05/07/2014
Da Banalidade do Mal: Michele Gonçalves
analisa o filme sobre Hanna Arendt e sua perspicaz análise do
"mal perpetrado por sujeitos normais"
Da loucura do mal perpetuado por "ninguéns"
Hanna Arendt - A repercussão da obra que causou fúria
ao ser interpretada como a absolvição filosófica
de um oficial nazista por uma grande pensadora judia alemã.
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por Michele Gonçalves
“Há uma enorme diferença entre
a mediocridade de um homem e sua crueldade”.
A depender do contexto em que se insira tal afirmação,
esta pode ser interpretada como coerente, inofensiva ou até banal.
Porém, se o contexto se tratar de um cenário de guerra
e horror, e se a crueldade em questão tratar-se do Holocausto,
o pensamento por detrás pode sofrer críticas severas e
ter impactos inimagináveis numa sociedade. É o que mostra
o filme Hanna Arendt, da diretora alemã
Margarethe von Trotta, lançado em meados de 2013.
O filme narra um episódio tumultuado
da vida da renomada cientista política Hanna Arendt: o período
no qual acompanhou o julgamento do ex-oficial nazista Adolf
Otto Eichmannn e o momento posterior, no qual escreveu, para
o jornal americano The New Yorker, cinco artigos obre o ocorrido,
totalizando trezentas páginas.
Eichmannn foi tenente-coronel da organização militar Schutzstaffel
(SS) – “Tropa de Proteção”, em português
– ligada ao partido nazista alemão. Ele foi acusado, culpado
e executado pelo tribunal de Nuremberg, em Israel, por ter sido o principal
responsável pela logística de identificação
e transporte, para os campos de concentração, dos judeus
capturados durante o nazismo.
À época da escrita dos artigos, Arendt já era reconhecidamente
uma das grandes pensadoras de seu tempo. De origem judaica, estudou
filosofia com grandes nomes como Martin Heidegger e foi exilada da Alemanha
no início do Terceiro Reich, quando passou a viver na França.
O apoio deste país ao governo alemão durante a guerra,
fez com que fosse exilada num “campo de controle”, do qual
fugiu para os Estados Unidos, onde viveu até sua morte. Desde
muito nova estudou e escreveu sobre política e sobre a condição
do homem em tempos difíceis, como a guerra.
Arendt não se considerava nem pertencente, tampouco aceita ao
círculo filosófico europeu de sua época, como mostra
a entrevista Zur Person , gravada em 1964 pela TV alemã.
A escritora definia com bastante clareza seu lugar no hall dos pensadores
alemães: dizia-se teórica política.
A obra Eichmannn em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade
do mal, que reúne na íntegra os cinco artigos
publicados no The New Yorker e no qual se baseia o filme de
2013, não foi a mais reconhecida de sua carreira, mas com certeza,
a mais polêmica. Originalmente lançada em 1964, apresenta
uma espécie de análise filosófica sobre o julgamento,
na qual é cunhado um dos mais repercutidos conceitos de Arendt:
a banalidade do mal. É propriamente a interpretação
errônea deste pensamento, talvez o cerne dessa obra, que lança
a cientista a um turbilhão crítico-emotivo na sociedade
europeia pós-nazista, principalmente entre os judeus alemães.
O estardalhaço causado pela obra partiu do inconformismo frente
à descrição feita pela teórica sobre Eichmannn
e sobre a banalidade do mal que cometera, segundo ela, um mal comum,
realizado por um sujeito ordinário. A caracterização
de um ex-oficial do Holocausto como um homem absurdamente normal, e
não um monstro atroz e sanguinário, vinda de uma pensadora
judia perseguida durante a guerra, provocou verdadeira histeria nas
comunidades judias e alemãs. Arendt foi acusada de antissionismo,
antissemitismo, deserção.
A banalidade do mal foi o conceito que Arendt criou
para designar o mal por vezes medonho praticado por sujeitos normais
e muitas vezes sociáveis. Para ela, o grande mal não era
aquele causado por psicopatas, posto que estes, a priori, já
se enquadravam nos desvios da sociedade. O que realmente amedrontava
a pensadora era o mal comum, propagado pelas pessoas “de bem”.
O mal banal, banalizado, mesmo na sua total loucura. Foi desse mal que
Arendt tratou na análise do acusado Eichmann.
Como mostra o filme de Von Trotta, o esforço da pensadora alemã
em compreender, acima de julgar o acusado, em tratar seu discurso e
posicionamento perante a corte de Nuremberg de um ponto de vista filosófico,
foi entendido como traição no contexto social no qual
ocorreu a publicação de seus artigos. O genocídio
dos judeus havia se encerrado há vinte anos, mas as marcas dos
horrores dos campos de concentração não se apagariam
da história alemã, e estavam tão sacralizadas na
memória mundial que não se permitia, para esse assunto,
nenhum tipo de questionamento sobre os estatutos do bem e do mal, muito
menos sobre qualquer tipo de inversão a respeito de quem os representava.
Intencionalmente ou não, ingenuamente ou não, aos olhos
da comunidade mundial, foi exatamente o que fez Arendt ao publicar Eichmannn
em Jerusalém.
