11/05/2014
Idosos que cuidam de idosos
Cresce o número de cuidadores de idosos que também
estão na terceira idade; especialistas dizem que eles igualmente
precisam de atenção
Cláudia Collucci
para a Folha de São Paulo
Quase 40% das pessoas que cuidam de idosos
doentes em São Paulo são também idosas, revelam
dados inéditos de um projeto da USP que monitora como os idosos
estão envelhecendo na capital.
O fenômeno tem crescido no país e é atribuído
ao processo de envelhecimento populacional, às famílias
com menos filhos e à maior presença da mulher no mercado
de trabalho, o que diminui a oferta do cuidado em casa.
Na amostra de 362 cuidadores de idosos estudados pela USP, 38% têm
mais de 60 anos. A maioria (75%) é mulher ou filho do idoso.
"A gente chega na sala de geriatria e não sabe quem é
o paciente e quem é o cuidador", diz Naira Dutra Lemos,
assistente social da disciplina de geriatria da Unifesp.
A preocupação dos especialistas é que muitos cuidadores
idosos também precisam de atenção à saúde,
mas estão desassistidos pelas famílias e pelo poder público.
No Congresso Brasileiro de Geriatria, que aconteceu na semana passada
em Belém (PA), os especialistas defenderam que o governo crie
com urgência alternativas de cuidados para idosos que moram sozinhos
ou apenas com o cônjuge também idoso.
Cuidadores profissionais pagos pelo Estado ou estímulo financeiro
aos cuidadores familiares são algumas delas.
"É uma necessidade real e urgente. A maioria das famílias
não têm como pagar um cuidador formal", diz a geriatra
Lyina Kawazoe, da Unifesp.
Em Portugal, por exemplo, o governo garante ao cuidador três
meses intercalados de férias por ano. No período, o idoso
doente fica sob cuidados de uma instituição paga com recursos
públicos.
"No Brasil, o que a gente vê muitas vezes é o cuidador
morrer antes do idoso cuidado", afirma a enfermeira Ieda Duarte,
professora da USP e uma das coordenadoras do projeto Sabe (Saúde,
Bem-Estar e Envelhecimento).
Segundo a literatura médica, cuidadores familiares idosos têm
o dobro de risco de contrair doenças físicas e psicológicas
em relação à população idosa em geral.
Lyina Kawazoe questiona:
"Se ele não consegue cuidar de si próprio, como
vai poder cuidar do outro?".
Por conta do aumento da demanda, a Unifesp criou um ambulatório
para tratar os cuidadores dos idosos.
"O cuidador idoso tem uma carga de estresse grande e doenças
por conta do peso [do idoso doente] e do desgaste da função",
diz Naira Dutra, que defendeu tese de doutorado na Unifesp sobre o
tema.
A maioria dos 176 cuidadores que já passaram por lá é
mulher (85%) e tem 71 anos em média. O mais velho, o pedreiro
aposentado Antonio Joaquim dos Santos, 92, por exemplo, cuida da mulher
de 86 anos que tem alzheimer.
Segundo o projeto da USP, 52% dos cuidadores de idosos com problemas
cognitivos desempenham sozinhos a função há mais
de cinco anos.
"Eles vão deixando de ser o que são, descuidam
da própria saúde e se tornam o único responsável
pela vida do outro", diz Naira.
Também se tornam mais vulneráveis à depressão,
à redução de convívio social e à
diminuição da autoestima, segundo a psicóloga Lisneti
Maria de Castro, pesquisadora da Universidade de Aveiro (Portugal).
A sobrecarga física e emocional também gera sentimentos
de raiva, ressentimento e amargura. Ela afirma que o apoio social, seja
de familiares, amigos, ou de uma rede de cuidados, aumenta a satisfação
em relação à vida.
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Aos 73, mulher dá banho e alimenta marido
de 81 anos
Aos 65 anos, o serralheiro Antonio Bocalini começou
a manifestar os primeiros sinais da doença de Alzheimer.
"Eles esquecia as coisas. Fazíamos as compras e logo
depois ele chegava com mais sacos das mesmas coisas que tínhamos
comprado. Um dia, ele saiu e não se lembrou mais como voltar
para casa", lembra a mulher, Joana, 73.
Hoje, aos 81 anos, ele é totalmente dependente da mulher. Com
a ajuda da filha, Vera, 53, ela lhe dá banho, troca suas fraldas
e o alimenta.
Não que Joana esteja em ótima forma. Ela tem osteoporose
e no ano passado quebrou, de uma só vez, os dois fêmures.
É hipertensa e, após a doença do marido, desenvolveu
depressão.
"É muito difícil. No começo, eu só
chorava. Com os remédios [antidepressivos] e as consultas com
a psicóloga, fui melhorando", diz ela, que também
faz todos os serviços domésticos da casa.
A idosa frequenta o ambulatório de geriatria da Unifesp, onde
recebe atendimento médico e psicológico.
"Ajuda muito. A psicóloga sempre diz que eu preciso
passear mais, me distrair, mas tenho medo de deixá-lo sozinho",
diz ela.
