08/06/2014
A bordo do avião que
leva ajuda a crianças angolanas doentes
É assim há duas décadas: a ONG Friedensdorf International
vai a Luanda recolher crianças doentes para tratamento médico
na Alemanha e leva de volta outras já recuperadas. A DW África
acompanhou a viagem.

Depois de um ano na Alemanha e de várias operações
à perna, Angelina, de 12 anos, está ansiosa por aterrar
em Luanda.
"Estou muito contente porque
vou ver de novo os meus irmãos, a minha mãe, toda a
minha família. Mas também estou um pouco triste porque
vou deixar os amigos e as trabalhadoras queridas", conta Angelina
na festa de despedida organizada pela Friedensdorf International na
cidade de Oberhausen, no centro-leste da Alemanha.
Desde a sua criação,
há 47 anos, a organização não-governamental
já ajudou crianças doentes de mais de 50 países,
incluindo mais de 3 mil crianças angolanas.
Cinco dias depois da festa de despedida, chega a hora da partida. É
a viagem número 54 da "Aldeia da Paz" a Angola.

Angelina (esq.), uma das crianças
angolanas que voltou
para casa em maio, com amigas que fez na Alemanha
Regresso a casa
No Aeroporto de Düsseldorf, à espera
de Angelina e das outras 51 crianças já recuperadas está
um avião fretado pela Friedensdorf. A bordo segue também
uma equipa de cinco membros da ONG, incluindo um médico.
No avião acomodam-se ainda caixotes com material
médico e a bagagem das crianças. Cada uma recebe um saco
de desporto, onde, além de roupa e medicamentos, cabem pequenos
presentes que elas mesmas fizeram para a família e lembranças
da estadia na Alemanha – brinquedos em madeira ou saquinhos de
pano feitos à mão, por exemplo.
Para casa levam também uma experiência única, diz
Hannah Lohmann, porta-voz da Friedensdorf.
"Neste momento, temos conosco crianças
de nove países. São cristãos e muçulmanos,
brancos e negros, africanos e asiáticos. Em comum têm
o fato de todos terem vindo para a Alemanha para se curarem e isso
cria uma ligação entre eles, que ultrapassa fronteiras
e idiomas", afirma.
Já é noite quando o avião levanta
voo. A equipe da ONG sabe o que tem de fazer. Durante a longa viagem
organizam-se turnos para idas à casa de banho, mudar fraldas,
distribuir cobertores ou verificar se todas as crianças têm
os cintos de segurança apertados.
Luanda à vista
A viagem decorre sem problemas. E depois de quase dez
horas de voo, é hora de dizer: Luanda à vista.
À espera no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro estão
dois membros da ONG alemã, que viajaram mais cedo para o país
para tratar das formalidades da nova leva de doentes, e uma equipa da
Kimbo Liombembwa, versão kimbundu da "Aldeia da Paz".
Criada há 13 anos, a organização parceira angolana
tem equipas de voluntários por todo o país para identificar
crianças com doenças que não podem ser tratadas
localmente.

Depois de dez horas de viagem, as crianças
chegam
finalmente ao Aeroporto de Luanda
As crianças que regressaram da Alemanha seguem depois para a
sede da ONG, um pequeno espaço situado no Hospital Pediátrico
Dr. David Bernardino. É aqui que são oficialmente entregues
aos pais.
Durante toda a tarde, Maria Tinnefeld, assistente social da Friedensdorf,
resume-lhes os tratamentos médicos realizados aos filhos e deixa-lhes
também algumas recomendações. Muitas vezes é
preciso continuar os exercícios de fisioterapia em casa ou trocar
os sapatos ortopédicos quando estes deixarem de servir. As explicações
são traduzidas por Rosalino Neto, médico angolano que
dirige a Kimbo Liombembwa.
Por causa dos tratamentos, muitas crianças
chegam a ficar mais de um ano sem ver os pais
Sacrifício vale a pena
Manuel Justino António, de 12 anos, foi vítima
de um atropelamento em 2012. Sofreu fraturas graves nas duas pernas,
além de uma hemorragia cerebral. Ficou dois anos na Alemanha,
a recuperar de uma grave inflamação na anca e na perna
direita.
A mãe de Manuel diz que foi difícil separar-se do filho
mais velho, mas os resultados compensam:
"Quando o vi aqui fiquei muito emocionada!
E ele logo que me viu também gritou: 'minha mãe!' Então
abracei-o e agradeci muito", conta.
"Eu tinha mesmo fé de que ele viria melhor, porque via
as crianças que voltavam melhores [da Alemanha]. Mas não
contava que ele pudesse estar aqui comigo de pé, porque ele
só andava em cadeira de rodas", acrescenta a mãe
de Manuel.
Para o jantar, ela promete cozinhar muamba, prato
típico angolano de que o filho tem saudades depois de dois anos
de estadia em solo germânico.

