17/05/2014
Paula Adamo Idoeta
reportagem para BBC Brasil
Especialistas consideram essencial que jovens desenvolvam habilidades
sociais para o êxito profissional

Que competências os jovens precisam aprender hoje
para se prepararem para as profissões do futuro? Muitas dessas
carreiras ainda nem existem, mas a pergunta tem mobilizado especialistas
em educação e mercado de trabalho em busca de aperfeiçoamentos
nos sistemas de ensino atuais.
E cresce entre analistas a percepção de que muitas
habilidades cruciais não serão técnicas, mas, sim,
sociais e emocionais: resiliência, curiosidade, colaboração,
pensamento crítico e capacidade de resolução de
problemas, por exemplo.
"Com o acesso abundante ao conteúdo, o que a pessoa precisa
é saber escolher, separar fatos de opiniões, saber navegar
em meio a muitas informações não filtradas",
afirma Denis Mizne, diretor-executivo da fundação educacional
Lemann.
"Daí a importância do pensamento crítico.
E a resiliência tem a ver com um mundo menos previsível.
Se não sei que profissões existirão, preciso
me adaptar."
Mas como ensinar habilidades desse tipo, sem descuidar do conteúdo
escolar? E será que muitas delas têm sido pouco exercitadas
pelas últimas gerações?
Para a professora Carmen Migueles, especialista em educação
e desenvolvimento organizacional da Epabe (Escola Brasileira de Administração
Pública e de Empresas) da FGV (Fundação Getúlio
Vargas), parte das novas gerações – crescida na
internet – "perdeu o contato com o sacrifício e a
capacidade de vencer obstáculos".
_______________________________________________________________
De acordo com especialistas em orientação vocacional,
pensar no mercado de trabalho do futuro não significa pensar
só em profissões que poderão ser criadas nos próximos
anos, mas também em como as carreiras que já existem atenderão
às novas demandas.
"Eles entram no mercado de trabalho achando que serão recebidos
em um palco iluminado pronto para eles", diz a professora à
BBC Brasil. "Mas o sucesso é algo que se consegue em meio
às dificuldades."
- Conheça 14 profissões que têm
campos de trabalho promissores
http://mulher.uol.com.br/gravidez-e-filhos/album/2013/07/19/conheca-14-profissoes-que-tem-campos-de-trabalho-promissores.htm#fotoNav=1
_______________________________________________________________
Segundo ela, essas habilidades socioemocionais –
chamadas também de "soft skills" ou habilidades não
cognitivas – foram citadas por todas as empresas quando questionadas
sobre o que queriam em seus funcionários, em pesquisas feitas
pelo MBA da FGV no Rio de Janeiro.
"É um cultivo de virtudes, como paciência,
solidariedade e entendimento de diferenças em uma sociedade
multicultural", diz ela.
"Isso ajuda, por exemplo, a lidar com o choque de culturas quando
uma empresa é comprada por uma estrangeira."
Debate
As habilidades das gerações futuras
foram debatidas recentemente em eventos nacionais e internacionais:
no seminário Educar para as Competências do Século
21, em março, no Brasil, e na Conferência de Educação
Privada, realizada em abril em San Francisco, nos Estados Unidos, pela
International Finance Corporation, ligada ao Banco Mundial. Um dos participantes
da conferência internacional foi o especialista americano Brian
Waniewski.
"Um dos fatores mais importantes é
aprender a aprender – e a curiosidade não é
algo que seja muito estimulado pelos sistemas educacionais atuais",
diz Waniewski à BBC Brasil.
"O mercado de trabalho se move mais rápido do que o educacional."
Mas já existem diversos experimentos em curso
para ensinar e mensurar essas habilidades. Um deles é do próprio
Waniewski, ex-diretor do Institute of Play, empresa que desenvolve métodos
de ensino baseados em jogos.
Na prática
Waniewski argumenta que o uso de jogos na sala de aula ajuda a simular
a resolução de problemas na vida real.
"Você progride de um nível para
outro, supera desafios e é um agente proativo", diz.
