19/11/2013
Dupla recebe Nobel por teoria sobre a 'partícula
de Deus'
> Peter Higgs e François Englert elucidaram na década
de 1960 o mecanismo pelo qual a matéria adquire massa
Prova experimental só veio 40 anos depois, em experimento no
LHC, o acelerador de partículas gigante
da Folha de São Paulo
Os cientistas que teorizaram o bóson de Higgs, a partícula
elementar que confere massa a outras partículas, são os
vencedores do Prêmio Nobel de Física deste ano. O escocês
Peter Higgs, 84, e o belga François Englert, 80, dividirão
US$ 1,25 milhão concedido pela honraria.
Apelidado de "partícula de Deus", o bóson de
Higgs teve sua existência confirmada em julho do ano passado,
no Cern, o maior laboratório de física do mundo. A descoberta
era a peça que faltava no Modelo Padrão, a teoria vigente
da física de partículas.
A indicação para o Nobel, neste caso, foi um tanto quanto
complicada porque o Englert e Higgs não foram os únicos
a teorizarem o bóson. Robert Brout (1928-2011) também
deu contribuições fundamentais a teoria, e uma segunda
geração de físicos também teve atuação.
O anúncio do prêmio atrasou mais de uma hora ontem, porque
o comitê deliberativo do Nobel ainda estava reunido na hora da
divulgação.
Peter Higgs recebeu a notícia ontem em casa e não concedeu
entrevista coletiva.
"Espero que esse reconhecimento dado à ciência fundamental
ajude a aumentar a consciência sobre o valor da pesquisa de céu
azul'", disse, em um breve comunicado transmitido pela Universidade
de Edimburgo.
A declaração do cientista escocês é uma
menção à necessidade de se produzir ciência
que não esteja embasada na realidade do presente, e explora terrenos
mais especulativos e abstratos.
CÉU ABERTO
Quando Englert, Higgs e Robert Brout (outro belga, morto em 2011) começaram
a elaborar a teoria sobre o bóson, na década de 1960,
ainda não sabia se era possível colocá-la sob teste.
Sem um base experimental onde se sustentar, muitos aspectos de suas
ideias eram uma exploração de natureza mais metafísica
do que efetivamente científica. Mais do que uma partícula,
os cientistas estavam propondo a existência de um mecanismo sobre
como essas entidades materiais adquirem massa.
"O bóson era o teste experimental da existência
de todo o mecanismo, e nós precisamos esperar um bocado pela
comprovação", disse Englert na manhã de
ontem, em entrevista coletiva.
"Primeiro tivemos de esperar para ver se a teoria podia ser amarrada
ao Modelo Padrão, o que levou um certo tempo", contou.
"O Modelo Padrão foi construído durante os anos
1970, e só depois disso foi possível sair em busca de
um teste."
DEUS NA FÍSICA
Em uma clássica palestra intitulada "Minha Vida
Como Bóson", Peter Higgs disse não apreciar
ter seu nome emprestado a essa entidade corpuscular, mas também
se manifestou contra o apelido "partícula de Deus".
A ideia saíra de um livro homônimo do físico Leon
Lederman, outro ganhador do Nobel. Na obra, ele explica o bóson
de Higgs usando uma metáfora que evoca um trecho do Velho Testamento.
Na história da Torre de Babel, a interferência de Deus
explica por que a humanidade fala línguas diferentes. Já
o bóson de Higgs explica por que as partículas elementares
têm massas diferentes. Daí surgiu a expressão tão
abominada pelos físicos, que nada tem a ver com teologia.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/132931-dupla-recebe-nobel-por-teoria-sobre-a-particula-de-deus.shtml
Assunto é tão difícil que
até o nome dá medo
por Salvador Nogueira
Folha de São Paulo
Bóson de Higgs. Fala a verdade, até o nome dá medo.
Não é à toa que o apelidaram de "partícula
de Deus". O apelido parece facilitar as coisas. Só que não.
O que Deus teria a ver com o tal bóson?
Para entender por que é tão difícil captar a mensagem,
é preciso lembrar que essa partícula era a última
figurinha que faltava para completar o álbum do Modelo Padrão
- teoria que explica todas as forças conhecidas da natureza,
exceto a gravidade.
Para achar o Higgs, foi preciso construir uma máquina grandiosa,
capaz de acelerar prótons a uma velocidade estonteante e então
fazê-los colidir. Quando isso acontece, no LHC (Large Hadron Collider),
a energia dos prótons é convertida em partículas
de todos os tipos. O Higgs é pesado, então é preciso
muita energia para fazê-lo se materializar. Até hoje, só
o LHC chegou lá.
Isso explica por que Peter Higgs e François Englert esperaram
quase meio século para colocar as mãos no Nobel. Mas não
esclarece por que é tão difícil entender a ideia
por trás do tal bóson. Talvez porque ele seja o de menos.
O importante mesmo é o campo de Higgs.
Toda partícula que transporta uma força da natureza --como
o fóton, que compõe a luz - tem um campo associado.
Higgs e Englert foram homenageados pela ideia de que existe um campo,
permeando todo o espaço, que agiria como um "grude",
impondo resistência às outras partículas - fenômeno
que vemos como a massa delas. O bóson é só a "prova
do crime" de que o campo de Higgs é a explicação
certa para a atribuição de massa a todas as coisas do
Universo.
Análise
O bóson de Higgs, a origem da massa e a
nossa existência
por Rogério Rosenfeld
Especial paa Folha de São Paulo
Uma questão simples atiça a curiosidade das pessoas
há milhares de anos: quais são as partículas mais
fundamentais da Natureza, que não podem ser subdivididas? As
respostas mudaram ao longo do tempo, dependendo da tecnologia de cada
época.
A ideia de que os átomos que caracterizam elementos químicos
seriam fundamentais começou a ruir com a descoberta do elétron
em 1897. Elétrons fazem parte dos átomos, que não
são indivisíveis.
Desde os anos 1960, temos um modelo de física de partículas
elementares que descreve todos os experimentos da área. No chamado
Modelo Padrão, o elétron é uma partícula
fundamental, acompanhado de outras com nomes menos familiares.
As partículas elementares têm uma "carteira de identidade"
listando suas propriedades, como massa, carga elétrica e o spin
- uma propriedade peculiar a partículas que as divide em dois
grupos. O elétron é um "férmion". O Higgs
é um "bóson".
Os modelos de partículas usam conceitos de simetria. Um exemplo
corriqueiro de simetria está "na cara", pois um rosto
parece composto de duas metades idênticas.
No entanto, do mesmo modo que esse espelhamento não é
exato (qualquer pinta viola a simetria facial), simetrias em modelos
de partículas também são violadas, o que gerava
um problema teórico. Brout, Englert e Higgs resolveram o quebra-cabeça
postulando que o Universo seria permeado pelo campo de Higgs. A interação
de partículas com esse campo gera massas diferentes, eliminando
inconsistências.
O mecanismo foi incorporado ao Modelo Padrão e, em 4 de julho
de 2012, foi anunciada a descoberta de uma partícula com as características
do bóson de Higgs no acelerador de partículas LHC.
Para contextualizar a importância da descoberta, considere novamente
o elétron, que possui uma massa extremamente pequena. Caso sua
massa fosse nula, não haveria como formar átomos no Universo.
Pensando dessa maneira, o bóson de Higgs fornece uma explicação
de por que existimos.
ROGERIO ROSENFELD é professor
do Instituto de Física Teórica da Unesp, do ICTP-SAIFR
e autor de "O cerne da matéria", a ser lançado
pela Cia. das Letras
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