Depois de dois anos na Alemanha, Manuel
Justino António abraça finalmente a mãe
20 anos de ajuda
A capital angolana é há 20 anos
um dos destinos da Friedensdorf. Foi em 1994, durante a guerra civil
que durou 27 anos, que as primeiras crianças foram levadas para
a Alemanha.
O conflito terminou há 12 anos, mas a colaboração
continua. Se antes se tratavam ferimentos causados pela guerra, hoje
as doenças são causadas pela pobreza.
Em Luanda, a pobreza cresce lado a lado
com o desenvolvimento económico e o orçamento para a saúde
emagrece a cada ano que passa
Excetuando a "excelente parceria" com a organização
local e as melhorias na logística e no aeroporto, não
há motivos para festejar este vigésimo aniversário,
afirma o diretor da ONG alemã, Thomas Jacobs.
"No fundo, nem devíamos
trabalhar num país como Angola, que tem infinitas riquezas
como o petróleo e diamantes, onde há tanto dinheiro",
lembra.
"Se sobrasse um bocadinho de dinheiro que fosse para a população
pobre e para os cuidados médicos para as crianças, a
situação seria muito melhor", critica o diretor
da Friedensdorf, embora confesse ter esperança que Angola comece
a investir mais nos cuidados de saúde básicos nos próximos
anos.
Thomas Jacobs sublinha que
a Friedensdorf também procura ajudar a melhorar a infraestrutura
médica no país, para que as crianças só
tenham de viajar para a Alemanha em situações excecionais
e possam estar perto da família.
A ONG, que se financia através de donativos e precisa de pelo
menos 5 milhões de euros anuais para sobreviver, prefere manter-se
longe de Governos e administrações e trabalhar com outras
organizações no terreno.
Petrodólares não financiam saúde
Sempre que chega à "cidade
mais cara do mundo", a equipe da Friedensdorf depara-se com novos
edifícios. As obras não param, mas o crescimento econômico
e os petrodólares de Angola não se refletem na saúde
do país.
A mortalidade infantil é uma das mais altas do mundo e metade
da população angolana vive abaixo do limiar da pobreza.
O Orçamento Geral do Estado para 2014 atribuiu à saúde
apenas 4,3% do seu valor global – uma fatia menor do que a atribuída
no ano passado (5,29%).
A parceria com a Friedensdorf vai, certamente, continuar por muitos
mais anos, admite o médico angolano Rosalino Neto.
"Os quadros da saúde
não se formam de um dia para o outro. O Ministério da
Saúde tem feito tudo e, até ver, ainda não temos
quadros suficientes. Por isso pedimos a ajuda de outros países",
afirma.

Na Kimbo Liombembwa, os novos pequenos
pacientes
preparam-se para partir para a Alemanha
Novos pacientes
No dia seguinte, depois de recolhidos
os passaportes e resolvidos os últimos pormenores burocráticos,
os novos pacientes chegam à Kimbo Liombembwa: 71 crianças
vindas de 12 das 18 províncias de Angola. A viagem até
Luanda chega a durar três dias.
Os problemas de saúde das crianças são de vários
tipos: infeções ósseas, malformações
congénitas, queimaduras graves, luxações, fraturas
expostas, subnutrição… Algumas sofreram acidentes
e não foram devidamente tratadas na altura. E os pequenos corpos
escondem também outros problemas graves que não são
visíveis.

