30/03/2014
Aparecida Conceição Ferreira (Dona Cida) - fundadora do
Fundação do "Hospital do Fogo Selvagem" - entrevista
feita em 1999 pelo jornal Folha Espírita
Publicada originalmente no jornal
Folha Espírita, São Paulo, 09/1999.

D. Aparecida C. Ferreira -9-05-1917/22-12-2009
/ Foto Ismael Gobbo
A cidade de Uberaba, além de sua beleza e prosperidade, abriga,
em seu seio, importantes personagens do movimento espírita brasileiro.
Uma delas, que trabalhou ao lado de Chico Xavier, é Dona Aparecida
Conceição Ferreira, que se projetou nacionalmente pela
Fundação do "Hospital do Fogo Selvagem",
especializado no tratamento dos portadores do "Pênfigo
Foliáceo", uma doença cujos sintomas se
assemelham a labaredas que percorrem o corpo e deixam na pele verdadeiras
marcas de queimadura.
"Dona Cida" começou
esse trabalho no ano de 1957, quando trabalhava como enfermeira no Isolamento
da Santa Casa de Uberaba. Como o tratamento do Pênfigo era difícil
e dispendioso, o hospital acabou por suprimi-lo. A abnegada servidora
de Jesus não titubeou: levou os doentes para a sua própria
casa.
Pedindo esmolas nas vias públicas e recorrendo aos meios de comunicação,
sobretudo com a ajuda dos jornalistas Moacir Jorge e Saulo Gomes, este,
através da extinta TV Tupi, e contando com o irrestrito apoio
de Chico Xavier, Dona Cida ergueu o grande complexo hospitalar destinado
ao tratamento da insidiosa enfermidade.
Depois, com a alteração dos estatutos surgiu o "Lar
da Caridade", que chegou a abrigar mais de trezentos desamparados
ao mesmo tempo.
Embora conhecesse Chico Xavier, e dele recebesse ajuda desde o início,
tornou-se espírita somente em 1964. Foi o Chico quem a incentivou
a fundar o Centro Espírita "Deus e Caridade", onde
ele comparecia para transmitir passes e receber mensagens psicografadas,
grande parte delas assinadas por Maria Dolores e Jesus Gonçalves.
Em visita à abençoada seareira, agraciada com o título
de Cidadã Uberabense por seus méritos, a "Folha Espírita"
dela obteve longa entrevista, da qual destaca alguns lances de sua maravilhosa
existência.
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As origens:
"De acordo com os assentamentos nasci em
Igarapava, Estado de São Paulo, filha de Maria Abadia de Almeida,
às 4 horas da manhã, no dia 19 de maio de 1917. Meus avós
maternos foram Manoel Inocêncio Ferreira e Joaquina Angélica
de Jesus. Pelos registros tenho a idade de 82 anos, mas acredito que
tenha 86. Nunca vi meu pai e fui criada por avô e tio. Casei-me
em Igarapava, no dia 14 de junho de 1934, com Clarimundo Emidio Martins.
Lá fiquei até a idade de 36 anos, onde tive meus cinco
filhos. De Igarapava fui para Nova Ponte, onde exerci o magistério
na zona rural."
Em Uberaba:
"De Nova Ponte, vim para Uberaba, onde fiz de tudo para manter
minha família. Até limpeza de cisternas, porque quando
cheguei na chácara onde fui morar não havia o que comer.
Então, saía limpando cisternas. Eu descia no fundo dos
poços, e eles puxavam o barro. Depois, me dediquei à horta.
Os médicos da Beneficência Portuguesa vinham comprar as
verduras e com isso não precisava sair vendendo."
Enfermeira:
"O dono da chácara foi candidato a Prefeito e perdeu a eleição.
Dizia ele que gostava do meu trabalho, mas não daqueles que vinham
à minha casa. Verdade seja dita, eu não trabalhei na campanha
dele. E eu lhe falava: "Quem vem na minha casa é melhor
que eu", e procurei um jeito de sair de lá. Foi uma cabeçada,
sofri bastante. Certo dia, o Dr. Jorge me convidou para trabalhar no
hospital. Relutei muito, porque o quadro que eu presenciei no Isolamento
era terrível: doentes com tuberculose, tétano, febre amarela...