A rotina de Joana começa às 6h da manhã e segue
até altas horas da noite. Bocalini passa a maior parte do tempo
deitado no sofá ou na cadeira de rodas observando a mulher na
cozinha.
"Jô, quem está chamando no portão?"
"Jô, quero café", "Jô, estou apertado,
quero ir ao banheiro".
Os pedidos dirigidos à mulher não cessam. E ela vai atendendo
um a um.
"Cuido dele com amor. Deus vai me dando força",
diz.
Mesmo confundindo muitas vezes a mulher com a filha, Bocalini retribui
o carinho como pode. No último aniversário, deu a Joana
o primeiro pedaço do bolo.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/165415-idosos-que-cuidam-de-idosos.shtml
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Idoso de 92 anos cuida da mulher, de 86,
que tem Alzheimer
Aos 92 anos, Antonio
Joaquim dos Santos cuida da mulher, Maria de Lourdes, 86. Maria sofre
há 12 anos de Alzheimer e, um mês atrás, sofreu
um AVC (Acidente Vascular Cerebral).
Com ajuda da filha, que mora em outra casa, Santos
dá banho, ajuda a trocá-la e faz comida para a mulher,
com quem é casado há 62 anos. A cada dois meses, ele passa
pelo ambulatório de geriatria da Unifesp, onde é avaliado
pela médica, psicóloga e assistente social.
A reportagem do jornal Folha de São Paulo acompanhou sua consulta
na última sexta-feira. Sozinho, ele sai cedinho de casa, na Vila
Arapua, zona sul de São Paulo, e pega dois ônibus até
a Vila Mariana, também na zona sul, onde fica o ambulatório.
Em uma pequena mochila preta infantil, carrega os remédios e
as receitas para mostrar à médica Carla Bezerra.
Ela faz uma série de perguntas sobre a saúde física
("está se alimentando, está tomando todas as medicações?)
e mental ("está se sentindo triste? pensa na morte?").
Com dois aparelhos auditivos, Santos ouve atentamente e responde as
perguntas sem rodeios. "Não penso na morte, me preocupo
com a vida mesmo. Com a saúde da minha mulher e com meu filho
alcoólatra." A seguir, trechos do seu depoimento.
*
Conheci minha mulher em 1950, três anos depois de eu sair de Xique
Xique, na Bahia, e vir tentar a vida em São Paulo. Ela era da mesma
cidade, mas não nos conhecíamos. Casamos, tivemos cinco
filhos.
Há 12 anos ela começou a ter insônia, a ficar com
muito medo de tudo, não conseguia ficar em casa sozinha. Depois
começaram os esquecimentos. Às vezes, ela não reconhece
os netos e me confunde com meu filho mais velho.
Até o ano passado, tínhamos uma empregada que ajudava
nas coisas da casa e a tomar dela, mas ela pediu para sair, não
aguentou. Moro com mais dois filhos e uma nora. Mas eles trabalham e
minha nora está fazendo tratamento de câncer, está
muito debilitada e não tem como ajudar. Minha filha mora no mesmo
bairro e ajuda o que pode, mas também tem os filhos, a casa para
cuidar.
Não é fácil, às vezes acho que não
vou aguentar. Mas Deus dá força e paciência e a
gente vai levando. O que mais cansa é a repetição.
Ela pergunta a mesma coisa umas 50 vezes.
Eu respondo, respondo, mas chega uma hora que eu me calo, perco a paciência.
Aí ela fica brava, diz que estou fazendo pouco caso dela. Também
fica fiscalizando tudo. Se eu estou no fogão preparando alguma
coisa, ela logo acha que a panela está torta, que a comida vai
queimar, que o leite vai derramar. Costuma falar: "tá mal
feito, vocês são todos marreteiros".
Há um mês, ela sofreu um derrame. Era um domingo à
tarde, fui tomar banho e ela ficou com meu filho e minha nora. Foi quando
escutei o grito. Ela tinha caído e, quando vi, já estava
entortando a mão e a perna direita. Levamos para o hospital e
ela ficou dois dias internada. Agora está com dificuldade para
falar e para se movimentar. Estamos esperando uma vaga para começar
a fisioterapia.
Tenho problema de audição, mas com os aparelhinhos agora
ouço bem. Tenho também muita dor na coluna, mesmo com
remédio não passa. Enxergo pouco, preciso operar a catarata.
Desde que ela sofreu o derrame, ando muito preocupado. Nem consegui
mais fazer minhas caminhadas. Antes, andava dois dias por semana.
Trabalhei como pedreiro até os 75 anos, mas depois fui desanimando
com as coisas. Tenho um filho alcoólatra e me preocupo muito
com ele. Está perdido na vida, não trabalha, os filhos
não querem saber dele. É duro, às vezes fico mais
preocupado com ele do que com a minha mulher. Mas, de uma forma geral,
ainda sou otimista, acho que as coisas podem melhorar, gosto de estar
vivo, não penso na morte, não.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/05/1452314-idoso-de-92-anos-cuida-da-mulher-de-86-que-tem-alzheimer.shtml
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