02/12/2013
JULIANA VINES
da Folha de São Paulo
A "caixa da normalidade" está
cada vez menor e a culpa é do excesso de diagnósticos
de doenças mentais, diz o psiquiatra americano Dale Archer, autor
do best-seller "Better than Normal", recém-lançado
no Brasil com o título "Quem Disse que É Bom Ser
Normal?" (Sextante, 224 págs., R$ 24,90).
Archer, 57, é psiquiatra clínico desde 1987 e fundou
um instituto de neuropsiquiatria em Lake Charles, Louisiana (EUA). Em
2008, ele notou que havia algo errado com os seus pacientes: a maioria
dizia ter um transtorno mental e precisar de remédios --só
que eles não tinham nada.
"Estamos 'patologizando' comportamentos normais. E isso não
é só culpa da psiquiatria", disse Archer, à
Folha, por telefone.
Um quarto dos adultos americanos têm uma ou mais doenças
mentais diagnosticadas, segundo o Instituto Nacional de Saúde
Mental dos EUA.
"Isso está errado. Há uma gama de comportamentos
que não são doença."
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Em um ativismo "pró-normalidade", Archer descreve
oito traços de personalidade comumente ligados a transtornos,
como ansiedade, e afirma que não há nada errado com essas
características, a não ser que sejam muito exacerbadas.
"O remédio tem que ser o último recurso, e não
é o que eu vejo. As pessoas entram em um consultório
e saem com uma receita médica. A psicoterapia é subestimada."
De outubro de 2012 a setembro de 2013, o mercado de antidepressivos
e estabilizadores de humor movimentou mais de R$ 2 bilhões no
Brasil, segundo dados da consultoria IMS Health. Nos últimos
cinco anos, o número de unidades vendidas desses remédios
cresceu 61%.
Para Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação
Brasileira de Psiquiatria, os diagnósticos aumentaram, sim, mas
da mesma forma como aumentou os de outras doenças, de diabetes
a câncer.
"Isso é resultado da evolução da medicina
e da facilidade de acesso."
O mesmo pensa o psiquiatra Fabio Barbirato, da Santa Casa do Rio de
Janeiro.
"Também aumentou o número de prescrições
de insulina e anti-hipertensivo. Isso ninguém questiona. Mas
quando se fala de mente, da psique, todos têm uma opinião",
afirma.
Segundo Silva, o problema é o subdiagnóstico. Para ele,
há mais deprimidos sem tratamento do que pessoas sem depressão
sendo tratadas.
Barbirato dá como exemplo o TDAH (transtorno do deficit de atenção
e hiperatividade).
"O número de crianças com prescrição
de remédios não chega a 1,5% no Brasil, e a estimativa
mais baixa de presença de TDAH no país é de 1,9%.
Há crianças sem tratamento."
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CRITÉRIO ANTIGO
Para a psicóloga Marilene Proença, professora da USP,
a sociedade está "medindo" as crianças com réguas
antigas.
"Os critérios de diagnóstico de TDAH esperam
uma criança que brinque calmamente, que levante a mão
para perguntar algo. Isso não condiz com o papel da criança
na sociedade. Ela está exposta a muitos estímulos e
é tudo muito competitivo", diz.
Para a psiquiatra e psicanalista Regina Elisabeth Lordello Coimbra,
da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, as
pessoas estão menos tolerantes às emoções.
"Há pouco lugar para a tristeza. E a exaltação
e excitação são confundidas com felicidade. Vivemos
de uma forma mais estimulante, na qual emoções mais
depressivas, reflexivas, não têm espaço."
De acordo com Silva, o que caracteriza a doença mental é
a gravidade dos sintomas.
"Deixa de ser normal quando a pessoa tem prejuízo, quando
está tão triste que não consegue sair da cama."
Ele argumenta que "invariavelmente" encaminha os pacientes
para a psicoterapia. E garante: nem sempre eles saem do consultório
com uma receita médica.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2013/11/1366864-psiquiatra-diz-que-a-medicina-transformou-comportamentos-normais-em-doenca.shtml
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'É mais cômodo dar remédio
do que fazer terapia', diz mãe
Kátia Christina Fonseca da Silva, 38, ajudante de cozinha, desconfia
sempre que dizem que uma criança tem deficit de atenção.
Sua filha, Valentina, 11, recebeu esse diagnóstico de forma errada,
segundo ela.
"Minha filha Valentina sempre deu problema. Com seis anos, a
escola me chamou para conversar.
Ela tinha tido um surto. Jogou as coisas do armário da sala
no chão, puxou o cabelo da professora, agrediu outras crianças.
Entrei na sala de aula e comecei a chorar, não acreditava que
ela tinha feito aquilo.
Ela foi encaminhada para um psicólogo e, depois, mandaram para
um psiquiatra, que disse que ela não tinha nada.
Não fiquei satisfeita. Juntei dinheiro e paguei um psiquiatra
particular, que disse que ela tinha TDAH (deficit de atenção)
e precisava de remédio. Fiquei desesperada. A caminho da farmácia,
encontrei uma amiga, que me convenceu a não comprar o remédio.
Disse que o mesmo tinha acontecido com o filho dela.
Comecei a me perguntar se o problema não estava na minha família.
Na época, eu estava me separando e trabalhava demais.
Passei a dar mais atenção para ela, a passar mais tempo
junto e, devagar, as coisas começaram a melhorar.
Ela ainda dá trabalho, mas é o mesmo trabalho que toda
criança. Ela tem o gênio forte. Acho que, quando era
mais nova, queria chamar a atenção.
Depois de tudo, comecei a participar de reuniões na escola
para conversar com os pais. Quando dizem que uma criança tem
TDAH, penso, será que isso está certo?
É mais cômodo dar um remédio do que fazer uma
terapia, mudar o comportamento.
Acho que as crianças são nosso espelho. Será
que a agitação deles não é culpa nossa?"
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2013/11/1366804-sera-que-a-agitacao-das-criancas-nao-e-culpa-nossa.shtml
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