03/01/2014
María R. Sahuquillo
EL PAIS
O consumo de antidepressivos disparou na Espanha. Desde que se ampliou
o diagnóstico da depressão e sua prescrição
nos centros de atendimento básico na década de 1990, o
uso desses medicamentos sofreu uma escalada constante. Seu uso duplicou
em uma década. Das 30 doses diárias para cada mil habitantes
registrados em 2000, passou-se para 64 em 2011, segundo os últimos
dados da OCDE.
Esse aumento havia sido progressivo - desde o grande salto provocado
pelo crescimento e a popularização de medicamentos como
a fluoxetina no final dos anos 1980, desde o início da crise
a escalada foi um pouco maior. Entre 2008 e 2009 a venda de antidepressivos
nas farmácias aumentou 5,7%, e entre 2009 e 2010, 7,5%; até
37,8 milhões de embalagens, segundo dados da consultoria de referência
do setor IMS Health. Em 2012 foram superados, em muito, os 38 milhões.
A extensão do diagnóstico do que se considera uma depressão,
a medicalização do sofrimento mais cotidiano e a indicação
desses produtos para outras patologias (como para alguns transtornos
endocrinológicos ou para a fibromialgia) são algumas das
razões com as quais os especialistas explicam esse aumento, que
também ocorreu em toda a Europa.
Mas, enquanto seu consumo não diminui, a utilidade e a eficácia
desses medicamentos para combater as depressões leves e moderadas
são questionadas. "El País", junto a outros
cinco grandes jornais que participam do Projeto Europa (The Guardian,
Le Monde, La Stampa, Gazeta Wyborcza e Süddeutsche Zeitung), perguntou
durante várias semanas aos leitores se prescreveram (aos médicos)
ou tomaram antidepressivos - e se funcionaram. Mais de 4.000 pessoas
da Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha contribuíram
com suas experiências por meio de um questionário online.
A maioria delas afirma que os medicamentos as ajudaram, embora particularmente
aquelas que os acompanharam de outro tipo de terapia.
Nos últimos anos, várias pesquisas científicas
analisaram a eficácia ou o benefício dos antidepressivos
para combater os sintomas leves ou moderados da depressão - para
os casos graves não está em questão. As conclusões
foram semelhantes em todos eles: por si só, sua eficácia
é muito limitada. Foi o que determinou, por exemplo, um amplo
estudo realizado em 2008 por pesquisadores britânicos sobre três
dos princípios ativos que eram os mais vendidos no momento, embora
hoje não mais: fluoxetina (o popular Prozac, que durante anos
foi chamado de "pílula da felicidade"), venlafaxina
(Efexor) e paroxetina (Serotax, também conhecida como "pílula
da timidez").
A análise, publicada na revista "Plos Medical", determinou
que, para os pacientes que não tinham sintomas graves, os antidepressivos
eram tão úteis quanto uma colher de açúcar;
isto é, um placebo. Outro trabalho mais recente, realizado por
especialistas da Nova Zelândia com dados de 14 mil pessoas que
consumiram antidepressivos durante mais de um ano, determina que esse
tratamento farmacológico não representa uma melhora em
longo prazo nos pacientes com transtornos de estado de ânimo.
"Há um consumo indicado pelos médicos,
mas reclamado pelo paciente, para problemas relacionados ao sofrimento
e à dor. Para enfrentar um luto, para diminuir o mal estar
depois de uma ruptura amorosa, também para os problemas do
trabalho", aponta Eudoxia Gay, presidente da Associação
Espanhola de Neuropsiquiatria (AEN).
Os médicos, reconhece, os prescrevem para enfrentar
essas realidades e também para os sintomas leves e moderados.
E essas substâncias, explicam no laboratório Lilly, que
é fabricante de alguns deles, são indicadas para o transtorno
depressivo maior.
"Para isso sim, são úteis. Mas,
embora seja preciso revisar caso a caso, para reduzir o sofrimento
cotidiano, assim como para os quadros menores de ansiedade, são
mais eficazes outras terapias que melhoram e não tornam crônico
o sofrimento humano, que hoje é tão mal tolerado e ao
qual se reage com soluções farmacológicas",
continua Gay.
Exemplo disso é que, no mesmo ritmo em que cresceram
os antidepressivos também o fizeram os ansiolíticos (cujo
uso aumentou 37,3% de 2000 a 2011) e os medicamentos hipnóticos
e sedativos, que aumentaram 66,2%, segundo um estudo de pesquisadores
da Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários.
