19/08/2013
A ciência brasileira não é feita por cientistas,
afirma professora da UFRJ
Para Suzana Herculano-Houzel (foto), o
fato de não haver regulamentação da profissão
cientista atrasa o desenvolvimento tecnológico do Brasil.
por Camila Cotta
Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
Agência Gestão CT&I
Portal de Notícias da Inovação
Associação Brasileira das Instituições de
Pesquisa Tecnológica e Inovação - ABIPTI
Nos últimos anos, o Brasil vem acumulando bons resultados
em rankings de produção científica. No último
levantamento feito pela consultoria Thomson Reuter, entre 2007 e 2011,
o País correspondeu a 2,6% da produção científica
global. No entanto, esses artigos, que ultrapassam a barreira das 25
mil publicações por ano, não são feitos
por cientista e sim por professores.
A avaliação foi feita pela neurocientista e professora
do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ) Suzana Herculano-Houzel. Para ela, o fato de
não haver regulamentação da profissão cientista
atrasa o desenvolvimento tecnológico do Brasil.
“Não posso dizer que neurocientista é
minha profissão, porque a minha profissão de cientista
não existe no Brasil. Não está na tabela das
profissões regulamentadas pelo Ministério do Trabalho
(MTE). Para poder atuar como cientista, eu atuo como professora de
nível superior, eu literalmente faço ciência nas
horas vagas”, expôs.
A professora explicou que a maior parte da ciência no Brasil por
professores universitários ou por pessoas que não tem
emprego nenhum, jovens cientistas chamados estudantes de pós-graduação.
“A produção científica
cresce ao longo dos anos por causa do número de mestres e doutores
que são formados no Brasil. São esses jovens que produzem
o conhecimento cientifico”, disse.
Para ela, o trabalho que os jovens exercem não
é chamado de trabalho e sim estudo.
“É como se eles investissem na educação
deles. Outros países já não cometem mais esse
erro. O erro é não reconhecer esse trabalho como qualquer
outro”, lamentou.
“É um esforço laboral que gera um produto científico.
Por que o jovem cientista recém graduado precisa passar pela
humilhação de continuar sendo estudante?”.
Baixa remuneração
Suzana Herculano-Houzel contou
que durante uma graduação o jovem já faz ciência
como aprendiz, ou seja, um estagiário durante a iniciação
cientifica, ganhando uma bolsa que tem o valor menor que o salário
mínimo muitas vezes. Para trabalhar com ciência, quando
ele se forma tem que entrar para pós-graduação.
“Isso significa se sujeitar
a uma bolsa de mestrado de R$ 1,5 mil reais mensais fixos pelos próximos
dois anos sem qualquer direito trabalhista ou qualquer outro trabalho
para complementar a renda”, observou .
A professora criticou ainda a obrigatoriedade em assinar
uma declaração de que não vínculo empregatício
do pesquisador com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq) e/ou com a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
“É preciso passar por mais uma humilhação:
o atestado de pobreza. Enquanto isso seus colegas recém formados
em engenharia e direito, por exemplo, já têm trabalho
de verdade, ganhando de verdade”.
Para o jovem continuar trabalhando como cientista,
ele precisa ingressar num programa de doutorado.
“É a única atividade de emprego
se ele quiser atuar como cientista. A bolsa também tem valor
mensal de R$ 2,2 mil, sem nenhum vínculo empregatício
e benefícios trabalhistas”, comentou.
Sugestões
De acordo com Suzana, é possível fazer
contratações por fundações e institutos
de ciências ligados as universidades, que poderiam receber dos
governos os valores que hoje são pagos como bolsa, com contrato
de trabalho e todos os direitos empregatícios.
“Com a obrigatoriedade de contratação
virá a possibilidade de salários com valores competitivos”,
decsreveu.
Para ela, dessa forma, a ciência caminha e a
sociedade cresce.
“É fundamental para a soberania de
uma população que ela valorize a produção
de conhecimento cientifico. Isso começa por valorizar seus
cientista. Fazer ciência no Brasil hoje, infelizmente, é
uma péssima decisão profissional com pouquíssimas
perspectivas”, finalizou.
Fonte:
http://www.agenciacti.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4363
>>> clique aqui para acessar a página principal
de Notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
>>>
clique para ir direto para a primeira página de Artigos, Teses e Publicações