07/03/2014
A difícil vida dos cristãos
na Coreia do Norte e na China
Em muitos países do mundo, os cristãos não
podem exercer livremente a sua religião. Em dois estados comunistas
na Ásia, a Coreia do Norte e a China, muitos preferem viver sua
fé na clandestinidade a sofrer perseguições.

Cristãos durante uma missa de domingo na
igreja Chilgol em Pyongyang.
Antes da guerra da Coreia, a capital norte-coreana foi o centro das
atividades dos missionários protestantes e é agora oficialmente
ateísta
Os poucos cristãos que vivem na Coreia do Norte
têm que permanecer incógnitos. Oficialmente, são
considerados inimigos do Estado. David Atkinson está muito preocupado
com o destino dos cristãos neste país asiático.
O teólogo evangélico é responsável por informações
e pesquisas no ramo alemão da organização interdenominacional
internacional Missão Portas Abertas, dedicada a apoiar cristãos
perseguidos em países onde o cristianismo é legalmente
desencorajado ou reprimido.
Há mais de uma década, a Coreia
do Norte ocupa a primeira posição na Classificação
de Países por Perseguição, anualmente divulgada
pela Portas Abertas. Lá há muito que fazer, segundo Atkinson.
“Nossos irmãos e irmãs de fé no local dizem:
precisamos de suas orações," diz.
Por esta razão, a Portas Abertas organiza com frequência
grandes convocatórias de oração. Centenas de multiplicadores
– entre eles pastores e trabalhadores das igrejas - levam os pedidos
de oração para as suas comunidades predominantemente evangélicas.
As intenções estão voltadas para a mesma direção:
a Coreia do Norte.
O líder do Estado e do partido no poder, Kim Jong Un, segue a
tradição de seu pai e avô. Com cerca de 24 milhões
de habitantes, o país permanece fechado.
A ideologia do Estado domina a vida social. Aos poucos cristãos,
não restam muitas escolhas, senão permanecerem tão
desconhecidos quanto possível. São considerados forças
reacionárias. Assim, o perigo ameaça-lhes a vida e a integridade
física.

Mulher faz oração diante da igreja
Sheshan, em Shangai na China
Número de cristãos incerto
O número exato de cristãos vivendo na
Coreia do Norte é difícil de calcular, para não
dizer impossível. As estatísticas oficiais registram 15
mil cristãos, dos quais dois terços seriam evangélicos.
Já de acordo com as estimativas da Portas Abertas, “são
pelo menos 200 mil cristãos."
Outros especialistas, no entanto, consideram este
número muito alto. É o caso do professor e diretor do
Instituto Internacional de Liberdade Religiosa, na Alemanha, Thomas
Schirrmacher.
Segundo o professor, existem estimativas de algumas
organizações que se baseiam principalmente nas informações
fornecidas por refugiados que deixaram o país pela fronteira
para a China, o que torna “difícil de verificar, porque
não há uma metodologia."
Se por um lado as declarações dos refugiados não
podem ser consideradas como dados científicos, o professor Schirrmacher
acredita que é possível saber comparando “quantos
campos de detenção há, quantas pessoas estão
nesses campos e quantos deles são presos políticos –
e os cristãos contam como presos políticos."
Sobre os internados, há números da Human Rights Watch,
“que estima um total de 600.000 a 700.000 presos," afirma
o professor.
O número de cristãos teria se mantido entre 10 a 12% deste
total, segundo Thomas Schirrmacher. Isso sugere que, atualmente, mais
de 80.000 cristãos podem ter desaparecido atrás do arame
farpado que cerca os campos de detenção.

Cristão norte-coreano em momento de oração
O risco da fé
A organização internacional cristã
Portas Abertas está ativa em 60 países, com cerca de 1.000
funcionários e teria bons contatos não-oficiais com os
cristãos na Coreia do Norte e com os refugiados norte-coreanos.
David Atkinson salienta que os cristãos
são considerados inimigos do Estado. “Eles são dissidentes
políticos, vivem em um Estado totalitário e têm
um outro rei. Eles têm Jesus Cristo como seu rei e isso não
é bem visto," explica.
Exceto em quatro paróquias instaladas pelo governo, desde 1988,
na capital Pyongyang, a vida da comunidade cristã seria impossível.
Um sofisticado sistema de vigilância por parte da polícia,
agentes secretos e comitês de vizinhos força os fiéis
à clandestinidade, revela Atkinson.
Eles apenas podem viver em círculos residenciais ocultos. “Outros
são conectados em grupos de dois, de modo que os riscos sejam
menores. E então, podem passear. Parece que estariam falando
sobre o tempo, mas eles podem trocar pedidos de oração
e estar lá uns para os outros como irmãos e irmãs,"
diz.