Mas acabei aceitando porque a oferta ia subindo, subindo... Afinal,
me oferecerem três mil e trezentos, enquanto meu marido ganhava
cento e oitenta."
Problemas:
"Eu trabalhava no hospital havia dois anos e alguns meses. Venceu
o mandato daquela diretoria, e entrou outra. A eleição
foi dia 4, e dia 6 eles tomaram posse. Os novos diretores parece que
tinham alguma rixa com nosso médico, que era irmão do
Pedro Aleixo e partidário da UDN. A turma que ganhou era do PTB.
Falaram para mim: "Olha, hoje não tem almoço para
os doentes, pode mandar todos pra casa". "Como?" , eu
disse, "eles não têm dinheiro, estão ruins."
"Ordem dada, ordem executada", replicaram. Ou seja, não
havia apelação, os doentes estavam na rua."
Em busca de socorro:
"Eu procurava consolar os doentes dizendo-lhes: "Não
chorem, não, nós vamos fazer uma passeata e o povo vai
nos ajudar" . Fui a uma rádio pediram-me para "refrescar
a cabeça", noutra, a mesma coisa, no jornal, igual. Eu não
sabia que estava brigando com a nata da cidade: Prefeito, Escola de
Medicina, Saúde Pública. Me mandaram pra casa e fui muito
triste, nervosa, matutando como fazer. Eram doze doentes. Fomos para
minha casa."
Momento de decisão:
"Em casa, um de meus filhos me disse: "A senhora escolhe,
ou nós ou os doentes". Não vacilei e respondi: "Hoje,
fico com os doentes, porque eles têm Deus e eu por eles, vocês
estão crescidos e vão se virar". Chamei todos eles
para dentro, e entraram chorando. E aí os vizinhos me davam um
caixote; o outro, um colchão; outro uma tábua; e eu agasalhei
os doze. Fui fazer o almoço, eram três ou quatro horas
da tarde. A gente estava só com o café da manhã.
Enquanto fazia comida, gritava para minhas filhas esquentarem água
para eles tomarem banho na lata de querosene e assim permanecemos ali
por dois dias."
Asilo São Vicente de Paulo:
"No fim de dois dias, chegaram os diretores da Escola de Medicina
e da Saúde Pública para ver as condições,
que eram precárias. E aí arrumaram o Asilo São
Vicente de Paulo, para que ficássemos dez dias porque, no final
de dez dias, como prometiam, iriam arrumar alguma coisa melhor. Foram
dez anos, nunca mais vi eles. Foi o tempo que eu levei para construir
isso aqui, com a graça de Deus e a ajuda do povo."
Preconceitos:
"Havia muito preconceito para com os doentes. Eu saía para
pedir esmolas com três deles. Muita gente nos via e descia da
calçada. Eu falava: "Não saiam não, porque
se vocês saírem, apanham". Se nós entrávamos
nos ônibus, o pessoal descia. Fomos pedir em uma casa daqui, cuja
dona se dizia espírita e os meninos tocaram no portão.
Antes que subíssemos, ela mandou passar álcool no portão
para desinfetar. A doença do pênfigo é triste, é
horrorosa, o doente na primeira fase é um pedaço de carne
podre. E o povo tinha medo, porque ninguém conhecia, nós
vencemos. Para fazer esta casa aqui foi uma luta, tantos foram os abaixo-assinados
para que não fosse feita..."
