19/03/2014
A Agência FAPESP publicou notícia sobre técnica
desenvolvida por pesquisadores brasileiros que consiste na análise
matemática de relatos sobre sonhos, capaz de auxiliar na identificação
de sintomas de esquizofrenia e bipolaridade
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por Elton Alisson
A pista dada por Sigmund Freud (1856-1939) no livro “A intepretação
dos sonhos", de 1899, de que “os sonhos são a
estrada real para o inconsciente”, chave para a Psicanálise,
também pode ser útil na Psiquiatria, no diagnóstico
clínico de transtornos mentais, como a esquizofrenia e a bipolaridade,
entre outras.
A constatação é de um grupo de pesquisadores do
Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN), em colaboração com colegas do Departamento
de Física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Centro
de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática
(Neuromat)
– um dos CEPIDs
da FAPESP.
Eles desenvolveram uma técnica de análise
matemática de relatos de sonhos que poderá, no futuro,
auxiliar no diagnóstico de psicoses.
A técnica foi descrita em um artigo publicado
em janeiro na Scientific Reports, revista de acesso aberto
do grupo Nature.
“A ideia é que a técnica, relativamente
simples e barata, seja utilizada como ferramenta para auxiliar os
psiquiatras no diagnóstico clínico de pacientes com
transtornos mentais de forma mais precisa”, disse Mauro Copelli,
professor da UFPE e um dos autores do estudo, à Agência
FAPESP.
De acordo com Copelli – que realizou mestrado
e doutorado
parcialmente com Bolsa da FAPESP –, apesar dos esforços
seculares para aumentar a precisão da classificação
dos transtornos mentais, o atual método de diagnóstico
de psicoses tem sido duramente criticado.
Isso porque ele ainda peca pela falta de objetividade e pelo fato de
a maioria dos transtornos mentais não contar com biomarcadores
(indicadores biométricos) capazes de auxiliar os psiquiatras
a diagnosticá-los com maior exatidão.
Além disso, pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar
muitas vezes apresentam sintomas psicóticos comuns, como alucinações,
delírios, hiperatividade e comportamento agressivo – o
que pode comprometer a precisão do diagnóstico.
“O diagnóstico dos sintomas psicóticos
é altamente subjetivo”, afirmou Copelli.
“Por isso mesmo, a última versão do Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais [publicado
pela Associação Americana de Psiquiatria em
2013] foi muito atacada”, avaliou.
A fim de desenvolver um método quantitativo
para avaliar sintomas psiquiátricos, os pesquisadores gravaram,
com o consentimento dos envolvidos, os relatos dos sonhos de 60 pacientes
voluntários, atendidos no ambulatório de psiquiatria de
um hospital público em Natal (RN).
Alguns dos pacientes já tinham recebido o diagnóstico
de esquizofrenia, outros de bipolaridade e os demais, que formaram o
grupo de controle, não apresentavam sintomas de transtornos mentais.
Os relatos dos sonhos dos pacientes, feitos à psiquiatra Natália
Bezerra Mota, doutoranda na UFRN e primeira autora do estudo, foram
transcritos.
As frases dos discursos dos pacientes foram transformadas por um software
desenvolvido por pesquisadores do Instituto do Cérebro em grafos
– estruturas matemáticas similares a diagramas nas quais
cada palavra dita pelo paciente foi representada por um ponto ou nó,
como o feito em uma linha de crochê.
Ao analisar os grafos dos relatos dos sonhos dos três grupos de
pacientes os pesquisadores observaram que há diferenças
muito claras entre eles.
O tamanho, em termos de quantidade de arestas ou links, e a conectividade
(relação) entre os nós dos grafos dos pacientes
diagnosticados com esquizofrenia, bipolaridade ou sem transtornos mentais
apresentaram variações, afirmaram os pesquisadores.
“Os pacientes com esquizofrenia, por exemplo,
fazem relatos que, quando representados por grafos, possuem menos
ligações do que os demais grupos de pacientes”,
disse Mota.
Diferenças de discursos
Segundo os pesquisadores, a diferenciação
de pacientes a partir da análise dos grafos de relatos dos sonhos
foi possível porque suas características de fala também
são bastante diversificadas.
Os pacientes esquizofrênicos costumam falar de forma lacônica
e com pouca digressão (desvio de assunto) – o que explica
por que a conectividade e a quantidade de arestas dos grafos de seus
relatos são menores em comparação às dos
bipolares.
Por sua vez, pacientes com transtorno bipolar tendem a apresentar um
sintoma oposto ao da digressão, chamado logorreia ou verborragia,
falando atabalhoadamente frases sem sentido – chamado na Psiquiatria
de “fuga de ideias”.