Muitas vezes, possuir uma Bíblia é
suficiente para que
toda uma família desapareça em um dos campos de
trabalho da Coreia do Norte, afirma especialista
Inteligência secreta a serviço
do controle religioso
Para Thomas Schirrmacher não há dúvidas
de que “a Coreia do Norte aprendeu com a China dos anos 1960 e
1970, a forma de se infiltrar nas comunidades para obter as informações
necessárias."
De acordo com Schirrmacher, os refugiados norte-coreanos
que estão na região da fronteira chinesa, relatam o quão
restritivo é o procedimento do Estado com os cristãos.
Muitas vezes, possuir uma Bíblia é suficiente para que
toda uma família desapareça em um dos campos de trabalho.
Segundo o professor Thomas Schirrmacher, o serviço
secreto norte-coreano seria ativo também no lado chinês
e trabalharia lá, aparentemente com a tolerância da China,
para encontrar e trazer de volta os refugiados
Às vezes, os proprietários das Bíblias que se encontram
presos nos campos são executados, mas mais frequentemente morrem
por meio de trabalhos pesados.
"O fato de que as pessoas que por isso foram atacadas algum tempo
depois já não estejam mais vivas, a este respeito há
testemunhas suficientes," garante ele.
A fronteira da Coreia do Norte com a China tem mais de 1.400 quilómetros
de extensão. Assim, seria possível que os norte-coreanos
sempre pudessem deixar o país – de forma considerada ilegal.
Eles se tornaram, porém, a principal fonte de informação
para os internos norte-coreanos.
Disso sabia também o regime. Por isso, o serviço secreto
norte-coreano seria ativo também no lado chinês e trabalharia
lá, aparentemente com a tolerância da China, para encontrar
e trazer de volta os refugiados, explica o professor de Bonn, Thomas
Schirrmacher.
“Houve também círculos de oração que
foram fundados e liderados por agentes da Coreia do Norte para capturar
refugiados cristãos do norte,” revela David Atkinson.

Também na China, os cristãos sofrem
intimidações e são perseguidos
Situação melhor na China
Na República Popular da China, mais de 50 milhões
de chineses estão a praticar a sua fé cristã e
a situação dos cristãos é claramente melhor
do que na Coreia do Norte.
No entanto, muitos cristãos também preferem
permanecer incógnitos na China. Eles não querem se conectar
às igrejas controladas pelo Estado, arriscando-se à perseguição,
à opressão e à prisão.
Foi o que vivenciou o pastor Yun. A partir de 1984, ele ficou preso
por quatro anos como um suposto contra-revolucionário em um campo
para a chamada "reeducação por meio do trabalho".
Em 1991, ele foi novamente enviado para o campo de trabalho. Desta vez,
pesavam contra o pastor acusações de "perturbar a
ordem social", e de "subversão".
A terceira prisão ocorreu em 1997. Desta vez, ele se aventurou
numa fuga e escapou. Finalmente, o pastor Yun encontrou asilo na Alemanha.
Sua biografia "O Homem do Céu" foi traduzida em 50
idiomas e é um dos livros cristãos mais vendidos em todo
o mundo.
Yun era o chefe de uma igreja doméstica protestante na província
de Henan, localizada no norte da China. Essas paróquias se contrapõem
às igrejas estatais.