Oito dias no xadrez:
"Aqui não tem um grão de areia dado pela Prefeitura,
nem pelo Estado ou a União. Foi o povo quem me ajudou. O pessoal
espírita daqui fazia a campanha "Auta de Souza" e traziam
as coisas para mim. Mas não dava para manter a casa, porque no
final de um mês eu tinha trinta e cinco doentes. Fui para São
Paulo e ficava no Viaduto do Chá, em frente da Light. Punha um
lençol, as meninas segurando, e eu com um sino dizia: "Me
dêem uma esmola pelo amor de Deus, para os doentes do Fogo Selvagem
de Uberaba". E aí o povo ia jogando níqueis. Na época,
foram dois vereadores daqui passear em São Paulo: um advogado
e um médico. Achando que eu estava desmoralizando Uberaba, fizeram
Ofícios para o Chateaubriand (*) e para a Delegacia. Fiquei oito
dias no xadrez, até que uma advogada, Doutora Izolda, me tirou.
Quem mandou ela me tirar, não sei até hoje, pois ela já
morreu."
No Palácio dos Campos Elíseos com Scheilla:
"Um dia, eu e o Lauro (*) estávamos andando na Avenida Rio
Branco, nos Campos Elíseos, e eu o convidei para entrar. Atônito,
ele disse: "Você está doida, nós estamos sujos,
fedendo a suor, entrar aí no palácio do governador?".
Mostrei as fotos dos doentes ao policial da portaria, ele ficou muito
revoltado e me mandou segui-lo. ... Passamos por saguões, escadas
e tapetes vermelhos. Dona Leonor (*) estava conversando com um senhor.
Em outra poltrona, estava sentado Don Evaristo e na terceira, nós.
Ela acabou de conversar com os dois, e chegou nossa vez. Quando ela
ia fazer menção de se sentar eu disse: "A Scheilla
quebrou um vidro de perfume". Entre nós e a Dona Leonor
ficou igual neblina e aquele perfume sufocando. Precisamos procurar
ar. Quando melhorou, ela perguntou o que queríamos e lhe disse
que pedia ajuda para o Hospital do Pênfigo. Ela disse: "Eu
não posso ajudar, porque a senhora mora em Minas, e eu sou de
São Paulo". Mas acabou me dando uma máquina de costura,
duas peças de cretone e dez contos. Mas fiquei pensando: "O
Chico não está aqui, como é que veio aquele perfume?"
O primeiro passe:
"No mesmo dia em que estivemos com Dona Leonor, à noite,
eu e o Lauro fomos a um Centro Espírita, uma casa velha, com
muita gente. Logo que começou, o presidente da mesa falou: "A
pessoa do fogo selvagem que estiver aí faça o favor de
se dirigir à mesa". Não fui. Quando acabaram os trabalhos,
todos foram saindo, menos aqueles da mesa. O presidente tornou a falar
sobre a pessoa do "Fogo Selvagem". Eu me apresentei, e ele
pediu-me desculpas porque não sabia quem eu era e falou que o
"Mentor da Casa" tinha dito que era para eu dar um passe na
Presidente do Centro, que já fazia três meses estava entrevada.
Eu nunca tinha dado passe, mas agüentei firme. Subimos aquela escada
de madeira em caracol e lá chegamos. Ela se chamava Mafalda,
uma portuguesa. Estava sob um cortinado "chic", a turma rodeou
a cama dela, e me puseram frente-a-frente. Eu iniciei a oração,
senti algo estranho e pensei: "Nossa Senhora, agora vai sair bobagens
aqui". Dei o passe e fomos embora. Dizem que em três dias
ela andou. Aí, eu falei: "Preciso ser Espírita, porque
a coisa está me apertando. A comida, ganhamos do povo espírita,
agora a Scheilla me deu essa permissão, esse passe". Dona
Mafalda me ajudou muito, fazia bingos, rifas, jantares, até quando
morreu de câncer."
Chico Xavier:
"Tantos e tantos foram os episódios interessantes que pude
vivenciar com Chico Xavier. Certa vez, eu estava fazendo campanha em
São Paulo, a situação estava difícil, e
aquele dia não estava bom para pedir esmolas. Estava na Avenida
Paulista, em frente da Televisão, amargurada, fazendo minha oração,
triste, porque não estava rendendo nada. De repente, eu olho
e vejo o Chico na outra calçada. Até que eu procurasse
um lugar para passar e ir de encontro com o Chico, cadê o Chico?
