02/11/2013
RAQUEL COZER
Folha de São Paulo
Allan Kardec vai aparecer perto de você nos próximos
dias - na TV, nas rádios, no metrô, na internet e, acima
de tudo, nas livrarias.
A exposição da imagem do fundador do espiritismo faz
parte de uma forte ação de marketing da editora Record,
que distribui 100 mil cópias de "Kardec: A Biografia",
de Marcel Souto Maior.
É uma aposta alta para um grupo editorial cujo
maior best-seller no quesito biografias vendeu 64 mil cópias
-- foi com "A Arte da Política - A História que Vivi"
(Civilização Brasileira, 2006), de Fernando Henrique Cardoso.
A biografia anterior escrita por Souto Maior, "As
Vidas de Chico Xavier" (LeYa), sobre o médium brasileiro,
teve cerca de 1 milhão de cópias vendidas e originou o
filme "Chico Xavier", visto por mais de 3 milhões de
pessoas.
O novo biografado, o francês Allan Kardec (1804-1869),
é ele próprio um best-seller. Vendeu mais de 11 milhões
de livros no Brasil, considerados só os números da maior
editora do gênero, a Federação Espírita Brasileira.
Há 120 casas espíritas no país, todas aptas a publicar
"O Livro dos Espíritos" e outras obras do autor, em
domínio público.
E a biografia que sai agora também vai virar
filme, previsto para 2015, sob direção de Wagner de Assis.
Com o lançamento, a Record foca em especial
o público leigo, menos afeito a uma história conhecida
dos adeptos do espiritismo, mas tateia nicho promissor.
Embora só 2% (3,8 milhões) da população
brasileira se diga espírita, segundo o Censo de 2010, simpatizantes
das notícias post-mortem são 50 milhões, segundo
a Federação Espírita Brasileira.
E, mesmo considerando só os 2% de espíritas
--ante 64% de católicos (123 milhões) e 22% de evangélicos
(42,5 milhões)-- eles representam o segmento religioso com os
mais altos índices de educação e renda. Têm
hábito de comprar mais livros --e pagar mais por eles.
MAIS VENDIDOS
Levantamento feito a pedido da Folha pela Nielsen, que começou
a monitorar as vendas de livros no Brasil neste ano, dá a dimensão
disso.
Presente em nove países com a pesquisa em livrarias,
a empresa americana optou pela contagem da venda de títulos espíritas
só no Brasil, único país em que a doutrina se firmou
como religião.
O levantamento abrange a comercialização
dos últimos quatro meses pelas maiores redes do país.
Considerado só o faturamento com a venda de
livros religiosos, os títulos espíritas correspondem a
32,63%, à frente dos católicos (31,79%) e dos evangélicos
(19,92%).
O que explica o fato de uma religião com menos
adeptos liderar o faturamento desse setor são os preços
dos livros espíritas: custam em média R$ 29,13, ante R$
17,19 dos católicos e R$ 21,21 dos evangélicos.
Também impulsiona essas vendas outro fenômeno
nacional, os romances psicografados por nomes Zibia Gasparetto, Robson
Pinheiro e Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho, que circulam aos
milhões --isso, vale fazer a ressalva, num cenário em
que os únicos números totais conhecidos são os
divulgados pelas próprias editoras.
Esses autores vendem tão bem hoje que ficam
à frente de Chico Xavier (1910-2002) na contagem da Nielsen.
Ocupam, respectivamente, o primeiro, o terceiro e o quarto lugar em
vendas. Com 16 milhões de livros vendidos, Zibia Gasparetto,
87, deixa para trás até Kardec, em segundo lugar na lista.
