? Às vezes é bom examinar os dois
lados da questão.
O senhor Rivail de modo nenhum desprezou seu nome de família,
que era muito respeitável, mas na França seria habitual
que os escritores públicos assinassem com um nome falso? Foram
seus amigos e guias espirituais que deram a ele o nome que hoje tem
um prestígio em todo o mundo. Foi igualmente seus guias, que
o orientaram a publicar o Livro dos Espíritos, e o fez
apesar da escassez de seus recursos pecuniários. Ele continuou
seu trabalho até a hora da sua morte, que foi causada por uma
doença do coração (um aneurisma). Os que o conheceram
intimamente podem testemunhar a sua bondade, mansidão e pureza
de vida. Ele viveu muito discretamente, e nunca se recusou a quem pediu
sua ajuda: generoso, simples de espírito, e sincero até
o fim.
E agora, gentis leitores ingleses, vocês que me enviaram tão
amigavelmente para a minha defesa perante o Tribunal de Paris, as testemunhas
e atestados tão numerosos, vamos nos afastar, lhes imploro, de
todos que tenham uma tendência a nos desunir. Vamos caminhar de
mãos dadas, unidos por laços de afeto fraternal, não
vamos dar ouvidos aos lobos em pele de cordeiro. Eu sou um reencarnacionista,
e mesmo assim, eu considero todos vocês como meus irmãos.
Se, na Inglaterra, os amigos espirituais lhes dão instruções
diferentes das que recebemos diariamente na França, é
que no seu mundo, como no nosso, as opiniões variam. Vamos respeitar
as opiniões; vamos pesá-las na balança, mas sem
lhes dar mais importância do que elas merecem.
"Não há efeito sem causa", e quantidade infinita
de almas desencarnadas podem pensar de maneira diferente em relação
a certas questões que para todos os Espiritualistas não
são de fundamental importância, e ainda atuar juntos em
harmonia, pois os pontos principais das suas crenças são
idênticos.
Allan Kardec diz: "O Espiritismo é inteiramente baseado
na existência em nós de um princípio imaterial,
na existência da alma. Aquele que não admitir que existe
um princípio inteligente dentro de si, não pode necessariamente
admitir que há um fora; e, consequentemente, não se admitindo
a causa, ele não pode admitir o efeito." Como vocês,
queridos amigos, nós acreditamos em Deus, o Criador de todas
as coisas, onipotente, soberanamente justo, bom e de perfeição
infinita; acreditamos na Sua providência, na existência
da alma após a sua separação do corpo; nós
também acreditamos na sua individualidade, não considerando-a
como uma hipótese, mas como a consequência necessária
dos atributos divinos. Admitindo a existência da alma, sua sobrevivência
ao invólucro terreno, pensamos que não seria, nem segundo
a justiça, nem segundo a bondade do Todo-Poderoso, que a virtude
e o vício, o bem e o mal, devam ser tratados de semelhante forma
após a morte, quando sabemos que durante a vida, a recompensa
e o castigo raramente são distribuídos com equidade. Então,
se as almas dos ímpios e dos justos não são tratados
de forma igual, alguns devem ser felizes e outros infelizes, ou seja,
eles devem ser punidos ou recompensados de acordo com suas obras.
O que desejo (Espíritas e Espiritualistas) é estimular
a investigação, para excitar a curiosidade por meio de
críticas adversas, e para despertar a atenção dos
indiferentes, rejeitando, como indigno de nós, o uso de linguagem
grosseira e abusiva nos argumentos do superficial e não refinado.
Pedimos aos nossos contraditores que nos provem, não por qualquer
subterfúgio, mas por uma demonstração clara e palpável
- seja matemática, física, química, mecânica
ou fisiológica - que um ser inteligente, capaz do ato de pensar
durante a sua vida, torna-se incapaz de realizar esse mesmo ato depois
de ter deixado sua estrutura corpórea; que a faculdade do pensamento
sendo permitida, ele não pode se comunicar com os amados que
deixou na terra; que, tendo o poder de locomoção, ele
não pode transportar-se em nossa vizinhança; que, estando
ao nosso lado, ele não pode comungar com a gente; que, por meio
do seu envoltório fluídico, ele não pode agir sobre
a matéria inerte; que, dotado de poderes para agir sobre a matéria
inerte, ele não pode influenciar uma mão para escrever;
que, fazendo uma mão escrever, ele não pode responder
às nossas perguntas ou nos transmitir suas idéias.
Allan Kardec diz (obras póstumas, Revista Espírita,
setembro de 1869, página 257[5] a 261).
"O direito de investigação
e de crítica é o que não pode ser proibido: o
Espiritismo não pode pretender ignorá-lo, não
mais do que podemos esperar para dar uma satisfação
universal. Cada um é livre para rejeitar ou aprovar, mas devemos,
pelo menos, ter consciência do que nós rejeitamos, e
do que nós aprovamos. Agora, nossos adversários têm
muito freqüentemente dado provas da sua total ignorância
dos princípios mais elementares da nossa doutrina, se referindo
a sentimentos e a linguagem em oposição direta à
verdade".