“Encontramos uma correlação importante dessas
medidas feitas por meio das análises dos grafos com os sintomas
negativos e cognitivos medidos por escalas psicométricas utilizadas
na prática clínica da Psiquiatria”, afirmou Mota.
Ao transformar essas características marcantes de fala dos pacientes
em grafos é possível dar origem a um classificador computacional
capaz de auxiliar os psiquiatras no diagnóstico de transtornos
mentais, indicou Copelli.
“Todas as ocorrências no discurso dos pacientes com transtornos
mentais que no grafo têm um significado aparentemente geométrico
podem ser quantificadas matematicamente e ajudar a classificar se
um paciente é esquizofrênico ou bipolar, com uma taxa
de sucesso comparável ou até mesmo melhor do que as
escalas psiquiátricas subjetivas utilizadas para essa finalidade”,
avaliou.
O objetivo dos pesquisadores é avaliar um maior número
de pacientes e calibrar o algoritmo (sequência de comandos) do
software desenvolvido para transformar os relatos dos sonhos em grafos
que possam ser usados em larga escala na prática clínica
de Psiquiatria.
Apesar de utilizada inicialmente para o diagnóstico de psicoses,
a técnica poderá ser expandida para diversas outras finalidades,
contou Mota.
“Ela poderá ser utilizada, por exemplo, para buscar
mais informações sobre estrutura de linguagem aplicadas
à análise de relatos de pessoas não apenas com
sintomas psicóticos, mas também em diferentes situações
de declínio cognitivo, como demência, ou em ascensão,
como durante o aprendizado e o desenvolvimento da fala e escrita”,
indicou a pesquisadora.
Papel dos sonhos
Os pesquisadores também desenvolveram e
analisaram, durante o estudo, os grafos de relatos sobre atividades
realizadas pelos pacientes voluntários na véspera do sonho.
Os grafos desses relatos do dia a dia, chamados de “relatos de
vigília”, não foram tão indicativos do tipo
de transtorno mental sofrido pelo paciente como outros, disse Copelli.
“Conseguimos distinguir esquizofrênicos dos demais grupos
usando a análise dos grafos dos relatos de vigília,
mas não conseguimos distinguir bem os bipolares do grupo de
controle dessa forma”, contou.
Os pesquisadores ainda não sabem por que os grafos dos discursos
sobre o sonho são mais informativos sobre psicose do que os grafos
da vigília.
Algumas hipóteses esmiuçadas na pesquisa de doutorado
de Mota estão relacionadas a mecanismos fisiológicos de
formação de memória.
“Acreditamos que, por serem memórias mais transitórias,
os sonhos podem ser mais demandantes cognitivamente e ter maior impacto
afetivo do que as memórias relacionadas ao cotidiano, e isso
pode tornar seus relatos mais complexos”, contou a pesquisadora.
“Outra hipótese é que o sonho está relacionado
a um evento vivenciado exclusivamente por uma pessoa, sem ser compartilhado
com outras, e por isso talvez seja mais complexo de ser explicado
do que uma atividade relacionada ao cotidiano”, disse.
Para testar essas hipóteses, os pesquisadores pretendem ampliar
a coleta de dados aplicando questionários em pacientes com registro
de primeiro surto psicótico, com o objetivo de esclarecer se
outros tipos de relatos, como de memórias antigas, podem se equiparar
ao sonho em termos de informação psiquiátrica.
Eles também querem verificar se podem usar o método para
identificar sinais ou grupo de sintomas (pródromo) e acompanhar
efeitos de medicações.
“Pretendemos investigar em laboratório, com eletroencefalografia
de alta densidade e diversas técnicas de mensuração
de distâncias semânticas e análise de estrutura
de grafos, de que forma os estímulos recebidos imediatamente
antes de dormir influenciam os relatos de sonhos produzidos ao despertar”,
disse Sidarta Ribeiro, pesquisador do Instituto do Cérebro
da UFRN.
“Estamos particularmente interessados nos efeitos distintos
de imagens com valor afetivo”, afirmou Ribeiro, que também
é pesquisador associado do Neuromat.
O artigo Graph analysis of dream reports is especially informative
about psychosis (doi: 10.1038/srep03691), de Mota e outros, pode
ser lido na revista Scientific Reports em www.nature.com/srep/2014/140115/srep03691/full/srep03691.html
- com mais detalhes e gráficos sobre a pesquisa em andamento.

Pesquisadores brasileiros desenvolvem técnica
de análise matemática de relatos sobre sonhos, capaz de
auxiliar na identificação de sintomas de esquizofrenia
e bipolaridade
Fonte:
http://agencia.fapesp.br/18760
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