05/07/2014
Ciência e Espiritismo: cuidados e discernimento
– Entrevista com Alexandre Fontes da Fonseca
Mistificações e falsas interpretações são
perigos da ausência de espírito crítico na relação
ciência e religião.
por Cássio Leonardo Carrara
O Clarim
Espírita desde criança, Alexandre Fontes da Fonseca
é físico formado pela Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP), onde também realizou os cursos de mestrado e doutorado.
Após estágios de pós-doutorado no NanoTech Institute
e no Departamento de Ciência dos Materiais da Universidade do
Texas, em Dallas (EUA), agora é Professor de Física da
UNICAMP.
No meio espírita, participa de reuniões mediúnicas,
faz preleções e palestras e é colaborador da Liga
de Pesquisadores do Espiritismo (LIHPE). Recentemente fundou e edita
o Jornal de Estudos Espíritas, um periódico destinado
à publicação de artigos de pesquisa espírita.
________
RIE – Como e quando surgiu o interesse
pelo Espiritismo? Quais suas principais atividades no movimento espírita?
Alexandre Fontes da Fonseca
– Quando criança, acompanhava meu pai que frequentava o
centro espírita da minha cidade, Volta Redonda (RJ). Na adolescência,
despertou o interesse em conhecer melhor a Doutrina Espírita.
Li, primeiro, O Livro dos Espíritos e, na medida do tempo livre,
li outras obras básicas e algumas obras do Chico Xavier e Emmanuel.
Ao vir para Campinas, para cursar Física na UNICAMP, iniciei
os cursos oferecidos pelo Centro Espírita Allan Kardec (CEAK),
onde também participei do grupo de mocidade. Hoje frequento o
CEAK, participo de reuniões mediúnicas, faço preleções
e palestras, estudo assuntos que relacionam Ciência e Espiritismo,
colaboro com a Liga de Pesquisadores do Espiritismo (LIHPE) e, recentemente,
criei o Jornal de Estudos Espíritas.
RIE – E pela Física e a carreira científica?
Alexandre – Sempre tive facilidade com as disciplinas de Física,
Química e Matemática na escola. Fiz um curso de Técnico
em Eletrônica, mas isso me fez perder o interesse pela área
de Engenharia. Escolhi cursar Física sem saber bem o que seria
a profissão ou a carreira científica, da qual eu não
tinha a menor ideia. Só aprendemos, de fato, a fazer pesquisa
científica quando chegamos aos cursos de pós-graduação
(mestrado e doutorado). Neles, começamos a lidar não somente
com conceitos mais avançados da área escolhida, mas também
com a postura crítica em relação ao nosso trabalho
e ao de outrem, algo necessário para a avaliação
da qualidade do trabalho científico. É essa postura crítica
– diga-se de passagem, muito utilizada por Kardec – que
permite avaliarmos com segurança o que é joio e o que
é trigo em termos de novidades consideradas científicas
que surgem no movimento espírita.
RIE – Vê-se no meio acadêmico em geral a predominância
do materialismo e a tentativa de manter distância das questões
espirituais. Como você analisa essa situação?
Alexandre – Há preconceito, mas há também
cuidado. A Ciência só aprova uma novidade quando esta é
devidamente demonstrada de acordo com os critérios de cada disciplina
científica. Se isso não pode ser feito, a novidade é
rejeitada e esquecida. Se a Ciência não agisse assim, não
teríamos a menor segurança em áreas de vital importância
como Saúde e Engenharia. É como se, em Ciência,
fosse adotada fielmente a recomendação de que é
preferível “repelir dez verdades do que admitir uma única
falsidade, uma só teoria errônea”, regra de ouro
proposta por Erasto no item 230 de O Livro dos Médiuns. Na minha
opinião, não devemos preocupar-nos com a Ciência.
Em nada ela pode abalar a solidez metodológica do Espiritismo.
Mais cedo ou mais tarde, acabará por encontrar a realidade espiritual.
