04/03/2014
País vive 'apagão' no tratamento
de doentes com transtornos mentais
Segundo projeções, seriam necessários
mais 43 mil leitos psiquiátricos para atender a demanda. Para
especialista, casos simples sobrecarregam sistema; consulta com psiquiatra
no SUS pode demorar até um ano.
por Cláudia Collucci
Folha de São Paulo
Treze anos após a aprovação da lei que deu início
à reforma psiquiátrica, que prioriza o atendimento comunitário
em detrimento das internações, o país vive um "apagão"
nos cuidados aos doentes com transtornos mentais.
Hoje há cerca de 27 mil leitos psiquiátricos, sendo 20
mil ocupados por doentes crônicos. Segundo projeções,
seriam necessários 70 mil leitos para atender a atual demanda
de doentes mentais.
Na década de 90, o país tinha 200 mil leitos. Mas a realidade
era cruel. Os pacientes viviam em manicômios, longe do convívio
familiar e social.
Com a reforma psiquiátrica, esses locais foram sendo fechados,
mas o país ainda não conseguiu criar uma rede eficiente
de atenção à saúde mental que garanta, por
exemplo, consultas e tratamento com psiquiatras e psicólogos
no SUS e leitos para situações de emergência.
O debate reaqueceu nos últimos dias com a posse do novo ministro
da Saúde, Arthur Chioro, conhecido militante da luta antimanicomial
e que já se posicionou contra os hospitais psiquiátricos.
O temor dos médicos é que haja ainda mais cortes de leitos.
Segundo o Ministério da Saúde, as posições
de Chioro estão em acordo com a atual política de saúde
mental.
O vácuo assistencial pode ser visto nas emergências dos
hospitais gerais e psiquiátricos, para onde vão doentes
agudos (em surto psicótico).
"Ficam ali agitados, circulando no meio de outros pacientes,
até surgir uma vaga de internação", conta
o psiquiatra Rodrigo Bressan, que coordena o programa de esquizofrenia
da Universidade Federal de São Paulo.
Os doentes menos graves, após estabilizados com remédios,
têm alta e orientação para procurar ambulatórios
ou os Caps (Centros de Atenção Psicossocial). Mas como
não encontram vagas ou não aderem ao tratamento, surtam
e voltam aos prontos-socorros.
"É uma porta giratória. Entram, saem e voltam
em pior situação. Ninguém quer o que existia
antes, mas a realidade hoje também é cruel", afirma
o psiquiatra Quirino Cordeiro Júnior, chefe do departamento
de psiquiatria da Santa Casa de São Paulo.
SUPERLOTAÇÃO
A Santa Casa gerencia dois dos maiores prontos-socorros psiquiátricos
do país, que, juntos, atendem cerca de 2.000 pacientes por mês.
"Estão sempre superlotados, trabalhamos com o triplo
da capacidade", conta.
Segundo ele, muitos casos simples (renovação de receita,
por exemplo) sobrecarregam os PSs e poderiam ser atendidos na rede básica,
se houvesse estrutura. Uma consulta com psiquiatra no SUS chega a demorar
um ano.
"Os Caps são muito importantes, mas estão sendo
negligenciados.
São poucas unidades, poucos profissionais e uma estrutura física
precária", diz o promotor público Luiz Roberto
Faggioni, que já instaurou inquérito civil para apurar
as irregularidades.
A situação de caos não é exclusiva de São
Paulo e se repete em todo o país, segundo Antonio Geraldo da
Silva, presidente da Associação Brasileira de
Psiquiatria.
"Hoje não temos leitos, não temos consultas, não
temos nada. É um apagão. Em vez de fechar os hospitais
psiquiátricos, o governo deveria qualificá-los e readequá-los."
Ele defende um sistema em rede, com atendimento primário, secundário
e terciário - como prevê, no papel, a atual política.
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DEPOIMENTO
'Já vi meu filho fazendo um plano para me matar
As marcas dos surtos psicóticos estão por toda a parte.
No rombo do box do banheiro, nos vidros quebrados, na porta estourada
a marteladas.
Há três anos, a dona de casa Ismerita Ferreira Santos,
53, tenta em vão internar o filho Julio, 22, dependente químico
com transtorno bipolar e sintomas psicóticos, segundo laudo.
A seguir, o depoimento.
"O Júlio sempre foi um ótimo filho, só
tirava nota alta na escola, mas, aos 18 anos, começou a sair
com os amigos para as baladas e a beber. Depois, descobri que ele
usava maconha.
Chegou a transformar o guarda-roupas numa plantação
da droga. Com o tempo, passou a usar cocaína, LSD e até
crack. Agora parou de usar drogas, mas bebe muito. Pinga, inclusive.
Já o vi várias vezes falando sozinho e elaborando um
plano para me matar.
Ele teve vários surtos, em que fica muito violento. Já
apanhei dele e fiquei com vários hematomas. Ele também
já bateu no meu filho caçula e na minha filha.
No ano passado, foi morar com o pai que, pelo menos, tem força
física para enfrentá-lo.
Em duas ocasiões, ele foi para a emergência do hospital,
dopado, mas liberaram no dia seguinte porque não havia vaga
para a internação.
Também não consigo levá-lo até um Caps
(Centro de Atenção Psicossocial). Uma vez tentei
enganá-lo, mas ele descobriu e me bateu na rua. Luto agora
para que ele seja internado compulsoriamente, é a única
chance.
Mas até isso é difícil porque é preciso
um laudo psiquiátrico para o juiz autorizar. E eu não
consigo levá-lo até um psiquiatra. Amo meu filho, mas
não sei mais o que fazer."
'Hospital não é lugar para morar',
diz Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde afirma que a queda
de leitos psiquiátricos aconteceu - e vai continuar acontecendo
- em razão da nova política criada após a reforma
psiquiátrica.
Helvécio Magalhães, secretário
de atenção primária do Ministério da Saúde,
diz que a meta é acabar com as "moradias dentro dos hospitais".
"Hospital não é lugar de morar.
Os leitos desativados não tinham condições de
tratar os pacientes. Agravavam mais a situação clínica
deles."
Magalhães admite, contudo, que o número
de leitos para os pacientes psiquiátricos agudos é insuficiente
e que o ministério pretende ampliá-lo.
Mas não há metas nem prazos estabelecidos.
Segundo ele, o ministério ampliou de 400 para 2.000 o número
de Caps no país e de 400 mil para 40 milhões os atendimentos
psiquiátricos.
"Não é o ideal, mas o caminho
está bem estabelecido."
Magalhães disse também que faltam psiquiatras
no SUS e que os ministérios da Saúde e da Educação
estão dobrando o número de residências médicas
nessa especialidade - hoje são em torno de 200.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/151544-pais-vive-apagao-no-tratamento-de-doentes-com-transtornos-mentais.shtml
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