05/07/2014
Berlim abrigará primeiro templo do
mundo a reunir sinagoga, mesquita e igreja
Como casa das três grandes religiões monoteístas,
proposta da House of One é celebrar diversidade e tolerância.
Cristãos, judeus e islâmicos projetam juntos local para
prece e discussão – com espaço até para ateus.
* reportagem da Deutsche Welle
> por Bettina Kolb
Da esq. para a dir.: pastor Hohberg, rabino Ben
Chorin e imame Sanci
Berlim vai ganhar um templo multirreligioso: a House
of One (Casa de Um Só) – o primeiro edifício sacro
do mundo a reunir, sob o mesmo teto, uma sinagoga, uma mesquita e uma
igreja. Com início das obras programado para os primeiros meses
de 2016, a construção será um teste de tolerância.
Na apresentação do projeto à imprensa, nesta terça-feira
(03/06), o rabino Tovia Ben Chorin ficou lado a lado com o pastor luterano
Gregor Hohberg e o imame Kadir Sanci no futuro canteiro de obras. Num
gesto simbólico, os três empilharam nas mãos três
tijolos claros, o material com que será erguido o futuro templo.
"Cidade das feridas, cidade dos milagres" é
como o rabino Ben Chorin define a capital alemã, local onde foi
planejado o Holocausto, um dos maiores crimes contra a humanidade do
século 20. Os pais do religioso fugiram em 1935 da Alemanha para
a então Palestina, e ele veio de Jerusalém para Berlim
há seis anos.
Público jovem como alvo
Uma união assim seria, sem dúvida, rara
no Oriente Médio ou em países como a Nigéria, onde
conflitos religiosos custam tantas vidas humanas – mas tampouco
é corriqueira na Alemanha, onde ainda se esbarra na rejeição
aos que seguem outras religiões.
Membros de outras religiões também serão convidados
para os diferentes cultos na House of One. Essa demonstração
de abertura visa atrair, sobretudo, os jovens, que raramente são
vistos nas igrejas cristãs. Por sua vez, a comunidade judaica
de Berlim, praticamente exterminada no Holocausto, cresce lentamente.
Apenas os seguidores do Islã veem aumentar a presença
dos jovens fiéis na vida religiosa. Visando esse público,
fora alguns versos em árabe, as preces de sexta-feira serão
basicamente realizadas em alemão. Tal opção não
é comum nas mesquitas, onde geralmente se celebra em turco, árabe
ou bósnio. No meio tempo, fundamentalistas islâmicos mais
linha dura vêm criticando na internet a participação
muçulmana no projeto.
Maquete da futura House of One de Berlim
Renovar sem confundir
O projeto de arquitetura sacra na capital é
iniciativa da Comunidade Judaica de Berlim, do Seminário Abraham
Geiger, do islâmico Fórum de Diálogo Intercultural
e da Congregação Luterana das Igrejas de São Pedro
e Santa Maria. Orçado em 43 milhões de euros, a intenção
é que seja inteiramente financiado por crowdfunding
(patrocínio público). No site da House of One,
em sete idiomas, qualquer pessoa poderá contribuir, comprando
um tijolo.
Seu futuro endereço é a Praça Petriplatz, no centro
histórico da cidade: um terreno baldio na antiga Alemanha Oriental,
usado como estacionamento até algum tempo atrás. Porém,
há 700 anos, cristãos têm celebrado aqui os seus
cultos – primeiro numa igreja gótica, depois numa neobarroca
e, então, numa em estilo neogótico.
Essa última igreja foi seriamente danificada durante a Segunda
Guerra Mundial e demolida durante os anos do regime comunista da República
Democrática Alemã (RDA). O novo templo ecumênico
será erguido exatamente sobre os fundamentos dessa última
casa de oração.
"Nós não queríamos simplesmente
construir uma igreja", explica o pastor Hohberg.
"A cidade se transformou. Gente de todas as confissões
vive aqui e quer um lugar onde possa se congregar."
Por isso, as três religiões monoteístas
vão projetar, construir e habitar juntas a nova casa.
"Mas não estamos à procura de
uma nova religião e não queremos confundir nossas identidades",
acrescenta o imame Sanci.
Por sua vez, o rabino liberal Ben Chorin almeja um
lugar para aprender sobre religião sem missionarismo, para discuti-la
criticamente. Ele lembra que "a fala é mais lenta do que
as armas".

Arquiteto Winfried Kühn apresenta projeto
na Petriplatz
O "Um" da diversidade
Espaços multirreligiosos – ou ecumênicos –
existem em outros lugares, como em aeroportos ou na Organização
das Nações Unidas (ONU). Em Berna, capital da Suíça,
está sendo construído um centro com esse caráter.
Mas a iniciativa berlinense é diferente: trata-se de um edifício
sacro interreligioso.
O escritório de arquitetura Kuehn Malvezzi, de Berlim, foi quem
venceu a concorrência internacional. Seu projeto pretende se destacar
majestosamente na paisagem urbana, com uma torre de 32 metros de altura
pairando sobre um cubo e uma cúpula central.
Cada uma das três religiões vai dispor de dependências
próprias para seu culto, com dois andares – como de praxe
nas mesquitas e sinagogas – ou apenas um – no caso da igreja.
"Nós voltamos bem atrás na história
e constatamos que as formas originais dos locais de culto para cristãos,
judeus e muçulmanos não diferem tanto assim entre si",
revela o arquiteto Winfried Kühn.
Ainda assim, o projeto foi várias vezes adaptado
às necessidades das diferentes religiões. Sinagogas e
mesquitas precisam estar direcionadas para o leste, e a sinagoga precisa
de espaço na parte superior para as cabanas do Sucot, a Festa
dos Tabernáculos.
Graças às frestas de inspiração oriental
na alvenaria, o edifício todo será banhado de luz. O espaço
mais amplo será a nave abobadada central, um local de encontro
e diálogo para fiéis e ateus.
Uma questão, porém, permanece em aberto e sujeita a diálogo:
"Quem é o 'One', o Deus único?".
A resposta do rabino Ben Chorin é bem direta
e singela:
"É alguém que criou a diversidade.
Senão seria muito chato."
Fonte: http://dw.de/p/1CCKx
- ou - http://www.dw.de/berlim-abrigar%C3%A1-primeiro-templo-do-mundo-a-reunir-sinagoga-mesquita-e-igreja/a-17683699?maca=bra-newsletter_br_dw-cult-6223-html-newsletter
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