14/03/2014
Francisco mudou ambiente sombrio da Igreja,
diz Leonardo Boff
por Astrid Prange
para Deutsche Welle
Em entrevista à DW, um
dos principais críticos do conservadorismo católico afirma
que, em apenas um ano, papa conseguiu reaproximar padres e bispos do
povo. Para isso, vivência na América Latina foi fundamental.
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Em 13 de março de 2013, Francisco
foi eleito papa. E em apenas um ano à frente do Vaticano, colocou
em discussão uma série de assuntos antes deixados de lado
pela Igreja, dando início a um processo de transformação
da instituição e do papel do pontífice.
Em entrevista à DW, Leonardo Boff, um dos expoentes
da Teologia da Libertação e um dos principais críticos
do conservadorismo católico, diz que Francisco tornou a Igreja
mais viva ao fazer uma reforma do papado.
"Francisco não vestiu
o figurino clássico do 'papa monarca' com o primado jurídico
absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral", afirma Boff,
que em 1992 deixou todos os cargos na Igreja, após ser censurado
pelo Vaticano.
"Ele mudou o clima. Antes o ambiente era severo e sombrio."
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DW: O que mudou na
Igreja Católica no Brasil um ano depois que o papa Francisco
foi eleito?
Leonardo Boff: Ele mudou o clima, o que não
é pouco. Há alívio porque a Igreja como instituição
era vista como um pesadelo. Há alegria, pois antes o ambiente
era severo e sombrio. O que se percebe é que muitos padres e
bispos se tornaram mais acessíveis ao povo, mais tolerantes,
menos doutrinários. O arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, ao
ir a Roma para receber o chapéu cardinalício, viajou de
classe econômica para seguir o exemplo do cardeal Bergoglio, que
sempre viajava assim. Mas talvez seja cedo demais para ter uma impressão
mais precisa das modificações nos hábitos dos padres
e dos cristãos.

Boff: 'Não pretendo ter nenhuma função
na Igreja'
DW: Com o papa, a Teologia da Libertação
pode ressurgir das cinzas?
Leonardo Boff: Ela nunca esteve nas cinzas porque a opressão
continua e os cristãos conscientes se orientavam pela Teologia
da Libertação para dar sentido às suas práticas.
Os teólogos continuaram a publicar, apesar da vigilância
severa do cardeal Ratzinger, que se fez inimigo da inteligência
dos pobres.
Esse é o peso que ele carregará pela história.
Roma tentou por todas as formas liquidar com este tipo de teologia,
mas saiu frustrada, pois o teor evangélico da Teologia da Libertação
depunha contra Roma, que se mostrava indiferente face ao drama dos pobres.
Fala dos pobres, mas nunca quer encontrá-los fisicamente.
DW: Qual foi o papel da Teologia depois que Francisco
assumiu o Vaticano?
Leonardo Boff: Com o novo papa ela ganhou centralidade, pois
ele colocou a questão da justiça social e da igreja pobre
para os pobres no centro das preocupações de seu pontificado.
Ele vai ao encontro dos pobres, abraça-os e beija-os porque são,
segundo suas palavras, "a carne de Cristo". Ao receber em
audiência no dia 11 de setembro de 2013 Gustavo Guiérrez,
um dos fundadores desta teologia, e em seguida o pequeno irmão
de Jesus Arturo Paoli, de 102 anos, que trabalhou durante 45 anos na
linha da libertação na América Latina, o papa deu
sinais claros de que quer prestigiar e até resgatar a Teologia
da Libertação.
DW: O papa quer prestigiar e aumentar o poder dos leigos
porque a falta de padres no continente é grave. Já há
sinais de quais serão esses novos poderes? Eles poderão
celebrar a eucaristia ou outros sacramentos?