De fato, um relatório da Junta da Andaluzia resume que a depressão
ou os transtornos ansiosos-depressivos são a terceira causa de
consultas no atendimento básico.
O psiquiatra Alberto Ortiz Lobo diz acreditar que, sob o rótulo
de "depressão", estão transformando emoções
normais em patologias. Afirma que nos anos 1990 a indústria farmacêutica
e algumas sociedades médicas fizeram programas específicos
e campanhas de difusão para ajudar a detectar a depressão.
"Desde então foi um sem parar, porque se ampliaram os limites
do que se considera uma depressão. Agora, sob esse guarda-chuva,
se mete qualquer sintomatologia de tristeza ou desânimo que se
possa ter, mesmo que seja sã, legítima e proporcional",
diz. Tanto a detecção atual da depressão como a
prescrição de antidepressivos, aponta, são parâmetros
que estão longe das cifras de predominância dessa patologia
na população geral dos estudos epidemiológicos
clássicos, que afirmam que afetaria entre 3% e 9% da população.
José Antonio Sacristán, diretor médico da Lilly
Espanha, aponta outros fatores que poderiam ter contribuído para
o aumento do uso desses medicamentos.
"Primeiro porque os atuais são mais seguros
e mais bem tolerados que os primeiros antidepressivos", diz.
Segundo, afirma, "porque se demonstrou sua eficácia e
foram aprovados pelas agências reguladoras para o tratamento
de outras patologias mentais, como os transtornos de ansiedade".
Em outros países, com algumas tímidas
exceções, como a Holanda, a situação é
semelhante. Na Alemanha, Bélgica ou Reino Unido, o consumo de
medicamentos indicados para esse problema aumentou tanto quanto na Espanha.
"Costumam-se prescrever essas substâncias
com muita facilidade. Muitas vezes os pacientes pensam que, se estão
sendo medicados e não funcionam, é porque precisam de
algo mais forte, e não porque talvez não estejam deprimidos",
comenta Alain Vallée, psiquiatra em Nantes e um dos mais de
cem profissionais de saúde que responderam à pesquisa
feita pelos seis jornais europeus.
A maioria deles, como nota "The Guardian"
- que verificou e fez um tratamento profundo dos dados -, afirma que
em grande parte da Europa há uma ampla "cultura da prescrição".
Apontam que os antidepressivos são um bom recurso, e necessário,
para tratar a depressão severa, mas também falam de sua
frustração para abordar os casos leves, devido aos recursos
escassos, tanto de tempo como de disponibilidade de outras terapias.
Na Espanha, o grosso da prescrição de antidepressivos
se dá no atendimento básico. De fato, só 30% desses
medicamentos são receitados por especialistas. Os recursos não
são abundantes: na saúde pública há menos
de seis profissionais de saúde especializados em saúde
mental (psicólogos clínicos ou psiquiatras) para cada
100 mil habitantes. Esse número, aponta Carlos Mur, diretor científico
da Estratégia Nacional de Saúde Mental do Ministério
da Saúde, Serviços Sociais e Igualdade, não é
crítico, mas está longe da de países como os nórdicos.
Na Suécia, por exemplo, há quase o dobro.
Mur - que afirma que, mais que um aumento de pessoal, é preciso
melhorar a gestão dos atuais - esclarece que essa cifra é
obtida por estimativa. Não há dados oficiais que permitam
contabilizar de maneira clara os serviços de saúde mental
que há no país, embora a estratégia que coordena
esteja realizando um estudo para poder desenhar um mapa claro.
Um estudo da Associação Espanhola de Neuropsiquiatria
de 2010 falava de dados semelhantes aos que Mur menciona, mas também
mostrava outro ângulo importante: a grande diferença entre
comunidades autônomas. Um exemplo: na Galícia contabilizaram
2,3 psiquiatras trabalhando para a saúde pública para
cada 100 mil habitantes; em Astúrias, 5,2.
Laura Crespo tomou antidepressivos durante mais de seis meses. Seu médico
de família os receitou quando diagnosticaram câncer em
sua mãe.
"Na época a medicação me
ajudou. Não levantava a cabeça, estava muito triste
e precisava me recuperar rápido para poder assumir com ela
o tratamento; para poder acompanhá-la e sustentá-la",
conta. Não fez outra terapia. "A verdade é que
preferia o tratamento com remédios", admite.
