04/12/2013
por Roberto Amado

É uma situação
comum. A criança dá trabalho, questiona muito, viaja nas
suas fantasias, se desliga da realidade. Os pais se incomodam e levam
ao médico, um psiquiatra talvez. Ele não hesita: o diagnóstico
é déficit de atenção (ou Transtorno de Deficit
de Atenção e Hiperatividade – TDAH) e indica ritalina
para a criança.
O medicamento é uma bomba. Da família
das anfetaminas, a ritalina, ou metilfenidato, tem o mesmo mecanismo
de qualquer estimulante, inclusive a cocaína, aumentando a concentração
de dopamina nas sinapses. A criança “sossega”: pára
de viajar, de questionar e tem o comportamento zombie like, como a própria
medicina define. Ou seja, vira zumbi — um robozinho sem emoções.
É um alívio para os pais, claro, e também para
os médicos. Por esse motivo a droga tem sido indicada indiscriminadamente
nos consultórios da vida. A ponto de o Brasil ser o segundo país
que mais consome ritalina no mundo, só perdendo para os EUA.
A situação é tão grave que inspirou a pediatra
Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento
de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da
Unicamp, a fazer uma declaração bombástica:
“A gente corre o risco de fazer um genocídio
do futuro”, disse ela em entrevista ao Portal Unicamp.
“Quem está sendo medicado são as crianças
questionadoras, que não se submetem facilmente às regras,
e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’.
Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos
e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil anos
atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um
mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão
impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos
diferentes. E isso é terrível”, diz ela.
O fato, no entanto, é que o uso da ritalina
reflete muito mais um problema cultural e social do que médico.
A vida contemporânea, que envolve pais e mães num turbilhão
de exigências profissionais, sociais e financeiras, não
deixa espaço para a livre manifestação das crianças.
Elas viram um problema até que cresçam. É preciso
colocá-las na escola logo no primeiro ano de vida, preencher
seus horários com “atividades”, diminuir ao máximo
o tempo ocioso, e compensar de alguma forma a lacuna provocada pela
ausência de espaços sociais e públicos. Já
não há mais a rua para a criança conviver e exercer
sua “criancice.
E se nada disso funcionar, a solução é enfiar ritalina
goela abaixo.
“Isso não quer dizer que a família
seja culpada. É preciso orientá-la a lidar com essa
criança. Fala-se muito que, se a criança não
for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente.
Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação
de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que
está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH
está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças,
de forma indiscriminada”, diz a médica.
Mas os problemas não param por aí. A
ritalina foi retirada do mercado recentemente, num movimento de especulação
comum, normalmente atribuído ao interesse por aumentar o preço
da medicação. E como é uma droga química
que provoca dependência, as consequências foram dramáticas.
“As famílias ficaram muito preocupadas
e entraram em pânico, com medo de que os filhos ficassem sem
esse fornecimento”, diz a médica.
“Se a criança já desenvolveu dependência
química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também
pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na
atenção e na cognição, surtos psicóticos,
alucinações e correm o risco de cometer até o
suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration
(FDA)”.
Enquanto isso, a ritalina também entra no mercado
dos jovens e das baladas. A medicação inibe o apetite
e, portanto, promove emagrecimento. Além disso, oferece o efeito
“estou podendo” — ou seja, dá a sensação
de raciocínio rápido, capacidade de fazer várias
atividades ao mesmo tempo, muito animação e estímulo
sexual — ou, pelo menos, a impressão disso.
“Não há ressaca ou qualquer efeito
no dia seguinte e nem é preciso beber para ficar loucaça”,
diz uma usuária da droga nas suas incursões noturnas
às baladas de São Paulo.
“Eu tomo logo umas duas e saio causando, beijando todo mundo,
dançando o tempo todo, curtindo mesmo”, diz ela.
- * saiba mais no artigo "A
droga da obediência: medicalização, infância e biopoder – notas sobre
clínica e política" - de Kely Magalhães Decotelli;
Luiz Carlos Teixeira Bohre; Pedro Paulo Gastalho de Bicalho, da Universidade
Federal do Rioi de Janeiro - publicado em "Psicologia: Ciência
e Profissão"
- vejam no link
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932013000200014&script=sci_arttext
Fonte:
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ritalina-a-droga-legal-que-ameaca-o-futuro
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