08/12/2013
Selecionamos 3 textos comentando a história
e o exemplo de Nelson Mandela, por ocasião de seu falecimento:
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por Ludger Schadomsky
Deutsche Welle
"Madiba" marcou a história
sul-africana como símbolo da luta contra o apartheid e como primeiro
presidente negro do país.
Com sua morte aos 95 anos, África do Sul e Congresso
Nacional Africano perdem símbolo moral.
Nelson Mandela, o ídolo reverenciado da luta antiapartheid sul-africana
e uma das mais importantes figuras políticas do século
20, morreu nesta quinta-feira (05/12), aos 95 anos, disse o presidente
da África do Sul, Jacob Zuma. "Ele agora está descansando.
Ele está agora em paz", afirmou Zuma, com ar sombrio, ao
fazer o anúncio em intervenção televisiva.
"A nossa nação perdeu o maior dos seus filhos",
acrescentou. "O nosso querido Madiba vai ter um funeral de Estado",
pormenorizou, anunciando que a bandeira sul-africana vai estar a meio-pau
a partir de sexta-feira e até as suas exéquias.
O ex-líder sul-africano abriu o primeiro
escritório
de advocacia para negros em Johannesburgo
Quando Gadla Mandela batizou seu filho de "Rolihlahla",
em julho de 1918, ele certamente não tinha ideia do quanto este
faria honra ao nome. No idioma da nação xhosa, "Rolihlahla"
significa "aquele que parte os galhos", ou, em tradução
menos literal, "o que cria muita confusão". E o visionário
ativista "Madiba" – nome de clã de Nelson Mandela,
um apelido carinhosamente adotado por todo o povo da África do
Sul – causou muita confusão na injusta sociedade sul-africana
dos anos 1960.
O apartheid – regime de segregação
racial liderado pela minoria branca entre 1948 e 1994 – se vingou,
colocando Mandela atrás das grades durante 27 anos. Tornaram-se
famosas as palavras finais de "Madiba" após a conclusão,
em 1964, do processo Rivonia – no qual foi responsabilizado por
mais de 150 atos de sabotagem e condenado à prisão perpétua.
"Estou disposto a morrer", disse Mandela ao fim de seu discurso
de quatro horas, durante o qual revelou todos os ardis da separação
racial em seu país.
Ainda jovem, Mandela já partia um ramo ou outro. Após
uma infância privilegiada como filho do chefe, nas verdes colinas
de Transkei (sudeste da África do Sul), destacou-se na universidade
como líder de um protesto estudantil. Mais tarde, escapou de
um casamento forçado, fugindo para a metrópole Johannesburgo,
onde em breve se politizaria.
Em 1944, Mandela tornou-se membro do Congresso Nacional Africano (ANC),
atual partido governista com o presidente Jacob Zuma. Em 1948, o Partido
Nacional assumiu o poder, e a partir de então institucionalizou
a separação de raças. Quatro anos mais tarde, após
o batismo de fogo como assistente jurídico num escritório
mantido por judeus, Mandela abriu o primeiro escritório negro
de advocacia de Johannesburgo.
Luta armada contra o apartheid
Essa foi a época dos protestos de massa e campanhas
de desobediência civil do ANC contra o apartheid, nos quais Mandela
desempenhou papel central.
Após a proibição do ANC em 1961,
ele fundou com outros pugilistas amadores a ala militante Umkhonto we
Sizwe (Lança da Nação) e, na qualidade de comandante
da organização clandestina, ordenou operações
de guerrilha contra instituições públicas.
No ano seguinte, viajou secretamente para o exterior, a fim de angariar
apoio financeiro para a formação dos quadros do ANC. Ao
retornar, foi preso e mais tarde condenado no processo diante do tribunal
de Rivonia.
Mandela cumpriu 17 anos de sua sentença na mal-afamada Ilha de
Robben (Robben Island), a cerca de 11 km da capital legislativa sul-africana,
a Cidade do Cabo. No trabalho forçado nas pedreiras, sob sol
ardente, o preso político teve grande parte da visão prejudicada
– o que, mais tarde, levou a uma proibição do uso
de flashes por fotojornalistas.
Durante a detenção, Mandela criou a chamada "Universidade
da Ilha de Robben", ensinando aos presos a ler e a escrever. Hoje,
a cela número 5 da ilha, Patrimônio da Humanidade da Unesco,
é um dos pontos turísticos mais visitados na África
do Sul.