OS REIS DA PSICOGRAFIA
ROBSON PINHEIRO, 52
34 livros em 18 anos, com 1,2 milhão de exemplares
Espíritos Angelo Inacio teria sido jornalista em outra vida;
Joseph Gleber se comunica em português com sotaque alemão
Best-seller "Tambores de Angola", com 179 mil exemplares
VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO, 65
Quase 60 livros em 23 anos, com 3,5 milhões de exemplares por
sua principal editora, a Petit
Espírito Antonio Carlos ditou a maior parte; Patrícia
é responsável pelos maiores hits
Best-seller "Violetas na Janela", com 2 milhões de
exemplares
MARCELO CEZAR, 46
14 livros em 13 anos, com 1,5 milhão de exemplares
Espírito Marco Aurélio, que teria sido escritor famoso
em outra encarnação, mas prefere não divulgar
Best-seller "O Amor É para os Fortes", com 260 mil
exemplares
ZIBIA GASPARETTO, 87
45 livros em 55 anos, com 16 milhões de exemplares
Espírito Lucius, desde sempre; o nome vem aparecendo em obras
de outros médiuns, mas, segundo Zibia, deve ser outro
Best-seller "Ninguém é de Ninguém", com
865 mil exemplares
________
Nos livros, espíritos célebres deram
lugar a anônimos
No tempo de Allan Kardec, espíritos como
os de Santo Agostinho e Sócrates teriam ajudado a escrever "O
Livro dos Espíritos" (1857). Hoje os best-sellers do gênero
são ditados por nomes insuspeitos como Lucius e Patrícia.
Essa mudança de perfil é vista por editores
como decorrente das necessidades de cada período do espiritismo.
"Kardec desenvolvia uma ciência, aqueles
espíritos elevados eram necessários. No Brasil, a doutrina
ganhou viés místico. Os espíritos são
coerentes com a nova realidade, dão mensagens de conforto",
diz o editor Leonardo Möller, da Casa dos Espíritos.
A editora publica best-sellers como "Tambores
de Angola", que seriam ditados por Ângelo Inácio e
psicografados por Robson Pinheiro.
Ângelo, segundo Pinheiro, foi um jornalista na
última encarnação, mas prefere usar o pseudônimo
para não chamar a atenção de parentes.
Reginaldo Prandi, autor de "Os Mortos e os Vivos
- Uma Introdução ao Espiritismo" (Três Estrelas),
acredita que a discrição dos espíritos hoje decorre
tanto do fato de a doutrina já ter se firmado quanto de uma precaução.
"Houve processos por direitos autorais, com
familiares dizendo: 'Se usa o nome do meu avô, tem de pagar'."
Um caso famoso foi vivido por Chico Xavier, que psicografou
vários textos do cronista Humberto de Campos (1886-1934) até
ser processado pelos herdeiros.
Na ocasião, o juiz concluiu que só podia
avaliar direitos autorais de obras produzidas em vida, mas, por prudência,
Xavier passou a identificar o espírito como "Irmão
X".
Um desenrolar curioso dessa história envolve
Zibia Gasparetto. Meio século depois de ela lançar "O
Amor Venceu", que teria sido ditado por Lucius, o nome do espírito
passou a figurar em livros de outros médiuns como "Exilados
por Amor" (Vivaluz), de Sandra Carneiro.
"Não é o mesmo Lucius", informa
Zibia. "Ele diz que não tem tempo, que trabalha só
comigo mesmo."
Sandra Carneiro diz que seu Lucius deixa para o leitor
concluir se é ou não o mesmo que acompanha Zibia..
Mesmo o fundador da doutrina teve de lidar com questões
envolvendo créditos, como conta Marcel Souto Maior na biografia
"Kardec".
Embora tenha listado na primeira edição
de "O Livro dos Espíritos" os desencarnados que ajudaram
no trabalho, Kardec deixou os nomes dos médiuns envolvidos de
fora. Causou ciumeira.
Para Souto Maior, esse foi o menor dos desafios que
o francês teve de enfrentar.
Como lidava com uma doutrina que envolvia fenômenos
sobrenaturais, sua batalha por toda a vida foi a de mostrar como no
centro de tudo estava não o milagre, mas a solidariedade --até
hoje, a maior parte das editoras espíritas doa direitos autorais
a instituições de caridade.
KARDEC - A BIOGRAFIA
AUTOR Marcel Souto Maior
EDITORA Record
QUANTO R$ 39 (322 págs.)
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/11/1365554-biografia-de-allan-kardec-chega-as-livrarias-para-repetir-fenomeno-de-chico-xavier.shtml
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