Diagnósticos precisos sobre o estado
de saúde das
crianças angolanas são um problema
Diagnósticos precisos sobre o estado de saúde das crianças
angolanas são um problema, explica Kevin Dahlbruch. O diretor-adjunto
da Friedensdorf viaja para Angola duas vezes por ano e conhece bem a
situação no país.
"Há muitos exames
que não podem ser feitos. Praticamente não se fazem
radiografias às crianças que se encontram nos hospitais
das províncias (fora de Luanda)", diz.
"Por isso, frequentemente temos apenas informações
rudimentares", acrescenta Kevin Dahlbruch.
Conta ainda que há casos
de lesões diagnosticadas há, pelo menos, um ano e meio,
mas como a família não tem meios, não há
relatórios médicos atuais sobre o seu estado de saúde.
Alemanha, a última esperança
A viabilidade do tratamento e as condições
clínicas das crianças são avaliadas pela Friedensdorf
e pela parceira local. A Alemanha é a última esperança
para muitas crianças angolanas.
Porém, na hora de escolher os pacientes, do ponto de vista médico
há dois factores importantes a ter em conta, explica o médico
alemão Tobias Bexten, voluntário na Friedensdorf há
15 anos.
"Um deles é: será que as crianças
vão chegar vivas à Alemanha?
Conseguirão sobreviver ao voo? A outra questão que se
coloca é se estamos perante doenças que faz sentido
tratar", explica.

O médico Tobias Bexten (centro)
e a restante equipa
da Friedensdorf fazem os últimos curativos antes da partida
Ana, uma menina de 9 anos de Luanda, é um dos
casos que inspira cuidados. Não consegue andar. Está subnutrida,
tem várias feridas abertas por todo o corpo e o osso do ombro
direito está à vista. Mas acredita-se que Ana conseguirá
sobreviver à viagem. A equipe da Friedensdorf trouxe da Alemanha
uma maca especial almofadada para a ajudar a suportar as dores durante
o voo.
Entre os novos doentes há também um bebé com cancro
oral, que lhe devora o rosto, além de várias crianças
com malformações congénitas.
É difícil ver o estado em que muitas crianças angolanas
se encontram, até para médicos mais experientes como Tobias
Bexten.
"É difícil ver os ferimentos mais
graves de crianças, que não têm nenhuma responsabilidade
pelas inflamações que têm e que não podem
ser tratadas no país", diz.
Comunicação não é
problema
Já no aeroporto, fazem-se os últimos
curativos antes da partida. Cada criança recebe uma pulseira
de identificação com o seu nome e data de nascimento.
Durante a viagem, redobram-se os cuidados. Há alguns bebés
a bordo e nem todas as crianças conseguem andar sem apoio. Algumas
viajam deitadas. O seu sofrimento é bem visível. O médico
Tobias Bexten tenta aliviar-lhes a dor durante a viagem.
A maior parte das crianças não sabe falar alemão.
Ainda assim, a comunicação não é um problema,
assegura Hanna Lohmann.
"Sabemos algumas palavras em português,
como 'tá fixe'. E quando as crianças querem ir à
casa de banho, xixi todos entendem! Além disso, as crianças
aprenderam uma língua de sinais com os pais", explica
a porta-voz da Friedensdorf.
A bordo estão também algumas crianças
que viajam para Alemanha pela segunda vez – para continuar o tratamento
ou porque surgiu um problema novo – e que servem de tradutoras.
"Em duas semanas, as crianças conseguem
falar muito melhor alemão do que eu português",
conclui Lohmann.

Uma comitiva de voluntários ajuda
no transporte das crianças,
que chegam à Alemanha pela madrugada
Próxima missão em novembro
Os novos pacientes chegam à Alemanha de madrugada.
Uma comitiva de voluntários ajuda no transporte das crianças.
Os casos mais graves são imediatamente encaminhados para os hospitais.
As restantes crianças seguem para a Friedensdorf, em Oberhausen.
O balanço da viagem é positivo: todos os meninos sobreviveram
ao voo. Mas, menos de duas semanas após a chegada, a ONG tem
de lidar com uma dura perda: a morte de duas crianças do novo
grupo.
Não obstante, o ciclo da ajuda não pode parar. A próxima
viagem a Angola está marcada para novembro.

Hanna Lohmman, porta-voz da Friedensdorf,
com um dos 71 novos pacientes angolanos
Fonte:
http://dw.de/p/1C9iK
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