01/06/2014
Apesar do crescimento de transplantes no país,
sofrimento de quem está na fila não tem medida
Mesmo com redução da negativa de doação
de 80% para 45% e alta de 118% no número de transplantes em 10
anos, muitos pacientes enfrentam o sofrimento da fila por muitos anos
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A AGONIA DA LONGA ESPERA
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por Jefferson da Fonseca
O drama da menina Renata Lara de Oliveira, de 13 anos,
em batalha pela vida há 40 dias em um centro de tratamento intensivo
(CTI) pediátrico de Belo Horizonte, traz à luz o drama
de milhares de pacientes de todo o Brasil à espera de doadores.
Ainda que, segundo o Ministério da Saúde, as estatísticas
sejam animadoras – na última década, o número
de transplantes no país cresceu 118% –, o suplício
de quem está na fila não tem mensura. Há casos
em que pacientes chegam a aguardar anos pela cirurgia. Agonia que não
pode ser maquiada pela melhor aceitação da família
dos doadores. Em 10 anos, a negativa de doação caiu de
80% para 45% – dado que evidencia maior conscientização
e solidariedade da população, embora ainda bem abaixo
da média de países desenvolvidos.

"No início, foi muito difícil.
Tive depressão e precisei de acompanhamento psiquiátrico",
Jader Sampaio, de 49 anos, que espera um doador de rim há seis
anos
Com o aumento da quantidade de cirurgias, o número de pessoas
que aguardam um transplante caiu 40% em cinco anos – a fila diminuiu
de 64, 7 mil pessoas em 2008 para 38,7 mil em 2013. Em Minas, segundo
o MG Transplantes, o avanço se deve ao plantão permanente
na busca por doadores para todas as necessidades.
“São 24 horas por dia de atenção
a todos os que estão enfrentando a espera”, garante o
médico Charles Simão Filho, diretor do complexo de transplantes.
Em Minas, o aumento no número de transplantes nos últimos
10 anos chegou a 56,3%.
Este ano, soma-se aos bons resultados no país a parceria entre
empresas aéreas, Aeronáutica e Ministério da Saúde,
favorecendo o transporte para doações. Só no primeiro
trimestre, mais de 2 mil órgãos e equipes de transplante
foram transportados de avião, um aumento de 86% em relação
ao mesmo período de 2013. Vale destacar que o Brasil precisou
de mais de duas décadas para chegar a 9,9 doadores por milhão
de pessoas. Nos últimos três anos, esse índice subiu
para 13,5. Até o próximo ano, a meta é chegar a
15 doadores por milhão. Expectativa tímida, comparada
aos 35 doadores por milhão de pessoas, alcançados na Espanha.
Na outra ponta do drama, em terras brasileiras, a agonia da espera.
Jáder Sampaio, de 49 anos, está há mais de seis
anos à espera de um doador de rins. O que começou com
a urina espumante, no fim dos anos 1990, terminou com a falência
dos rins. O diagnóstico da doença renal veio depois de
exame admissional, quando o professor universitário foi aprovado
em concurso público. Por quase uma década, Jáder
conseguiu cuidar da função renal. Até se tornar
dependente da hemodiálise – uma máquina (rim artificial)
para filtrar as impurezas do sangue.
É uma luta que não parece ter fim. Nos últimos
cinco anos, são cinco sessões semanais de duas horas e
meia diárias de tratamento. Foi numa manhã de cuidados
no Instituto Mineiro de Nefrologia, no Bairro Funcionários, na
Região Centro-Sul de BH, que o professor aposentado recebeu a
reportagem do Estado de Minas. Tomado de vida, amor pela família
e vontade de viver, Jáder não faz drama. De fala tranquila
e sorriso animador, o doutor em administração lida de
forma exemplar com sua condição. No entanto, reconhece
que nem sempre foi assim.
“Quando a gente passa pelas perdas, pelas muitas fases da doença,
vem a força. No início, foi muito difícil. Tive
depressão e precisei de acompanhamento psiquiátrico”,
revela.