No livro, além de discutir a banalidade do oficial alemão
e seu “mal praticado”, Arendt faz menções
sobre a parcialidade de alguns líderes judeus mediante o horror
do massacre. O filme demonstra que, para a pensadora, a possível
conivência de certos líderes judeus com o governo nazista,
antes por uma opção dúbia do que por uma obrigação
declarada, contribuiu para que houvesse menos caos e menos miséria
durante o nazismo, porém mais mortes. Não que ela acreditasse
ser provável a resistência desses líderes perante
as ordens do Führer, mas talvez fosse possível algo que
estivesse entre esta e a colaboração.
A interpretação de que a teórica pudesse culpar
chefes judeus pelo Holocausto causou uma comoção internacional
contra os artigos e contra a própria pessoa de Arendt. O filme
mostra acusações extremamente pesadas que ganharam o âmbito
do ataque pessoal e até da ameaça. Ao sugerir a conivência
de judeus no seu próprio massacre, aos olhos da maioria dos críticos
de seu tempo, a pensadora utilizou-se dos mesmos argumentos postos na
corte por Eichmann, dentre eles a declaração aterradora
de que a situação instaurada pelo Holocausto se tratava
de uma questão não apenas da ascensão de um louco
ao poder mas, antes, de um comportamento humano comum, moldado pela
época, pela educação, pela ideologia disseminada
e pelo serviço militar.
Arendt argumentava que o julgamento deveria ser, por justiça,
de um homem por seus atos. Não se julgava um sistema, nem a história,
mas uma pessoa. E, nesse sentido, Eichmann se colocava como um burocrata,
um homem contido num contexto em que as regras morais haviam sido completamente
transfiguradas, no qual era necessário cumprir ordens.
Analisando o discurso do acusado e intrigada por tais declarações,
Hanna Arendt caracterizou-o como um homem insuportavelmente normal,
e não um monstro. E foi partindo dessa massacrante normalidade
que ela teorizou sobre a banalidade do mal, a indiferença dos
males cometidos por homens comuns, sem convicção, sem
razão maligna ou motivo: apenas seres humanos que, dadas certas
circunstâncias, se recusam simplesmente a ser pessoas. Para ela
esse contexto fez com que Eichmann abdicasse da característica
que mais define o homem como tal: a de ser capaz de pensar. Sem pensar,
ele se tornou incapaz de fazer juízos morais. E, sem juízos
de valor, ele apenas cumpriu seu juramento, abdicando de sua consciência.
Ao pensar o julgamento de um nazista como um tratado de filosofia moral,
Arendt causou uma verdadeira fissura paradigmática na sociedade
mundial pós-guerra. Nunca antes ninguém havia ousado tratar
o nazismo suspendendo-o da emoção e não subjugando-o
à comoção. Por ter feito isso, foi acusada de se
utilizar da retórica para perdoar um dos maiores crimes contra
a humanidade do século XX e para legitimar a atitude daqueles
que contribuíram com ele. Entretanto, o que parece é que
Arendt se permitiu uma suspensão de qualquer julgamento em detrimento
da manifestação do ato de pensar. Ato cuja incapacidade,
segundo ela, permitiu que muitos homens comuns cometessem feitos cruéis
numa escala monumental. Ao que parece, o pensar, para Arendt, era tido
como o único vislumbre passível de conduzir à salvação
em meio à catástrofe de tempos sombrios, seja a catástrofe
do mal, seja a do próprio bem.
Arendt levou ao extremo sua estima pelo pensar. Mesmo não se
considerando uma filósofa no que tange à obra Eichmannn
em Jerusalém, ela parece ter levado o exercício
do pensamento, matéria circunstancial da filosofia, ao extremo
radical que quase beirou o absurdo. Muitos criticaram sua obra categorizando-a
desde inocente até arrogante. Alguns poucos admiraram sua coragem
de enfrentar o tabu histórico que se tornou o Holocausto para
a Alemanha. Independentemente da certeza ou não de uma banalidade
do mal, é fato que o antissemitismo na nação era
propagado desde séculos antes da ascensão de Hitler.
Na sua análise de Eichmann, parece que tentar entender, para
Arendt, não foi a mesma coisa que perdoar. A pensadora nunca
se colocou a favor do acusado. Colocou-se, apenas, contra sua culpabilização
pela morte de seis milhões de judeus. E se colocou realmente
disposta a refletir sobre um veredicto, ao invés de aceitar aquele
que já estava dado desde muito antes do julgamento sequer se
iniciar.
Hanna Arendt
Direção: Margarethe Von Trotta
Ano: 2013

Fonte: ComCiência
- Revista Eletrônica de Jornalismo Científico -
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&tipo=resenha&edicao=100
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Indicamos também este texto sobre o
filme:
A Humanidade segundo Hannah Arendt
> Filme retrata produção de famoso livro
da filósofa alemã em sua busca por responder qual é
o caráter principal do Homem
por Nashla Dahás e Ronaldo Pelli
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/cine-historia/a-humanidade-segundo-hannah-arendt
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