11/05/2014
Entrevista
- O historiador Marcelo Gulão Pimentel levou
para a Universidade de Juiz de Fora, MG, a reflexão sobre o método
utilizado por Kardec para codificar o espiritismo. Sua dissertação
de mestrado foi baseada em pesquisa de sua obra e em documentos originais
inéditos.
por Eliana Haddad
Correio Fraterno
Uma defesa de mestrado realizada em 25 de fevereiro
pelo historiador Marcelo Gulão Pimentel levou para o Programa
de Pós-Graduação em Saúde Brasileira da
Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, um tema de interesse para
espíritas e não espíritas, ao apresentar na academia
o método utilizado por Allan Kardec para a investigação
dos fenômenos mediúnicos.
A questão é de suma importância, porque toca em
um dos pontos mais debatidos pelos céticos e pelos cientistas
materialistas que não consideram o espiritismo ciência,
muitas vezes pela falta de estudo e entendimento do método que
Kardec buscou desenvolver para obter informações úteis
e confiáveis sobre a dimensão espiritual do universo.
A tese teve orientação do professor
dr. Alexander Moreira-Almeida e co-orientação do professor
dr. Klaus Chaves Alberto, respectivamente, coordenador geral e coordenador
da área de ciências humanas do Núcleo de Pesquisa
em Espiritualidade e Saúde, que funciona na mesma universidade
desde 2006.
Participaram da banca examinadora o professor dr. Silvio Seno Chibeni,
da Universidade Estadual de Campinas, e o professor dr. Gustavo Arja
Castañon, da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Marcelo Pimentel concentrou sua pesquisa na leitura e análise
de toda obra publicada por Kardec: seus livros e os doze volumes da
Revue Spirite: Journal d'Études Psychologiques. Foram também
obtidos e analisados documentos originais inéditos de Kardec,
em viagem de pesquisa por um mês na França com o financiamento
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas
Gerais.
-----------------------
- o historiador Marcelo Gulão Pimentel, em trabalho
de pesquisa realizado na França para compor sua dissertação
de mestrado, apresentada em 25 de feverereiro na Universidade Federal
de Juiz de Fora, MG, resgatou diversos documentos de Allan Kardec, quando
ele ainda era o Professor Rivail, membro de diversas sociedades francesas
da época - veja a relação no link:
- http://www.correiofraterno.com.br/nossas-secoes/103-especial/1497-pesquisador-resgata-na-franca-documentos-ineditos-de-kardec
-----------------------

Como você analisa a importância
de Kardec como pesquisador?
Allan Kardec foi importante, porque desenvolveu pesquisas pioneiras
sobre os fenômenos mediúnicos. Ele propôs uma abordagem
abrangente das manifestações mediúnicas que ocorriam
na metade do século 19. Kardec buscou analisar as principais
teorias a respeito do tema e concluiu que a hipótese da existência
dos espíritos era aquela que melhor explicava o conjunto dos
fenômenos observados.
Em que o método de Kardec se diferencia?
Kardec foi além dos demais pesquisadores, utilizando os médiuns
como modo de acesso direto a dados empíricos a respeito do mundo
espiritual. Para ele, o mundo relatado pelos espíritos não
era metafísico, e sim uma parte do mundo natural ainda pouco
explorado. Em diversas passagens da obra de Kardec podemos vê-lo
comparando o mundo espiritual com o mundo microscópio. Algumas
vezes ele fazia a analogia do médium como um microscópio
do mundo espiritual. Kardec também se diferenciava pela busca
ativa por informações a respeito dos princípios
que integraram o espiritismo. Ele procurava ampliar sua base de dados
empíricos utilizando diversos médiuns, muitas vezes desconhecidos
uns dos outros. Enfatizava a descrição e a interpretação
do conteúdo das mensagens obtidas durante o transe mediúnico,
comparando semelhanças e diferenças entre elas em busca
de informações úteis que pudessem integrar sua
teoria. Kardec dava uma grande ênfase na análise do conteúdo
das informações, sendo menos relevante a autoria das mensagens.
No decorrer de sua pesquisa, contou com um número cada vez maior
de correspondentes que foi de grande importância para a multiplicação
dos relatos mediúnicos com os quais ele criou, desenvolveu e
reformulou os seus princípios acerca do mundo espiritual. A Revista
Espírita foi um espaço destacado de debates com os seus
correspondentes, contribuindo para o amadurecimento das ideias a respeito
do espiritismo. Pesquisador ativo, Kardec também se utilizava
de casos históricos acerca dos fenômenos mediúnicos
e também de pesquisas de campo, visitando médiuns e locais
onde as manifestações espirituais se davam. Do conjunto
de informações obtidas, ele desenvolveu a teoria espírita.