A mesma lógica vale para levar casos concretos e questões
da vida real – por exemplo, problemas da comunidade – para
o debate entre alunos, em vez de focar apenas o conteúdo teórico.
"Isso passa por tirar o aluno de seu papel e colocá-lo
para desenvolver problemas complexos e em equipe", diz Migueles.
Ainda que isso já seja estimulado em alguns cursos superiores
ou pós-graduações, ainda é algo incipiente
nas escolas, diz sua colega na FGV-SP, a professora de economia Priscilla
Tavares.
"Hoje aprende-se muito mais o conteúdo do que o que fazer
com ele", opina, citando o exemplo do logaritmo, elemento matemático
comumente usado por profissionais de finanças.
"Mas, quando aprendemos logaritmo, não aprendemos para
que ele pode ser aplicado."
A dica, aí, é que os alunos tentem estudar não
apenas para passar na prova, mas buscar entender a aplicação
prática do conteúdo e como relacioná-los a outras
disciplinas aprendidas.
"Muita gente trata o debate como se fosse preciso escolher entre
ensinar essas habilidades e o conteúdo tradicional, como matemática
e português", afirma Mizne, da Fundação Lemann.
"Mas os alunos precisam das duas coisas, e essas habilidades
ajudam no aprendizado do conteúdo."
A tecnologia também colabora. Um grupo do Laboratório
de Media do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados
Unidos, dedica-se a desenvolver métodos de aprendizado criativo.
Uma de suas maiores apostas é uma linguagem de programação
chamada Scratch (disponível no site http://scratch.mit.edu/),
que estimula o aprendizado de programação mas também
"estratégias para resolução de problemas,
design de projetos e ideias de comunicação".
E pais podem estimular os filhos a desenvolver essas habilidades desde
cedo, diz Resnick, com brincadeiras que envolvam design e criação,
como blocos de montar, desenhos e jogos.
Experimentos
Aqui no Brasil, o Instituto Ayrton Senna e a OCDE (Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) fizeram
um estudo, recém-divulgado, com 24,6 mil alunos da rede estadual
do Rio de Janeiro, com uma ferramenta desenvolvida para a medição
de competências socioemocionais.
Algumas das conclusões são de que ter em casa mais de
uma estante de livros aumenta em 40% a chance de uma criança
ser mais aberta a novas experiências e que estimular habilidades
como planejamento e o protagonismo entre os alunos melhora seu desempenho
em matemática e português, respectivamente.
"Notamos que as escolas, em geral, já praticam essas
habilidades em seu cotidiano, mas de maneira não intencional",
afirma Mozart Neves Ramos, diretor de articulação e
inovação do Instituto Ayrton Senna.
"Se as escolas conseguirem trabalhar esses valores, eles serão
potencializados."
E eles podem ser potencializados por atividades esportivas e culturais,
pela incorporação de jogos que colaborem no aprendizado
das diferentes disciplinas e pelo estímulo à pesquisa
entre os alunos, segundo Ramos.
O Instituto agora testa a incorporação dessas habilidades
no currículo escolar do Colégio Estadual Chico Anysio,
no Rio – incluindo treinamento de professores, projetos
interdisciplinares envolvendo capacidades socioemocionais e estímulo
para que os alunos elaborem "projetos de vida", com planos
para o futuro.
"A vantagem é que essas habilidades não cognitivas
se desenvolvem ao longo da vida, basta criar um ambiente adequado
para isso", diz Ramos.
Para Resnick, do MIT, mais do que ajudar na busca de empregos, o estímulo
dessas habilidades ajudará os jovens do futuro a serem "uma
parte mais ativa da sociedade, pessoas que pensam melhor, inovam e que
são capazes de articular suas ideias. E todo o mundo precisa
disso".
Fonte:
http://mulher.uol.com.br/gravidez-e-filhos/noticias/bbc/2014/05/02/habilidades-socioemocionais-sao-chave-para-empregos-do-futuro.htm
>>> clique aqui para acessar a página principal
de Notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
>>>
clique para ir direto para a primeira página de Artigos, Teses e Publicações