11/06/2014
Sobras de alimentos viram aliadas no combate à obesidade infantil
no Brasil
Multimistura, que ganhou destaque mundial por salvar crianças
da desnutrição, dá lugar ao reaproveitamento de
alimentos e ao combate ao desperdício com a meta de reduzir a
obesidade infantil.

Há 30 anos, uma mistura que aproveitava
sobras de alimentos começava a mudar as estatísticas de
destrunição no Brasil.
"A multimistura foi vista como 'poção
mágica'. Naquela época, Zilda Arns tinha como meta o
combate à mortalidade e à desnutrição
infantil", lembra Paula Pizzato, nutricionista da Pastoral da
Criança.
O composto feito à base de farelo de trigo,
pó da casca de ovo e folhas de mandioca deu à Pastoral
da Criança reconhecimento mundial. Com a médica Zilda
Arns à frente do projeto, a multimistura salvou a vida de milhares
de crianças no Brasil. Mas a história mudou: o crescimento
econômico do país se refletiu nos hábitos alimentares
dos brasileiros.
"Hoje, com a mudança do quadro, o desafio
é outro", relata Pizzato.
Isso exigiu um novo foco para o organização,
que atende 1,4 milhão de famílias em todo o país.
O reaproveitamento das sobras alimentares agora tem como destino o combate
à obesidade infantil e a reeducação alimentar.
Da desnutrição ao sobrepeso
Metade da população brasileira apresenta
sobrepeso. As crianças são especialmente atingidas, com
triglicerídeos, pressão e colesterol altos. O projeto
piloto com a mudança de perfil do programa ocorreu em 2009. Na
época, pesquisas mostraram que a multimistura não melhorava
o quadro nutricional das crianças no que se refere à taxa
de ferro e prevenção da anemia.
De acordo com a própria Pastoral da Criança, a receita
da multimistura tradicional, que leva farelo de trigo (30%); farelo
de arroz (30%); farinha de milho (15%); farinha de trigo (10%); casca
de ovo (5%), pó de folha de mandioca (5%) e sementes de abóbora
ou girassol (5%) não combate a anemia.
"A orientação não é
usar a multimistura de forma indiscriminada. Com o sobrepeso, não
é indicado", confirma a nutricionista.
Segundo ela, os estudos mostraram que apenas um conjunto
de ações pode realmente salvar a criança e melhorar
seu estado nutricional, incluindo a vacinação e o acompanhamento
pré-natal.
Para a presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar
(Consea), Emília Pacheco, a mudança de foco de atuação
da Pastoral da Criança é um reflexo da realidade do país,
que diminuiu a desnutrição infantil nos últimos
anos, mas também viu crescer os índices de obesidade entre
crianças.
"O alcance e a credibilidade da Pastoral, que
foram fundamentais na redução da desnutrição
entre as crianças, serão importantíssimos na
articulação de ações – do governo
e da sociedade - para o controle, prevenção e redução
da obesidade infantil" , defende Pacheco.
Aproveitamento de sobras
Apesar da mudança de estratégia,
o aproveitamento das sobras alimentares continua sendo prioridade para
a Pastoral. Uma das receitas difundidas é a sopa de talos, com
ingredientes que normalmente iriam para o lixo.
"É sabido que cascas, folhas e talos
dos alimentos contêm grande quantidade de fibras e nutrientes,
mas essas receitas ainda são vistas com muita surpresa",
conta Paulo Pizarro.
A esperança de mudança do quadro também
se dá com hortas caseiras.
O maior desafio para diminuir o desperdício de alimentos no Brasil,
na avaliação da nutricionista, é aumentar o consumo
de alimento natural, que ainda é muito pequeno quando comparado
ao alimento industrializado.
"Muita gente é capaz de vender a laranja
produzida no quintal para comprar um refrigerante", ironiza.
"Quando crescemos numa família acostumada a comer só
a polpa das frutas, somos condicionados a fazer o mesmo."
Para a representante da Pastoral da Criança
no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Aldenora
Pereira da Silva, o combate ao desperdício alimentar exige ações
permanentes.
"Se conseguíssemos educar o povo para
não desperdiçar alimentos, não teria tanta gente
passando fome", defende.
Segundo ela, há 16 milhões de pessoas
no país nesta condição. No mundo, são 800
milhões.
"Eu faço a seguinte
reflexão: eu moro em João Pessoa (PB), aqui são
800 mil habitantes. Se cada habitante deixar um grão de arroz
em cada refeição, serão 800 mil grãos
de arroz desperdiçados."
E conclui:
"Trabalhamos para não desperdiçar
nem um grão de arroz."
Promover uma alimentação saudável,
equilibrada e variada
é o desafio da Pastoral da Criança
Alimentação
alternativa
A Pastoral da Criança iniciou o trabalho
de "alimentação alternativa" em 1985. A organização
sofreu forte influência da médica Clara Takaki Brandão,
que lançou livro de mesmo nome em 1988. Para ela, os produtos
utilizados na multimistura deveriam ter alto valor nutritivo, baixo
custo, bom paladar e produção regionalizada.
As atuais ações da Pastoral da Criança envolvem
informações sobre capacitação de reaproveitamento
total de alimentos, alimentação saudável e hortas
caseiras. Na opinião da nutricionista, aplicar essa estratégia
é ainda mais difícil com a disseminação
de produtos industrializados, com açúcares e gorduras
em excesso.
"A praticidade conta muito. Abrir um pacote
de biscoito e comer é muito mais fácil que fazer um
suco e lavar a louça", conclui.
Um documentário lançado ano passado
no Brasil discute a problemática da obesidade infantil, classificada
como "epidemia" no país. Intitulado "Muito
além do peso", o trabalho assinado pela cineasta
Estela Renner reflete os motivos que levam 33% das crianças brasileiras
a pesarem mais do que o indicado.
"Se a Pastoral da Criança conseguir diminuir
o sal, o açúcar e a gordura na alimentação
das famílias acompanhadas, já estará fazendo
um grande trabalho nesse país", defende Silva.
Fonte:
http://dw.de/p/18fp7
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