Em 1988, Nelson Mandela começou a ser preparado para a libertação.
Três anos antes, ele recusara um perdão da pena em troca
do abandono da violência por parte do ANC. Seguiram-se negociações
secretas com as autoridades, e em 11 de fevereiro de 1990, após
27 anos de prisão, Nelson Mandela foi libertado sob as ordens
do então presidente Frederik de Klerk, com quem dividiria o Prêmio
Nobel da Paz de 1993 pelos esforços de ambos para acabar com
o apartheid.

Mandela recebe o uniforme da prisão.
Ele ficou 27 anos atrás das grades por lutar contra o apartheid
Após o apartheid, a aids
Após sua libertação,
Mandela pressionou pelo fim da separação racial, o que
levaria às primeiras eleições livres de seu país,
em abril de 1994. Em 10 de maio daquele ano, ele foi empossado primeiro
presidente negro da África do Sul.

No discurso após sua libertação,
em 1990
A partir daí, concentrou-se sobretudo na reconciliação
entre as raças. Juntamente com o arcebispo Desmond Tutu, da Cidade
do Cabo, impulsionou a revisão dos crimes do apartheid na Comissão
da Verdade e da Reconciliação.
Após encerrar o mandato presidencial e despedir-se da política
ativa em 1999, "Madiba" dedicou-se às funções
sociais de sua fundação.
O trabalho é voltado principalmente às
crianças especiais e aos portadores de aids. "Os sul-africanos
travaram uma nobre luta contra o apartheid. Hoje, estão diante
de uma ameaça muito maior", declarou Mandela, cujo segundo
filho, Makgatho, morreu da doença em 2005.
Por sua vez, seu sucessor, Thabo Mbeki, negligenciou
o combate à epidemia que se alastrava. Mas o próprio Mandela
admitiria mais tarde não ter feito o suficiente contra o alastramento
da aids durante seu mandato presidencial.
Na luta contra a miséria na África do Sul, Mandela tampouco
correspondeu às expectativas. O slogan de 1994 do ANC –
"Uma vida melhor para todos" – só se tornou realidade
para uma pequena elite negra. Corrupção crescente, criminalidade
endêmica e ausência de perspectivas de emprego são,
até hoje, uma ameaça para a chamada Nação
do Arco-Íris (definição usada para descrever a
África do Sul pós-apartheid).

Nelson Mandela se tornou o primeiro presidente
negro da África do Sul, em 1994
Símbolo moral
No plano internacional, Nelson Mandela empregou
sua popularidade em prol do Burundi, país africano devastado
pela guerra civil entre 1993 e 2005, e criticou publicamente a política
dos Estados Unidos e do Reino Unido em relação ao Iraque.
Mandela era conhecido pelo seu carisma, tranquilidade e sabedoria. E
pelo jeito descontraído. Mesmo ao receber visitas do mais alto
escalão, preferia vestir as famosas camisas multicoloridas camisas
"Madiba shirts". Em 2004, a popularidade de Mandela e seu
empenho foram decisivos para que a África do Sul fosse escolhida
para sediar a Copa do Mundo de futebol de 2010.
Mandela foi casado três vezes. Com a primeira mulher, Evelyn Ntoko
Mase, ativista do ANC, da qual se divorciou em 1957, teve dois filhos
e duas filhas, sendo que uma morreu ainda bebê. O primeiro filho
de Mandela, Madiba Thembekili, morreu em 1969 em um acidente de carro.
Em 1964 ele se casou com Winnie Mandela, a primeira assistente social
negra de Johanesburgo. Da união, que durou até 1996, nasceram
duas filhas.
Ao completar 80 anos, em 18 de julho de 1998, Mandela casou-se com a
política e ativista dos direitos humanos moçambicana Graça
Machel, que foi ministra da Educação e da Cultura no primeiro
governo do país vizinho da África do Sul após a
independência de Portugal, em 1974. Graça Machel é
também viúva de Samora Machel, ex-presidente de Moçambique
e apoiador do ANC.
Mandela pretendia comparecer à abertura da Copa do Mundo de futebol
em 11 de junho de 2010 em Johanesburgo. Mas na noite anterior, sua bisneta,
Zenani, de 13 anos, morreu em um acidente de carro, o que o levou a
cancelar a participação na cerimônia. Seu estado
piorou visivelmente nesta época.
Em julho de 2011, ele se mudou definitivamente para Qunu, seu povoado
natal, alimentando especulações sobre sua saúde.