RIE – Que contribuições o Espiritismo pode dar à
Física? E a Física ao Espiritismo?
Alexandre – O Espiritismo fornece à Ciência como
um todo (isto é, não só à Física),
a certeza da existência da alma. Essa certeza não vem dos
fenômenos de efeitos físicos, como se poderia imaginar,
mas do conteúdo inteligente dos fenômenos espíritas.
A Física, por sua vez, não tem nada de importante a contribuir
para o Espiritismo. Sem dúvida, ela desvendará a existência
e as propriedades dos fluidos espirituais, bem como sua interação
com a matéria, mas nada além disso. Essa onda de se achar
que a Física pode determinar a existência e as propriedades
da alma, na verdade, é uma contribuição negativa
para o Espiritismo. É simples entender: por ser uma Ciência
dedicada a descrever a matéria e suas propriedades, usar a Física
para descrever o Espírito é, automaticamente, materializá-lo.
É dar forma e propriedades materiais ao que em essência
é de natureza inteligente, conforme explica o Espiritismo. No
final das contas, é dar armas aos que combatem o Espiritismo.
RIE – É comum em centros espíritas a abordagem
do tema “Física Quântica”. Em alguns casos,
porém, o expositor pode não possuir pleno conhecimento
do tema ou até mesmo não consegue expor seu estudo de
forma clara e objetiva, causando confusão nos ouvintes. Isso
pode gerar uma mistificação no público espírita,
considerando a Física Quântica como algo belo e complexo,
porém incompreensível?
Alexandre – Sim. O Espiritismo é uma doutrina que orienta
à busca da fé raciocinada, isto é, à compreensão
de tudo aquilo que cremos. Independentemente da intenção
e dos conhecimentos do expositor, utilizar conceitos avançados
de Ciência, que poucas pessoas têm condição
de compreender em profundidade, para propor supostas explicações
modernas para os conceitos espíritas, é promover e incentivar
a fé cega. Assim como é errado fazer extrapolações
da Física para conceitos espíritas, teria sido um desastre
para o Espiritismo se Kardec tivesse tentado explicar a natureza do
perispírito e dos fluidos espirituais usando conceitos da Física
da época! Por isso Kardec disse:
“Se é certo que a utopia da véspera
se torna muitas vezes a verdade do dia seguinte, deixemos que o dia
seguinte realize a utopia da véspera, porém não
atravanquemos a Doutrina de princípios que possam ser considerados
quiméricos e fazer que a repilam os homens positivos”.
(Allan Kardec, Obras Póstumas, “Dos
Cismas”, no capítulo “Constituição
do Espiritismo”)
Vê-se, daí, a sabedoria do codificador
em não se precipitar com teorias científicas que não
podia testar de modo aprofundado.
RIE – E obras como Mecanismos da Mediunidade? Elas não
utilizam conceitos de Física para tentar explicar conceitos espíritas?
Alexandre – Sim. Mas, em primeiro lugar, essa obra não
chega a utilizar os conceitos mais avançados da Física.
Em segundo lugar, André Luiz foi muito cuidadoso. No prefácio,
ele afirma que utilizou conceitos apresentados em obras de divulgação
da época para compor as explicações para os mecanismos
da mediunidade. Ele também comenta que tem consciência
de que as teorias de um século são substituídas
por aquelas que se desenvolvem nos séculos futuros. Portanto,
ele não está propondo revelações científicas
com base na Física! Somente propôs explicar os mecanismos
do fenômeno mediúnico fazendo uma analogia com os mecanismos
de alguns fenômenos materiais.
No capítulo 7 desta obra, André Luiz diz:
“Cabe considerar que as analogias de
circuitos apresentadas aqui são confrontos portadores de justas
limitações, porquanto, na realidade, nada existe na
circulação da água que corresponda ao efeito
magnético da corrente elétrica, como nada existe na
corrente elétrica que possa equivaler ao efeito espiritual
do circuito mediúnico”
[negrito por sugestão do entrevistado].
