19/08/2013
Mistério na fronteira da vida
Segundo pesquisa, o cérebro de ratos
que sofrem parada cardiorrespiratória continua ativo por até
30 segundos. A constatação pode ajudar a explicar por
que alguns pacientes têm visões enquanto são reanimados
por médicos, mas a ciência continua longe de compreender
as experiências de quase morte
Correio Braziliense
“Ninguém jamais voltou daquele país”,
disse Hamlet, referindo-se à morte. O personagem de Shakespeare,
contudo, foi desmentido pelo próprio pai, que retornou do além
para revelar ter sido assassinado. Fora da ficção, existem
relatos de pessoas que garantem ter carimbado o passaporte nesse território
desconhecido. São indivíduos que, declarados mortos, voltam
à vida com a lembrança de transitar por uma dimensão
diferente de tudo conhecido. Muitas vezes, conseguem ver, do “outro
lado”, médicos, familiares e o próprio corpo jazendo
no leito.
As chamadas experiências de quase morte (EQM)
permanecem um tabu para a ciência porque desafiam a noção
de que a consciência e a mente não passam de produtos da
química cerebral. Além disso, colocam em dúvida
o entendimento de que a vida se extingue no último suspiro. A
partir da década de 1960, porém, quando os métodos
modernos de reanimação cardiopulmonar entraram para a
rotina das emergências hospitalares, os relatos de pacientes não
puderam ser ignorados.
Com mais gente ressuscitada, as histórias deixaram
de ser casos isolados contados entre cochichos e passaram a ser ouvidas
nos consultórios médicos. De acordo com um estudo da Universidade
de Michigan, aproximadamente 20% dos sobreviventes de parada cardíaca
nos Estados Unidos afirmam ter visto a luz no fim do túnel, antes
de serem acordados. Isso, no Ocidente. O antropólogo Darrell
Champlin, professor da Universidade Santa Cecília que estuda
o tema há duas décadas, explica que experiências
de quase morte estão presentes em todas as culturas.
“Não conheço um lugar que não
tenha sua coletânea de relatos. O que muda é a aceitação
que se tem do fenômeno, até porque a morte, em locais
como o Tibete, por exemplo, faz parte de um processo totalmente natural.
A visão é muito diferente das culturas em que a ciência
é materialista”, opina.
Em busca de respostas para o fenômeno,
alguns cientistas tentam encontrar explicações fisiológicas
que justifiquem a sensação de ter estado em um lugar semelhante
às descrições do Paraíso, incluindo a presença
de parentes mortos e seres luminosos e flutuantes. De uma coisa eles
estão certos: os pacientes não estão mentindo nem
aumentando
. “As experiências de quase morte
são reais para aqueles que sobreviveram”, garante Jimo
Borjigin, professora de fisiologia molecular e neurologia da Universidade
de Michigan.
Oxigenação
Principal autora de um estudo publicado nesta semana
pela revista da Academia Nacional de Ciência dos EUA, Borjigin
não está dizendo, contudo, que há vida além
da morte. Pelo contrário, a pesquisadora sustenta que o fenômeno
pode ser explicado por reações fisiológicas.
Antes de ser uma prova de que o céu existe,
essa seria uma consequência natural da falta de oxigenação
e açúcar no sangue, eventos que ocorrem no caso da parada
cardiorrespiratória.
“Nós sabemos que
o cérebro pode ser estimulado para produzir níveis mais
elevados de atividade quando as taxas de oxigênio e de glicose
estão diminuindo rapidamente. Isso sugere que a nossa consciência
normal pode ter algo a ver com níveis de flutuação
desses dois elementos”, acredita Borjigin.
Na recente pesquisa, o cérebro
de ratos foi monitorado por um eletroencefalograma no momento da morte
por parada cardíaca, induzida pelos cientistas. O exame confirmou
que a atividade dos neurônios continua, mesmo depois de o coração
parar de bater e de o oxigênio deixar de circular.