Carlos R. foi ao centro de saúde porque estava
triste e desanimado. "Estava deprimido...", resume. "Receitaram-me
antidepressivos, mas depois, por minha conta, decidi ir ao psicólogo.
Creio que foi isso que mais me ajudou, embora estivesse combinando
as duas coisas até que deixei progressivamente a medicação",
conta. Em seu caso foram problemas de trabalho e de família
que provocaram o sofrimento. "Continuo indo ao psicólogo,
mas espaçamos as visitas", diz.
"Mesmo que em alguns casos possam ajudar a superar uma situação
pontual, os medicamentos não vão solucionar as depressões
ou problemas cuja origem seja social ou psicológica. Além
disso, são medicamentos que, embora tenham se aperfeiçoado
muito, têm efeitos adversos e seu tratamento não pode
ser descontinuado de repente", esclarece Mur.
Esse especialista, que também é gerente
de um instituto psiquiátrico em Leganés (Madri), afirma
que cada vez mais médicos de atendimento básico encaminham
aos serviços de saúde mental - embora a grande maioria
tenha pautado o tratamento farmacológico - e que recomendam outras
terapias que podem ajudar a superar o problema ou conseguir maior bem-estar.
"Estão ganhando terreno a psicoterapia
e opções como o ioga ou a conscientização",
diz.
Para Adrián, funcionário público
de 43 anos, o médico recomendou vários livros, e Lucía,
17, foi encaminhada ao consultório de saúde mental de
seu ambulatório.
"Lá, a psicóloga me disse para
assistir vários filmes, todos protagonizados por mulheres;
a ideia é que eu adquirisse referências", conta.
O psicólogo Antoni Bolinches, que escreveu vários
livros de autoajuda, como "Tú y yo somos seis" ou "Peter
Pan puede crecer", afirma que nas depressões leves ou moderadas
os medicamentos tratam os sintomas, mas não a causa. Por isso,
às vezes, quando o tratamento acaba o problema continua existindo.
"As depressões exógenas ou reativas,
isto é, aquelas que vêm de fora, de algo que o está
afetando ou que lhe aconteceu, deveriam ser tratadas principalmente,
ou também, psicologicamente. Porque se o paciente aprende a
lidar com o problema obtém o dobro de benefícios: o
supera, mas também aprende", diz. Entretanto, reconhece
que há pessoas que preferem tomar medicação.
"Criamos um modelo social em que não estamos acostumados
com o esforço e as dificuldades, por isso recorremos à
farmacologia", diz.
Gema (que prefere não dar seu sobrenome) conta
que tomou primeiro ansiolíticos e depois antidepressivos durante
quase um ano.
"No meu caso, tudo se juntou: a morte de meu
pai, problemas no trabalho e em minha relação. Falei
com o médico porque estava péssima, e ele os receitou.
Agora estou melhor, sinto-me mais forte para enfrentar as coisas.
A verdade é que, se há algo que pode me ajudar, por
que não deveria usá-lo?", acrescenta.
O psiquiatra Ortiz Lobo diz que os medicamentos para
tratar a depressão induzem certos estados psicológicos.
"Costumam produzir um distanciamento emocional,
para o bem ou para o mal, do que está acontecendo. Se estou
muito triste, isso é positivo, mas já não vivo
tão intensamente. Por exemplo, provoca uma perda do desejo
sexual ou um afastamento de outras coisas", acrescenta.
O especialista diz que uma das dificuldades que os médicos
enfrentam diante dos sintomas que poderiam ser definidos como depressivos
leves ou moderados é saber onde está o limite entre a
normalidade e a patologia.
"Para isso é preciso fazer uma avaliação
do indivíduo, há necessidade de tempo e também
de acompanhamento", afirma. E, às vezes, nenhuma das duas
partes tem facilidade para preencher esse vazio.
Mur diz que dentro da revisão da estratégia
de saúde mental que está sendo feita há várias
linhas destinadas a melhorar a colaboração e a interação
entre o atendimento primário e o especializado. Com isso melhorará
a atenção dessa patologia, aponta. Ele reconhece, entretanto,
que o texto que coordena e serve de pauta para abordar os transtornos
mentais se concentra sobretudo nos graves.
"A abordagem dos sintomas leves ou moderados
de depressão é uma matéria pendente, apesar de
ser um problema social crescente", diz.
Fonte:
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2013/12/26/comprimidos-para-as-dores-da-vida-cresce-o-consumo-de-antidepressivos-na-europa.htm
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