Quais as contribuições que uma melhor compreensão
da metodologia do espiritismo pode trazer à ciência?
Pode contribuir para o debate acadêmico acerca dos fenômenos
anômalos que envolvem experiências conhecidas como espirituais,
psíquicas ou mediúnicas. Investigações históricas
não só do método de Allan Kardec, mas também
de outros pesquisadores que conduziram pesquisas sobre o tema poderiam
retomar teorias e metodologias fomentadoras de novas abordagens empíricas,
bem como tornar mais bem conhecida uma longa tradição
de investigações no campo da mediunidade. No nosso grupo
temos um doutorando, Alexandre Sech Júnior, que está investigando
outro pioneiro, William James.
Há um crescente interesse no meio acadêmico sobre as relações
entre espiritualidade e ciência. Por quê?
Cada vez mais tem surgido em diversas partes do mundo estudos sobre
os impactos positivos da espiritualidade na saúde do ser humano
e as suas implicações em diversos ramos da sociedade.
Em sua dissertação, você defende o caráter
progressivo da pesquisa de Kardec. Por que isso aconteceu?
Kardec via o espiritismo como uma ciência, portanto passível
de ser aprimorada e modificada. Em um primeiro momento, contava com
um número restrito de médiuns (cerca de dez), contudo,
à medida que esse número foi ampliado, devido à
repercussão de sua obra em diversas regiões do mundo,
ele passou a recolher uma base maior de dados, o que permitiu o aprofundamento
de aspectos de sua teoria. É o que se pode perceber com a leitura
do 'Ensaio teórico das sensações dos espíritos',
publicado na segunda edição de O livro dos espíritos.
O ensaio é resultado de uma pesquisa que pode ser acompanhada
desde a primeira edição de O livro dos espíritos,
passando pelas edições da Revista Espírita de 1858
até o mês de dezembro, quando Kardec publica o artigo 'Sensações
dos espíritos' em que apresenta suas primeiras conclusões
sobre o tema. Este artigo ainda recebe algumas modificações
baseadas na análise das informações dadas pelos
médiuns entre 1859 e 1860 até a sua publicação
na segunda edição de O livro dos espíritos, em
1860.
Você acredita ser necessário retomar os estudos
sobre os aspectos históricos e filosóficos das pesquisas
científicas sobre as relações entre espiritualidade
e saúde?
Sim. Os estudos atuais nesse campo têm tido uma grande repercussão
no meio acadêmico e na sociedade em geral. Contudo, pouco se sabe
sobre a história dessas pesquisas. Estudos que busquem investigar
suas tradições podem fortalecer essa área academicamente
e fomentar novos trabalhos.
E na área da metodologia científica? Isso poderia
provocar uma revisão de teorias?
Como historiador, é difícil medir o impacto desse estudo
na área de metodologia científica. Em seus aspectos históricos,
acredito que sim. Apesar da repercussão que o espiritismo teve
entre pesquisadores renomados da Europa na segunda metade do século
19, e na história da saúde mental no Brasil, o método
de Allan Kardec é pouco conhecido. Acredito que com mais discussões
e estudos acadêmicos sobre Kardec e seu método de investigação
a academia possa inseri-lo como um dos pioneiros das pesquisas psíquicas,
em especial, da mediunidade. O espiritismo não foi suficientemente
explorado em seu aspecto metodológico de investigação.
Além disso, Kardec não buscou apresentar seus estudos
sobre espiritismo no ambiente acadêmico.
Por que Kardec afirmava que o espiritismo não poderia
ser enquadrado no mesmo ramo das ciências tradicionais, como a
química e a física, mas sim como uma nova ciência?
Kardec oferece diferentes definições do espiritismo enquanto
ciência ao longo de sua obra. Uma das mais citadas está
na obra O que é o espiritismo? em que ele definiu o espiritismo
como "uma ciência que trata da natureza, origem e destino
dos Espíritos, bem como de suas relações com o
mundo corporal". Nos parece que a principal razão para ele
não enquadrar o espiritismo entre as ciências tradicionais
diz respeito à delimitação de seu objeto de estudo.