Leonardo Boff: A categoria central da visão
de Igreja que o papa representa é a "Igreja como povo de
Deus". Todos pertencem a este povo, que é constituído
principalmente por leigos, homens e mulheres. O papa quer que os leigos,
especialmente as mulheres, participem das decisões da Igreja
e não apenas participem da vida da Igreja. A forma como o fará
não sabemos. Sabemos apenas que ele é surpreendente e
que coisas novas poderão ser esperadas, inclusive a nomeação
de mulheres como cardeais, já que "cardeal" é
na tradição um título, desvinculado do sacramento
da Ordem. Não é preciso ser padre ou bispo para ser cardeal.
Não creio que ele permitirá que leigos celebrem eucaristias,
pois seria um passo demasiadamente ousado. Mas como ocorre nas comunidades
eclesiais de base nas quais não está presente um padre,
ritualiza-se e dramatiza-se a ceia do Senhor. Eu creio, como teólogo,
que tal prática é uma forma de trazer sacramentalmente
Cristo para o seio da comunidade.
DW: Qual a contribuição que a Igreja
da America Latina poderia dar para as reformas do Vaticano?
Leonardo Boff: A maior contribuição que
a América Latina está dando à reforma do Vaticano
é a pessoa do papa Francisco. Ele não começou com
a reforma da Cúria, mas com a reforma do papado. Ele não
vestiu o figurino clássico do "papa monarca" com o
primado jurídico absoluto e com a supremacia doutrinal e pastoral.
Ele se entende com bispo de Roma e quer presidir na caridade. É
importante observar que esse papa cresceu dentro do caldo cultural e
eclesial da Igreja latino-americana, cujo rosto é muito diferente
da Igreja da velha cristandade europeia. É uma Igreja viva, com
comunidades de base, com pastorais sociais fortes, com figuras de bispos
proféticos e com mártires da perseguição
das ditaduras militares.
DW: Que características o papa Francisco trouxe
para o pontificado?
Leonardo Boff: Ele traz ao Vaticano hábitos
novos, evangélicos e proféticos. Ele se entende como um
homem comum que gosta de estar junto com outros homens comuns, partilhando
de suas buscas e perplexidades. Mais que ensinar, ele quer aprender
no diálogo e na convivência. Estes traços pastorais
são típicos da maioria dos bispos da América Latina.
Com isso ele está resgatando o rosto humanitário, misericordioso
e afável da severa institucionalidade da Igreja. Penso que ele
será o primeiro de muitos papas que virão do terceiro
mundo, pois aqui vive a maioria dos católicos.
DW: Na sua opinião, qual seria a reforma mais
importante que a Igreja Católica teria de fazer?
Leonardo Boff: Eu creio que haverá uma nova
forma de direção da Igreja, não mais monárquica,
mas colegial. Quer dizer, o papa não dirigirá a Igreja
sozinho, mas com um colégio de cardeais, bispos, leigos e mulheres.
Ele insinuou claramente isso dizendo que deve haver mais corpos de decisão
na Igreja junto com ele.
DW: O Brasil ou a América Latina poderiam ser
pioneiros em alguma delas?
Leonardo Boff: Na América Latina temos acumulado
boas experiências de pastoral de conjunto, seja no nível
nacional, seja no continental. Quanto ao celibato, já foi dito
que não é uma questão fechada como o era no tempo
de João Paulo 2º, que proibia sequer levantar tal questão.
A meu ver o caminho será mais ou menos este: primeiro convidará
os cem mil padres casados do mundo inteiro que possam, e que queiram,
para reassumir o ministério.
Este seria o primeiro passo. Em seguida permitiria o celibato opcional.
Não haveria mais a lei do celibato obrigatório. Para este
papa a Igreja é de todos, especialmente daqueles que foram postos
de lado. A Igreja é uma casa aberta para todos. Todos podem entrar
sem prévias condições.
DW: O sr. estaria disposto a assumir um cargo de liderança
nesse processo de reformas?
Leonardo Boff: Não espero nem pretendo ter nenhuma função
na Igreja. Basta-me a palavra livre.
Fonte:
http://www.dw.de/francisco-mudou-ambiente-sombrio-da-igreja-diz-leonardo-boff/a-17492335?maca=bra-newsletter_br_Destaques-2362-html-newsletter
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