A hospitalização mais recente de Mandela foi no final
de março deste ano, durante dez dias, para tratar de uma infecção
pulmonar recorrente, talvez ligada às sequelas de uma tuberculose
contraída durante o encarcerameto na Ilha de Robben. Durante
a última aparição em público, em abril,
Mandela apareceu fisicamente enfraquecido ao receber os mais altos dirigentes
da África do Sul na própria residência.
Com Nelson Mandela, o mundo perde um grande guerreiro pela liberdade.
Sua pátria, a África do Sul, perde, além disso,
uma bússola moral – ainda que o ancião, ultimamente
cercado pelos bisnetos, quase nunca se pronunciasse sobre temas políticos
da atualidade.
Entre os especialistas, fica o temor de que, após a partida de
seu mentor, o ANC de Mandela enverede ainda mais depressa pelo caminho
de vários movimentos libertários da África: em
direção ao abuso de poder e ao nepotismo.
Fonte:
http://www.dw.de/morre-nelson-mandela-%C3%ADcone-da-luta-pela-liberdade-na-%C3%A1frica/a-16451458
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Depoimento:
'O período na prisão foi importante para ele perder a
raiva'
DESMOND TUTU
do "GUARDIAN"
Durante 27 anos conheci Nelson Mandela só por
sua fama. Eu o tinha visto uma vez no início dos anos 1950, quando
ele foi à minha faculdade de pedagogia para ser jurado em um
concurso de debates. Depois disso, só fui encontrá-lo
em 1990.
Quando Mandela saiu da prisão, muitas pessoas temiam que ele
revelasse ter pés de barro. A ideia de que pudesse confirmar
sua reputação parecia boa demais para ser verdade.
Espalhou-se um cochicho dentro do CNA [Congresso Nacional Africano,
partido de Mandela] de que ele tinha sido muito mais útil na
prisão do que seria fora dela.
Quando ele saiu, aconteceu a coisa mais extraordinária. Embora
muitos da comunidade branca ainda o tachassem de terrorista, Mandela
tentou compreendê-los. Seus gestos comunicavam sua posição
com mais eloquência que palavras. Por exemplo, chamou seu carcereiro
branco para ser convidado VIP em sua posse na Presidência. Também
convidou à residência oficial as viúvas de líderes
brancos.
Betsie Verwoerd, cujo marido, HF Verwoerd, foi assassinado em 1966,
não pôde ir porque estava doente. Ela vivia em Oranje,
onde os africânderes [descendentes dos colonizadores holandeses]
se congregavam para viver com exclusividade. E, como ela não
pôde ir, Mandela deixou tudo de lado e foi tomar chá com
ela, ali, naquele lugar.
Ele dizia a respeito dos africânderes: "Dá para entender
muito bem o que devem estar sentindo." Mandela fez um gesto de
conciliação com eles usando o "springbok" (uma
espécie de gazela sul-africana), símbolo da equipe nacional
de rúgbi, rejeitada por muitos negros por ser um esporte ligado
aos brancos.
O golpe de mestre de Mandela foi na final da Copa do Mundo de rúgbi,
em 1995, quando ele entrou no campo usando o agasalho da seleção.
Quase qualquer outro líder político teria parecido desastrado
fazendo isso, mas Mandela o fez com elegância.
O público inteiro, composto provavelmente por 99% de brancos,
explodiu em gritos de "Nelson! Nelson!". Foi extraordinário.
E quem teria acreditado que o povo dos "townships" [subúrbios
negros] comemoraria uma vitória sul-africana no rúgbi?
É claro que já o vi com raiva. Após o massacre
de Boipatong, em 1992, em que morreram 42 pessoas, o CNA abandonou as
negociações, e Mandela ficou lívido. Ele afirmou
que os serviços de inteligência tinham avisado [o então
presidente] FW de Klerk que algo fora do comum ia acontecer. Não
sei se De Klerk ignorou o aviso. Madiba disse que estava claro que vidas
negras não significavam nada para eles.
Em outra ocasião, Mandela me disse que, quando ele e De Klerk
estavam na cerimônia do Nobel da Paz, em Oslo, algo o deixou profundamente
aborrecido. Havia um grupo cantando "Nkosi Sikelel' iAfrika",
visto como o hino da luta pela libertação, e De Klerk
e a mulher dele continuaram a conversar durante o hino --não
demonstraram respeito.