Enquanto a física e a química têm como base a investigação
da matéria, o espiritismo investiga o ser pensante, o espírito.
Além disso, para Kardec, o método quantitativo e os experimentos
laboratoriais praticados por essas modalidades científicas não
seriam adequadas para a investigação dos fenômenos
inteligentes gerados pelo espírito.
O espiritismo continua um 'grande desconhecido', como já
observara J. Herculano Pires?
Acredito que falta uma leitura mais criteriosa e aprofundada da obra
de Allan Kardec, notadamente em seu aspecto metodológico. Principalmente
o conhecimento que pode ser obtido a partir da leitura da Revista Espírita.
Você defendeu que a análise do conteúdo
da Revista Espírita pode revelar importantes aspectos da construção
teórica e metodológica do espiritismo. Pode dar um exemplo?
Um bom exemplo é o da evolução do entendimento
sobre a possessão. No começo, Kardec nega a possibilidade
da possessão, como está expresso em O livro dos médiuns
(1861). Contudo, no livro A gênese de 1868 ele admitiu a existência
da possessão para alguns casos de obsessão. O processo
de convencimento de Kardec só pode ser observado na Revista Espírita.
Em março de 1862, ele tomou conhecimento de uma série
de fenômenos mediúnicos chamados pela imprensa de 'Os possessos
de Morzine'. Durante um ano, Kardec publicou uma ampla pesquisa sobre
o evento, totalizando seis artigos, onde afirmava ter evocado espíritos
por diferentes médiuns, promovendo entrevistas sobre o tema;
promoveu estudos do tema com os membros da Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas; analisou casos semelhantes registrados na história;
comparou com fenômenos semelhantes enviados por seus correspondentes
de diferentes lugares; analisou artigos publicados pela imprensa sobre
a possessão em Morzine; leu diversos relatórios oficiais
e acadêmicos sobre a epidemia de possessão; observou casos
de possessão em várias localidades e realizou uma viagem
de campo a Morzine para avaliar os casos de possessão. Por fim,
os dados analisados contribuíram para que ele, em dezembro de
1863, se convencesse da possibilidade da possessão.
O que você descobriu de novo e como esse material foi
utilizado em seu trabalho?
Durante o mês que estivemos na França, tivemos a oportunidade
de conversar com diversos pesquisadores acadêmicos, como Marion
Aubrée, Guillaume Cuchet e Renaud Evrárd, bem como pesquisadores
e estudiosos da história do espiritismo, como Charles Kempf,
Jérémie Philippe e Pierre Etienne. Visitamos diversos
arquivos públicos e bibliotecas francesas em busca de fontes
históricas sobre a vida de Allan Kardec e sobre o espiritismo
entre 1857 e 1869. Com a valiosa ajuda de Charles Kempf, visitamos os
arquivos da Union Spirite Française et Francophone em Tours,
na França, e conseguimos coletar diversas cartas, diplomas e
outros documentos que serviram de fontes de informação
para a conhecermos melhor a vida de Hippolyte Rivail, onde foi possível
constatar a sua vasta erudição como professor, escritor
e membro de diversas sociedades científicas. Também conseguimos
acesso a algumas cartas de Kardec aparentemente nunca publicadas. Ainda
estamos analisando o conteúdo dessas cartas e pretendemos apresentá-las
juntamente com a sua análise em um trabalho futuro.
Qual o papel de Kardec, na vinda do Consolador Prometido, com
relação à equipe do Espírito da Verdade?
Kardec foi muito mais que um compilador ou secretário dos espíritos
na constituição do espiritismo. Ele foi um pesquisador
ativo em busca das informações que permitiram que ele
constituísse a sua obra. Kardec afirmava que o espiritismo seria
o trabalho de uma dupla revelação: a divina ou espiritual,
por ter sido a partir das informações dos espíritos
que ele teria realizado sua obra, mas também pela revelação
científica, onde o seu papel como pesquisador foi fundamental
na elaboração dos princípios que compõem
o espiritismo.
Fonte:
http://www.correiofraterno.com.br/nossas-secoes/14-entrevista/1469-universidade-investiga-o-metodo-de-kardec
Saiba mais sobre o Núcleo
de Pesquisa em Espiritualidade
http://www.correiofraterno.com.br/nossas-secoes/103-especial/1480-nucleo-de-pesquisa-em-espiritualidade-e-saude
>>> clique aqui para acessar a página principal
de Notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
>>>
clique para ir direto para a primeira página de Artigos, Teses e Publicações