02/11/2013
Raridade pública
Bolsa Família chega a 10 anos como programa
de transferência de renda de sucesso, mas governo está
aquém dos próximos desafios
O Bolsa Família é um programa estatal bem-sucedido. Simples
e seca, tal afirmação ainda não dá conta
da importância dessa instituição que melhora as
condições de vida de um quarto dos brasileiros. Mas a
frase ressalta o fato de que são raras as políticas públicas
que cumprem quase integralmente seus objetivos, trazendo benefícios
a custos relativamente baixos.
Curiosamente, ações focalizadas como o Bolsa Família
eram tidas como limitadas e assistencialistas por partidos de esquerda
pelo menos até 2003. Programas de transferência de renda
restritos aos mais pobres eram item dos planos ditos neoliberais, um
modo de atenuar as durezas da transição para economias
mais abertas ao mercado.
É preciso lembrar, contudo, que o Bolsa Família
não é só uma maneira eficiente de transferir renda
a cerca de 13,8 milhões de famílias (gasta o equivalente
a 0,46% do PIB; a despesa federal é de 18,5% do PIB). Embute
ao menos três inovações na política social
brasileira.
Antes, os seguros sociais eram destinados a seus contribuintes,
a trabalhadores com contribuições quase presuntivas (aposentadorias
rurais) ou a muito pobres incapacitados para o trabalho.
O Bolsa Família é o primeiro programa
maciço de garantia de renda mínima a qualquer cidadão,
mesmo em condições de trabalhar, desde que com cidadania
limitada devido à conformação social e econômica
do país.
Além disso, o programa concentra-se em beneficiar
os mais pobres, procura colher em sua rede as crianças e dá
às famílias beneficiadas o dever de educar os filhos e
inscrevê-los em ações de saúde.
Em terceiro lugar, o Bolsa Família é
eficaz porque se baseia num cadastro de 25 milhões de famílias
pobres. Não se trata de mera lista burocrática, mas de
meio para encontrar os mais necessitados e informar outras políticas
públicas.
A esse respeito, é evidente a necessidade de
abrir portas de saída do programa, que propiciem aos beneficiados
emancipar-se gradualmente da ajuda.
Tímidas ações nesse sentido existem,
mas as dificuldades de implementá-las, inclusive do ângulo
eleitoral, são notórias. Pouco importa. Também
é função do governo criar condições
para o país superar o assistencialismo.
Avanços maiores, de resto, dependem da solução
de problemas econômicos e sociais de base --melhoria da infraestrutura,
integração de mercados regionais, aumento de produtividade
e educação decente. Nada disso parece estar no horizonte
próximo do governo da presidente Dilma Rousseff (PT).
Mas o Bolsa Família, ainda assim, simples, eficaz,
maciço e direto, é uma raridade na paisagem da ação
do poder público e da história social brasileira.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/137001-raridade-publica.shtml
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