Essa não é, propriamente, uma novidade. Especialista em
EQM, segundo o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, coordenador do
Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF), conta que estudos anteriores já
mostravam que isso ocorria entre 10 e 20 segundos após a morte.
Agora, os pesquisadores verificaram a atividade por até meio
minuto. O intervalo foi considerado surpreendente pelo anestesista George
Mashour, professor de neurocirurgia da Universidade de Michigan e coautor
do novo estudo.
“As assinaturas elétricas
da consciência excederam os níveis detectados no estado
de alerta”, afirmou, em um comunicado.
De acordo com Jimo Borjigin, não
se trata apenas de um reflexo — os animais estariam, de fato,
conscientes. Ela diz que há pelo menos quatro linhas de evidência
de que os neurônios não se moviam a esmo, mas obedeciam
a padrões de atividade previamente associados a esse estado de
percepção. Isso é medido pelas oscilações
nas diferentes faixas de ondas eletromagnéticas, detectadas pelo
encefalograma, sendo que atividades na frequência gama, observadas
na pesquisa, estão associadas ao nível de consciência.
Para Borjigin, essa reação seria explicada pelo instinto
de sobrevivência.
“Talvez, os altos níveis
de atividade cerebral consciente reflitam a última tentativa
do cérebro de salvar a si mesmo. A experiência de quase
morte pode ser simplesmente um subproduto não intencional desse
esforço”, defende.
Complexidade
Alexander Moreira-Almeida reconhece
que o estudo é interessante, principalmente pela detecção
de atividade na frequência gama, porém afirma que a pesquisa
nem chega perto de explicar a experiência de quase morte.
“É muito comum
pesquisadores falarem e escreverem sobre EQM sem necessariamente conhecerem
a fundo o assunto”, afirma o psiquiatra, um dos autores do livro
Exploring frontiers of the mind-brain relationship,
que começa a ser publicado em português em versões
resumidas e atualizadas na Revista de Psiquiatria Clínica,
da USP.
“Querer relacionar os 30 segundos de atividade cerebral dos
ratos com experiência de quase morte em humanos é extrapolar
muito. Como comparar a vida mental de um humano à de um rato?”,
questiona.
Para ele, não se pode procurar
responder a um fenômeno tão complexo em apenas um experimento
científico. O psiquiatra lembra que há relatos de percepções
verídicas, como pessoas que descrevem coisas que de fato ocorreram
no ambiente de morte, mesmo passados mais de 30 segundos da parada cardíaca.
A falta de oxigenação poderia explicar alucinações
na forma de túnel, luz e pessoas que já morreram, mas
não a visão de objetos e cenas reais, como os médicos
fazendo a reanimação.
O antropólogo Darrell Champlin concorda.
“A compreensão
dessa fenomenologia de EQM depende do entendimento não apenas
dela em isolamento. Não é ‘justo’ aceitar
a explicação e a negação de um cientista
que, antes de mais nada, quer descartar de pronto até mesmo
a menor possibilidade da realidade da fenomenologia, devido ao seu
dogma de materialismo e, em segundo plano, desconhece por completo
o enorme corpo de conhecimento que existe sobre esse campo”,
argumenta.
“Nesse último caso, seria o mesmo que pedir que um construtor
explique a composição química do tijolo ou que
um médico verse sobre técnicas de construção.
Em suma, certamente não basta dizer que ‘deve ser um
processo biológico ainda desconhecido’ sem sequer analisar
o que já se sabe.”
A principal autora do artigo publicado
na Pnas, contudo, garante que não tem a pretensão de esgotar
o assunto.
“O estudo, realizado com
animais, é o primeiro a abordar o que acontece no estado neurofisiológico
do cérebro em processo de morte. Ele servirá de base
para estudos futuros com humanos que investiguem as experiências
mentais que ocorrem nesse momento, incluindo ver a luz no fim do túnel.”
Fonte:
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/me_gerais/2013/08/19/me_gerais_interna,383110/misterio-na-fronteira-da-vida.shtml
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