Que Chico, nada... Mas, daquela hora em diante, as coisas melhoraram
para mim, desci a Brigadeiro e fui para o Anhangabaú, e ali a
mina nasceu...
Meu primeiro encontro com o Chico foi quando eu tinha uma doente muito
obsediada; na época, eu dizia que ela estava doida. Fazia quinze
dias que ela não dormia e nem deixava ninguém dormir.
O Chico tinha acabado de chegar aqui. Um acadêmico de Medicina,
Aldroaldo, me convidou para levar a doente ao Chico. Eu disse: "Sou
católica, não queria ser espírita, porque tinha
comigo que para servir a Deus não precisava mudar de seita, em
qualquer delas se pode servir". Então, o Aldroaldo apareceu
com uma "chimbica" junto com outro estudante. A doente queria
saltar pela janela, a colocamos no meio. Chegamos lá no Chico,
o quarto era pequeno e estava repleto de gente. O Chico estava de pé,
escrevendo. Mas eu não vi o Chico, eu vi o Castro Alves. Nem
me lembrei que Castro Alves tinha morrido. Falei: "Que Chico, que
nada, é Castro Alves, com cabelo à " la garçon",
grisalho". Por fim, eu disse: "Vamos embora, vamos embora".
Na volta, a doente veio moderada, entrou dentro do carro sozinha e dormiu
a noite toda..."
O Espiritismo:
"Eu detestava o Espiritismo. Só a partir de 1964 é
que me aproximei do Espiritismo, quando estava fazendo a campanha de
tijolos para esta casa. Como já disse, fiquei pensando, não
é possível, o povo faz campanhas de mantimentos e os trazem
para mim, o povo me agrada, me dão dinheiro, a Scheilla me aparece
em São Paulo. Naquela noite, eu não dormi, matutando:
"Eu vou lá na mulher, nunca tinha dado passe na vida, me
mandam dar passe, só virando espírita". E o Espiritismo
não é brincadeira, é coisa muito séria,
não se pode brincar com o Espiritismo. Às vezes, você
vai em um Centro pensando que vai levar e você volta carregada.
Eu não brinco".
Uma mensagem aos Espíritas:
"Aos que buscam desenvolver algum trabalho, a minha mensagem é
de que tenham muito amor, muita sinceridade e que façam as coisas
para si e não para os outros verem. Porque a maioria faz as coisas
para os outros verem. E não importa o que os outros falam, porque
todas as pessoas que vão fazer a caridade levam o título
de "ladrona". Meu título era de ladrona. Alguém
foi perguntar para o Chico, porque todos diziam que eu estava roubando.
Porque quando eu comprava um terreno, diziam: "Comprou mais um
terreno para o filho". Comprava outro, era a mesma coisa. Então,
o Chico disse àqueles que foram lhe falar: "Me digam onde
ela roubou, que eu vou ajudar ela a roubar". A partir daí,
o povo foi parando de falar que eu roubava."
(*)
Lauro - (acompanhante de campanha); Leonor- (primeira dama, esposa do
governador Ademar de Barros); Chateaubriand (jornalista Assis Chateaubriand).
Sobre a vida e obra de Aparecida Conceição
Ferreira sugerimos a leitura do excelente livro: "Uma Vida de Amor
e Caridade", de Izabel Bueno, Editora Espírita Cristã
Fonte Viva, Belo Horizonte-MG.

D. Aparecida Conceição Ferreira,
lendo a entrevista acima,
publicada na Folha Espírita / Foto Ismael Gobbo

Aparecida Conceição Ferreira,
dona Cida, segunda a partir da esquerda, recebendo caravaneiros no Hospital
do Fogo Selvagem , em Uberaba, MG, no ano de 1998
/ Foto Ismael Gobbo

Aparecida Conceição Ferreira,
dona Cida, segunda a partir da esquerda, recebendo caravaneiros no Hospital
do Fogo Selvagem , em Uberaba, MG, no ano de 1998
/ Acervo de Ismael Gobbo
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