RIE – Recentemente cientistas do Grande Colisor de Hádrons
(LHC) indicaram a existência do Bóson de Higgs, chamado
de “partícula de Deus”. A mídia e parte da
sociedade, no entanto, rejeitam esta denominação, alegando
que tal descoberta não comprova a existência de Deus nem
deve ser a Ele ligada. O que pensar sobre esta polêmica?
Alexandre – O termo “partícula de Deus” não
surgiu porque os cientistas estavam interessados em encontrar Deus nos
seus experimentos. Eles queriam demonstrar a existência de uma
partícula que seria a “causa primeira” da massa de
todas as outras, e que pudesse eliminar de vez a necessidade da existência
de um Criador, causa primeira de todas as coisas.
RIE – Recentemente foi lançado o Jornal de Estudos
Espíritas, do qual você é editor. O objetivo é
estimular a pesquisa espírita? Qual a periodicidade e como os
leitores podem acessá-lo?
Alexandre – O Jornal de Estudos Espíritas (JEE) é
um periódico destinado à publicação de artigos
de pesquisa espírita que tragam contribuições reais
ao conhecimento espírita. Nossa intenção é
oferecer ao movimento espírita um periódico cujos artigos
tenham valor semelhante aos artigos produzidos nos meios científicos
e acadêmicos. Entretanto, o meio espírita não é
igual ao meio acadêmico e pouco conhece sobre a dinâmica
de trabalho de pesquisa científica e o processo de construção
do conhecimento. Quando uma pesquisa é realizada, seus resultados
não são publicados na forma de livros. São, antes,
publicados na forma de artigos. Depois, esses artigos são analisados
por outros pesquisadores que tentam confirmá-los ou refutá-los.
Só quando uma novidade é extensivamente debatida através
de artigos, e se chega a um consenso, ela se torna segura para ser publicada
na forma de livros que, por sua vez, servirão de referências
para cursos, estudos, e futuras pesquisas.
Os leitores podem acessar artigos e informações sobre
o JEE através do site: https://sites.google.com/site/jeespiritas.
Como o trabalho de pesquisar problemas e questões para desenvolver
o conhecimento espírita ainda é pequeno, a periodicidade
do JEE é longa, inicialmente anual. Mas, da mesma forma como
fazem muitas revistas científicas internacionais, publicamos
cada artigo no momento em que ele é aceito. Portanto, o fluxo
de publicações é contínuo, o que permite
visibilidade imediata. A fim de os leitores não terem de visitar
o site com frequência para saber se há artigos novos, já
que são poucos, estamos cadastrando e-mails de interessados em
receber notícias sobre a publicação de novos artigos.
Caso tenha interesse, escreva para jestudosespiritas@gmail.com
manifestando o desejo de receber notícias.
Além de acesso gratuito, o JEE não limita o tamanho do
artigo. Isso permite que os autores elaborem melhor o texto sem se preocupar
com número de páginas ou caracteres. Devem ser objetivos
e não escrever demasiado, mas podem apresentar dados, argumentos,
figuras, tabelas etc., como num artigo científico comum. Embora
o JEE intente estimular a pesquisa espírita, os artigos de pesquisa
não precisam ser revolucionários. Como o movimento espírita
ainda não tem experiência sólida na tarefa de pesquisar,
artigos mais simples, mas que apresentem contribuições
efetivas para o entendimento de questões de interesse espírita,
podem ser publicados no JEE.
RIE – Algo mais que deseje acrescentar?
Alexandre – Valorizemos o Espiritismo com a certeza de que ele
possui todos os ingredientes filosóficos que caracterizam uma
disciplina científica.
O Espiritismo não precisa da Física ou de outras disciplinas
científicas para ter um aspecto científico. Não
é à toa que, nos últimos anos, Espíritos
tão elevados quanto Bezerra de Menezes e Camilo têm insistido
pelo estudo e fidelidade aos princípios do Espiritismo.
Fonte:
http://www.oclarim.org/site/_pages/ler.php?idartigo=3820
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