Cristãos fundaram e até hoje fundam
as igrejas domésticas
– na clandestinidade. Na foto, o coral da igreja doméstica
Shouwang,
em Pequim, na China.
Igrejas ilegais
O Movimento Patriótico da Tríplice Autonomia
Igreja Protestante e a Associação Patriótica Católica
Chinesa foram estabelecidos na década de 1950, sob a direção
do Partido Comunista da China para isolar as igrejas no país
e controlá-las tão completamente quanto possível.
Para muitos cristãos, esta interferência
política vai longe demais. Também Yun não queria
ter nada a ver com esta igreja. Segundo o pastor, "não eram
os cristãos que conduziam as igrejas oficiais, mas comunistas
que acreditam no marxismo-leninismo".
Cristãos como ele, fundaram e até hoje fundam as igrejas
domésticas – na clandestinidade. Estas igrejas não
são registradas junto ao governo, nem reconhecidas oficialmente
e, portanto, são ilegais.
A igreja doméstica Shouwang em Pequim, por exemplo, tem mais
de 1.000 membros. Foi tolerada por muitos anos. Mas desde 2011, os membros
vêm sendo intimidados e perseguidos.
O pastor e os anciãos estariam há mais de dois anos em
prisão domiciliar, relata Bob Fu, fundador da China Aid, uma
organização contra a perseguição de cristãos
com base nos Estados Unidos.
Nem mesmo as igrejas protestantes oficialmente reconhecidas são
poupadas. Recentemente, foi preso o pastor Zhang Shaojie, presidente
da Igreja Patriótica local em Puyang, uma cidade na província
de Henan.
Ele tentava proteger os fiéis da arbitrariedade e da perseguição
das autoridades. Além disso, há cada vez mais conflitos
entre a Igreja e as autoridades por causa dos reassentamentos forçados,
da corrupção e de outras injustiças.

Oficialmente, a liderança do Papa
sobre as Igreja Católica
da Associação Patriótica da China não é
reconhecida.
Cresce o número de cristãos
Apesar de todas as dificuldades, o número
de cristãos na China está aumentando. Alguns autores calculam
em mais de 100 milhões. De acordo com o Escritório Nacional
de Assuntos Religiosos, há cerca de 23 milhões de chineses
oficialmente registrados como protestantes.
Além disso, segundo um estudo realizado pela Academia Chinesa
de Ciências Sociais, pelo menos 45 milhões de protestantes
estão organizados em igrejas domésticas.
O número de católicos na China é estimado em cerca
de 12 milhões, diz o padre Anton Weber da organização
católica China-Zentrum (Centro-China, na tradução
literal), no estado alemão da Renânia do Norte-Vestefália.
O número de católicos registrados deve ser em torno de
seis milhões, tão alto quanto o das igrejas católicas
clandestinas. A China não tem relações oficiais
com o Vaticano. E oficialmente, a liderança do Papa sobre a Igreja
Católica da Associação Patriótica da China
não é reconhecida.
Mas, o padre Weber considera isso, no entanto, pura teoria uma vez que
"eles rezam pelo Papa, querem permanecer fiéis e não
apenas entre os católicos clandestinos, mas também entre
os católicos das igrejas oficiais."
Perseguições a clérigos
Isto não foi sempre assim, enfatiza o padre
Anton Weber. Houve um tempo em que não era permitido rezar pelo
Papa. Quem desobedecia ou não se submetia, era perseguido, diz
ele. As perseguições eram dirigidas principalmente contra
os clérigos das igrejas cristãs, ou seja, contra padres
e bispos.
De acordo com
o padre, "alguns são condenados a alguns anos de prisão,
ou são abusados ou colocados sob prisão domiciliar, ou
obrigados a fazer cursos de formação similares a uma lavagem
cerebral."
Vários padres e bispos – sobretudo das igrejas clandestinas
– estão atualmente sob custódia, afirma o padre
Weber. Recentemente, Dom Liu Guandong da Diocese de Yixian morreu com
mais de 90 anos de idade. Ele passou 30 anos na prisão.
Em 1981, foi libertado, mas permaneceu sob forte observação.
Desde 1997, estava escondido. "Liu rejeitou qualquer tipo de compromisso
com as autoridades," conta Weber que conhece muitos destinos semelhantes.
A reforma da economia e a consequente abertura da República Popular
da China levou a um certo abrandamento. Mas, quanto à política
religiosa do Partido Comunista, Bob Fu da China Aid não vê
uma mudança fundamental.
Atualmente, o pastor Yun vive em Frankfurt. Ele mantém contato
com sua igreja doméstica evangélica na província
de Henan pela internet, porque não pode voltar para a China.

Culto pela manhã de domingo na igreja
Mu'en no centro de Shangai, na China
Fonte: http://dw.de/p/1BCHs
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