02/11/2013
Periferia ganhou voz com Arns, diz biógrafo
RICARDO MENDONÇA
da Folha de São Paulo
Cardeal vendeu o Palácio Episcopal e
construiu 1.200 centros comunitários, nos quais a população
passou a se reunir
Livro narra detalhes como o filósofo Roberto Romano foi salvo
pelo cardeal quando tentou se matar na cadeia
Em 1973, três anos após
se tornar arcebispo de São Paulo --a maior arquidiocese do mundo
naquela época--, dom Paulo Evaristo Arns tomou uma atitude que
até hoje soa como surpreendente no meio católico. Simplesmente
vendeu por US$ 5 milhões o Palácio Episcopal Pio 12, o
imponente imóvel no bairro do Paraíso usado como residência
oficial da autoridade católica, e mudou-se para uma casa mais
simples no Sumaré.
O mais radical,
porém, viria depois. Com o dinheiro arrecadado, determinou a
construção de 1.200 centros comunitários na periferia
de São Paulo para criar ambientes mais informais para reuniões
que as paróquias locais.
Foram nesses barracos de madeira, muitos feitos em mutirão, que
os moradores, sempre incentivados pela igreja de dom Paulo, passaram
a se organizar para brigar por creches, escolas, transporte e postos
de saúde, entre outras melhorias.
"Como a igreja atua em silêncio,
pouca gente associou uma coisa a outra. Mas foi nesse instante que
começaram a explodir reivindicações populares
por toda São Paulo", diz o jornalista Ricardo Carvalho,
repórter da Folha até o fim dos anos 70 e autor da recém-lançada
biografia "O Cardeal da resistência -- as muitas
vidas de dom Paulo Evaristo Arns" (314
páginas, editora Instituto Vladimir Herzog, R$ 49,90)
A transformação do palácio
em centros comunitários são dois dos 65 capítulos
"independentes" da obra.
Com a colaboração de
Antonio Carlos Fester, Inês Caravaggi e Maria Angélica
Rittes, Carvalho organizou a publicação de tal forma que
o leitor pode começar a ler por qualquer capítulo.
Com 359 ilustrações,
reproduções de cartas de amigos e parentes e muitos depoimentos
exclusivos, o livro é uma seleção dos principais
episódios vividos por dom Paulo desde 1966, quando chegou a São
Paulo como bispo-auxiliar da zona norte, até 1998, quando se
aposentou e se tornou arcebispo emérito.
Em tom de homenagem, o livro, de forma
nem sempre muito bem organizada, funciona como uma espécie de
retrospectiva do agitadíssimo período de dom Paulo no
comando da arquidiocese.
Estão lá, entre outros
episódios, a histórica celebração ecumênica
da Catedral da Sé em 1975 em memória do jornalista Vladimir
Herzog, morto dias antes nas dependências do DOI Codi do Exército;
a invasão da PUC comandada pelo então secretário
de Segurança, coronel Erasmo Dias, em 1977; e a operação
panejada por dom Paulo para entregar ao presidente dos Estados Unidos,
Jimmy Carter, uma lista com os nomes de desaparecidos políticos.
O livro também narra detalhes
e bastidores de episódios ainda hoje pouco conhecidos relacionados
a dom Paulo.
Um deles é foi a tentativa de
suicídio do então seminarista Roberto Romano, hoje filósofo
e professor da Universidade de Campinas.
Romano foi preso na rodoviária
de São Paulo no momento em que tentava embarcar para o Rio de
Janeiro para um encontro com os pais de um frei que havia sido detido.
Deprimido com as condições da prisão, ele tentou
se matar cortando os pulsos.
A pedido do autor, Romano escreveu
um texto para o livro em que narra como acabou sendo salvo por dom Paulo,
que foi visitá-lo na cadeia.
Hoje, aos 92 anos, dom Paulo vive recluso
num convento em Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
Na semana que vem, Ricardo Carvalho
pretende visitá-lo, junto com Clarisse Henzog, viúva do
jornalista, para entregar um exemplar.
O CARDEAL DA RESISTÊNCIA
As muitas vidas de dom Paulo Evaristo Arns
AUTOR Ricardo Carvalho
EDITORA Vladimir Herzog
QUANTO R$ 49,90 (314 págs.)
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/136958-periferia-ganhou-voz-com-arns-diz-biografo.shtml
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