Para Jáder, estudioso, entre outras matérias, do assunto
doação de órgãos, a luta de uma paciente
na fila por doação é mesmo uma saga.
“Para entender melhor a situação, é preciso
ouvir os profissionais de saúde intensivistas. Se por um lado
temos uma estatística positiva, por outro temos ainda a resistência
de familiares dos possíveis doadores e a dificuldade de acesso
dos doutores às doações”, avalia.

É preciso derrubar o mito de que há
a possibilidade de oferta paralela de um órgão, diz Monalisa
Gresta
Demora que mata
Monalisa Maria Gresta, de 54 anos, enfermeira
intensivista há 30 anos, já esteve na Comissão
Intersetorial de Doação de Órgãos e Tecidos
(Cidot). A especialista, com mestrado no assunto, conhece bem as agruras
dos pacientes à espera de um transplante. Tanto que sua dissertação
de mestrado ganhou o título de “A espera que mata”.
No trabalho acadêmico, Monalisa acompanhou de perto, em imersão
de três anos, o cotidiano de agonia de duas dezenas de pacientes
em fio de esperança. “Inclusive, com casos de espera sem
sucesso, com morte de uma familiar”, conta.
Para a profissional de saúde do Hospital das
Clínicas da UFMG, a legislação avançou muito
no Brasil, onde o processo tem sido “transparente, acessível
e rastreável”.
“Ainda precisamos derrubar o mito de que há
a possibilidade de uma oferta paralela de um órgão.
Não existe isso. Há uma transparência admirável,
hoje, no Brasil”, elogia.
Monalisa, entretanto, entende que é preciso
avançar mais.
“Por exemplo, na melhora da credibilidade
das instituições hospitalares junto à população”.
“É fato também que a comunidade médica
também precisa amadurecer no trato, na abordagem, da família
de um possível doador”, avalia.
Monalisa defende uma capacitação ainda
maior dos profissionais de saúde, “da portaria aos CTIs”,
pontua.
Envolvida com a causa, em permanente campanha pela conscientização
da população para a importância da doação
de órgãos, a enfermeira deixou a dedicação
exclusiva aos CTIs para trabalhar mais efetivamente pela doação.
REDES SOCIAIS
Para estimular a doação de órgãos
no país, o Ministério da Saúde também investe
em campanhas e ações de mobilização. Uma
delas, é a parceria com o Facebook, no qual o internauta declara
ser doador em seu perfil. Cerca de 140 mil pessoas já se declararam
doadores no www.facebook.com/doacaodeorgaos
ESTADO GRAVÍSSIMO
Era considerado gravíssimo na noite de ontem o estado de saúde
da adolescente Renata Lara de Oliveira, de 13 anos, que entrou em quadro
de falência renal, segundo a médica intensivista Adrianne
Leão Sete e Oliveira. A paciente passava por hemodiálise
e estava sedada com analgésicos, embora consciente. Há
40 dias, a garota, que tem miocardiopatia dilatada há três
anos, aguarda por um transplante de coração no centro
de tratamento intensivo (CTI) do Hospital das Clínicas, em BH.
Os primeiros sintomas da doença costumam ser dificuldade respiratória
durante os exercícios e fadiga, decorrentes do quadro de insuficiência
cardíaca.
Doar é salvar vidas
A doação de órgãos e sua destinação
para transplantes é coordenada em Minas Gerais pelo Complexo
MG Transplantes, responsável pela captação e distribuição
de órgãos em todo o estado, por meio da Central Nacional
de Captação de Doação de Órgãos
(CNCDO). O complexo é composto por centros de notificação,
captação e distribuição de órgãos
na Grande BH, Zona da Mata e regiões Sul, Oeste, Nordeste e Leste
do estado. Linha de orientação à população:
0800-0283-7183; e-mail mgtransplantes@saude.mg.gov.br; endereço:
Avenida Professor Alfredo Balena, 400, 1º andar, Santa Efigênia,
BH; telefones: (31) 3219-9200 e 3219-9211
Fonte:
http://sites.uai.com.br
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