Este artigo deveria ser lido
por todos os Espiritualistas, mas somos obrigados a ser breve, e acrescentaremos
apenas algumas linhas da mesma Revista (página 260):
"Na guerra que o Espiritismo
foi forçado a entrar, sempre recebeu o apoio das mentes imparciais
pela sua moderação; nunca foi empregada retaliação
contra seus adversários, nem nunca devolveu uma injúria
com outra."
"O Espiritismo é uma doutrina filosófica, cujas
tendências são essencialmente religiosas, como em qualquer
sistema de filosofia espiritualista; e portanto tem necessariamente
muitos pontos de contato com as bases fundamentais de todas as religiões:
a divindade, a alma humana, a vida futura, etc. Mas, no entanto, não
se pode chamá-la de uma religião, pois não há
nenhum culto, nenhum ritual, nenhum templo, nenhum dogma, nem há
entre os seus adeptos quem se apresente como padres ou sacerdotes,
aqueles pomposos termos que existem apenas na imaginação
dos nossos críticos. É Espírita aquele que se
torna adepto pelos princípios da doutrina, e que se conduz
por ela. Todo homem tem um direito inalienável para seguir
certas opiniões, ou para defender certos modos de crença,
seja optando por ser um discípulo de Voltaire ou Descartes,
ou que suas simpatias religiosas o inclinemigião, pois não
há nenhum culto, nenhum ritual, nenhum templo, nenhum dogma,
nem há entre os seus adeptos quem se apresente como padres
ou sacerdotes, aqueles pomposos termos que existem apenas na imaginação
dos nossos críticos. É Espírita aquele que se
torna adepto pelos princípios da doutrina, e que se conduz
por ela. Todo homem tem um direito inalienável para seguir
certas opiniões, ou para defender certos modos de crença,
seja optando por ser um discípulo de Voltaire ou Descartes,
ou que suas simpatias religiosas o inclinem a ser um judeu, um católico,
um protestante, um fourierista, um Saint Simonista, um deísta,
ou mesmo um materialista. Os Espíritas entendem a liberdade
de consciência como um direito natural, que permitem aos outros
na medida em que reivindicam para si próprios; eles respeitem
as opiniões dos outros, então exigem que a sua seja
respeitada em troca.
"O resultado natural da liberdade de consciência será
o livre direito de investigação em matéria de
fé. O Espiritismo se opõe ao princípio da fé
cega, porque esta impõe a necessidade de abdicar de um juízo
próprio e, conseqüentemente, não pode ter raízes
profundas na mente. Assim, entre as suas máximas, encontramos
a seguinte: - 'Nenhum sistema de crença é construída
sobre bases sólidas, se não se pode encarar as investigações
da razão em todas as épocas da humanidade.'
"Em conformidade com seus princípios, que não impõe
nenhuma restrição, não usa a coerção,
deseja nenhum outro seguidor, a não ser aqueles que vêm
a ele voluntariamente e de um sentimento de pura convicção;
dá a exposição de seus princípios e deixa
os outros livres para adotá-los conforme queiram".
Na página 307 na Revista
de 1869, Allan Kardec diz:
"Para todos os sentimentos
de inveja e ciúme por parte de outras pessoas, nós possuímos
um meio infalível para torná-los inócuos. Vamos
nos esforçar para desenvolver a nossa inteligência, para
melhorar os nossos corações e mentes. Vamos competir
com os outros na prática das boas obras, no exercício
da caridade e do auto-sacrifício. Deixe o lema do "amor
fraterno" ser inscrito em nossa bandeira, e deixe que a busca
da verdade seja o objetivo da nossa existência. Imbuídos
destes sentimentos, podemos desafiar a zombaria dos nossos contraditores
e da má vontade de nossos inimigos. Se nos enganarmos, vamos
reconhecer o nosso erro, e superá-lo: observando estritamente
as leis da caridade e auto-sacrifício, evitando todo sentimento
de inveja e ciúme, temos a certeza de que estamos no caminho
certo. Estes devem ser os nossos princípios, são eles
os laços de unidade, que deverão reunir todos os 'homens
de boa vontade sobre a terra', enquanto o egoísmo e a falsidade
definitivamente os separariam."
Espiritualistas e Espíritas
de todos os países, vamos refletir sobre essas palavras memoráveis.
P. G. LEYMARIE
Rue de Lille, em Paris.
Notas do tradutor:
[1] Na transcrição do original está grafado Pierrard.
[2] Na transcrição está Duffaulz, mas este provavelmente
é um problema de digitalização do documento original.
[3] É possível que tenha havido algum problema na edição
desta data, 1855; como sabemos a primeira edição do Livro
dos Espíritos apareceu apenas em 1857.
[4] Sabe-se que a revisão (e segunda edição) do
Livro dos Espíritos apareceu apenas em 1860; mas, esta questão
é bem controversa.
[5] A numeração desta página e de outras mais a
frente estavam erradas na transcrição do original; aparentemente,
deve ter ocorrido algum problema de digitalização.
Fonte:
http://decodificando-livro-espiritos.blogspot.com.br/2010/05/uma-controversia-com-leymarie.html
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