Mas sua raiva nunca superava sua paciência ou sua capacidade
de perdão. As pessoas diziam "vejam o que ele conquistou
em seus anos no governo - que desperdício foram aqueles 27 anos
passados na prisão".
Mantenho que seu período na prisão foi necessário
porque, quando foi preso, estava cheio de raiva. Mandela era relativamente
jovem e tinha sido vítima de um erro da Justiça; ele não
era um estadista, disposto a perdoar - era o comandante em chefe da
ala armada do partido, que estava inteiramente disposta a recorrer à
violência.
O tempo que ele passou na prisão foi crucial. O sofrimento
torna algumas pessoas amargas, mas enobrece outras. A prisão
virou uma prova de fogo que queimou tudo o que era ruim. As pessoas
nunca podiam dizer a Mandela: "Você fala em perdão
da boca para fora. Você não sofreu. O que sabe sobre perdão?"
Vinte e sete anos lhe conferiram essa autoridade.
Um dos maiores traumas de sua vida foi o que aconteceu entre ele e
Winnie [ex-mulher]. Mandela realmente a amava. A mágoa de terem
se separado depois de ele sair da prisão foi profunda.
Foi maravilhoso ele ter conhecido Graça, mas a gente se entristece
um pouco, porque Winnie passou por tanta coisa, e teria sido o final
perfeito se os dois tivessem vivido felizes para sempre.
A melhor maneira de recordar Mandela é pegar aquilo que ele
ajudou a criar e converter em sucesso. Mandela tinha clareza quanto
ao fato de que ninguém é indispensável. Ele fazia
questão de destacar que ninguém era maior que o movimento.
Mas sabemos que não era assim.
Qualquer pessoa que se torna líder, em qualquer lugar do mundo,
sabe que ele é uma referência. E precisa perguntar a si
mesmo: o que posso aprender com ele?
DESMOND TUTU, 82, é arcebispo emérito
e Nobel da Paz pela luta contra o apartheid
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/12/1382189-depoimento-o-periodo-na-prisao-foi-importante-para-ele-perder-a-raiva.shtml
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Bono, do U2, escreve sobre Mandela:
'o homem que não podia chorar'
O vocalista da banda U2, Bono, lamentou
nesta sexta-feira (6) a morte do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela
e disse que, quando era um jovem militante, fazia tudo que o líder
contra o apartheid dizia.
"Como um militante qualquer,
desde adolescente, fazia tudo que o Mandela me dizia para fazer",
escreveu Bono para a revista americana "Time".
No texto, que tem o título de "The Man Who Could
Not Cry" (em tradução livre, "o homem
que não podia chorar"), o cantor lembra a grande influência
que Mandela teve em sua vida.

Em foto de maio de 2002, Mandela e Bono,
vocalista do U2, posam juntos em Johannesburgo, na África do
Sul
"Sempre foi uma presença muito forte na minha vida. Penso
em 1979 quando nós do U2 fizemos nosso primeiro show contra
a África do Sul racista.
Ao longo dos anos, nos tornamos amigos.
Unimos a batalha contra o racismo àquela contra a Aids e contra
a pobreza e a fome. Sem os seus esforços, na década
passada teríamos tido 9,7 milhões de doentes com Aids
e 2,7 milhões de crianças mortas de fome a mais por
ano", destacou Bono.
O cantor falou da capacidade do líder sul-africano de conseguir,
com sua "simplicidade e garra", "mudar o curso da história".
Uma vez, Mandela lhe contou que conseguiu uma doação
de US$ 20 mil da então primeira-ministra britânica Margaret
Thatcher para sua fundação. "Perguntei a ele: mas
como conseguiu? E ele, sorridente, me respondeu: 'Pedi. Nunca terá
o que quer se não pedir.'"
O líder do U2 recordou quando soube que Mandela tinha sofrido
sérios danos aos olhos durante seu período na prisão,
já que havia trabalhado em minas de ouro e o pó obstruiu
seus canais lacrimais, impedindo-o de chorar.
"Para todos, a sua firmeza e o seu valor eram tão grandes
que com certeza não podia lacrimejar em um momento de insegurança
ou de dor. Mas a explicação era muito diferente. Depois,
passou por uma intervenção cirúrgica em 1994
que resolveu o problema. A partir daquele dia voltou a chorar. E hoje
nós também podemos fazer isso por ele", concluiu
Bono.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/12/1381771-bono-do-u2-escreve-sobre-mandela-o-homem-que-nao-podia-chorar.shtml
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