18/08/2013
Curso de Formação de
Pesquisadores Espíritas FEC/UFSC propõe abandono de dogmas
do movimento espírita
- Parceria entre a Federação
Espírita Catarinense e a Universidade Federal de Santa Catarina
rende curso de Extensão Universitária em Pesquisa em Transfenomenologia.
Um projeto em harmonia com o pensamento abrangente da Codificação,
a cargo do professor Francisco Fialho, do Departamento de Engenharia
e Gestão do Conhecimento da UFSC.
Diferentemente de outro dogma de que a ciência espirita só
pode ser realizada nas mesas mediúnicas, o curso da FEC/UFSC
mostrou uma abrangência muito maior. Uma forma de fazer ciência
que desloca o pensamento espírita do umbigo de seus próprios
domínios e que cria conexões com o que estão fazendo
em outras áreas e culturas.
Por Manoel Fernandes Neto

Professor Francisco Fialho (UFSC): Incentivando
a duvidar sempre para conseguir fazer ciência.
A ciência espírita não é uma miragem. Foi
este o sentimento que emergiu no encerramento, no domingo, 14.07.2012,
da 1a. Turma do Curso de Formação de Pesquisadores
Espíritas, desenvolvido pelo NEOPE-VPCC, da FEC.
A iniciativa tem uma dupla potência.
De um lado, o respaldo do conhecimento espírita advindo de uma
federativa. De outro, a chancela acadêmico-científico da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), incluído como
atividade de Extensão Universitária em Pesquisa em Transfenomenologia.
Um projeto em harmonia com o pensamento abrangente da Codificação,
a cargo do professor Francisco Fialho, do Departamento de Engenharia
e Gestão do Conhecimento da UFSC.
Mas formar livres pensadores é um desafio em um movimento que
é livre em sua concepção, podendo organizar-se
da forma que achar melhor, respeitando, mas adaptando as orientações
da federativa. Assim, proliferou-se em Santa Catarina e no Brasil um
espiritismo muito mais religioso em sua raiz, o que também o
ajudou a se fortalecer em suas bases e adeptos, situação
já objeto de diversos estudos acadêmicos.
Todavia, em pleno século 21, chega o momento de um ajustamento
em seus três pilares: Ciência, Filosofia e Religião,
com ênfase na pesquisa, de acordo com o que nos trouxe Kardec.
(Allan Kardec, A Gênese, cap. I, item 55).
O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado
porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um
certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade
se revelar, ele a aceitará.
Sem rótulos
Tornarmo-nos pesquisadores competentes
quando estamos acostumados com dogmas do movimento espírita não
é tarefa fácil. Como colocar em dúvida os ensinamentos
da Codificação? Como admitir que em algumas passagens
das obras básicas foi considerado o conhecimento da época,
e que elas não estão de acordo com os avanços do
conhecimento dos tempos atuais?
Como afirmou e reafirmou durante todo o curso o professor Fialho:
Não existem fatos, nem uma verdade que dure pra sempre. Fazer
ciência é contestar. Vivemos em um tempo de desconstrução.
Todos os grandes cientistas e pesquisadores são descontruídos
em algum momento, e nem por isso deixaram de ser grandiosos e citados
como referência. Fazer ciência é isso.
Mas a pergunta pertinente: qual o espectro de pesquisa que pode ser
realizado por um pesquisador espírita?
Diferentemente de outro dogma de que a ciência espirita só
pode ser realizada nas mesas mediúnicas, o curso da FEC/UFSC
nos mostrou uma abrangência muito maior. Uma forma de fazer ciência
que desloca o pensamento espírita do umbigo de seus próprios
domínios e que cria conexões com o que estão fazendo
em outras áreas e culturas.
“Devemos parar de criar muros, rotulando como ‘não
espíritas’ iniciativas de outras escolas e doutrinas.
Devemos criar pontes, investigando e pesquisando essas melhores práticas,
sem viés, sem verdades preconcebidas, tão típicas
do nosso movimento”, aponta o professor Fialho.

Mário, Marcelo e o Professor Fialho: A FEC
na vanguarda
A beleza da busca
O que é a Verdade? Foi esta a
questão que durante dois fins de semanas e atividades extras
na biblioteca da UFSC cerca de 20 pessoas, espíritas ou não,
tentaram responder. Com certeza não conseguimos responder, e
isso é boa notícia, segundo Fialho.
“Em ciência, a verdade
só existe por breves momentos e aí é que está
a beleza da pesquisa; é a busca constante do contraditório”.
Mas isso pode parecer algum tipo de
“obsessão grave” diante da visão atual da
maioria de dirigentes espíritas, algo que vem sendo mudado pela
vice-presidência de cultura e ciência, da Federação
Espírita Catarinense, patrocinadora desta iniciativa.
“É um projeto maior,
que privilegia a dialógica, em contraposição
à retórica e à dialética. Ou seja, buscar
e estudar pontos em comum com o que vem sendo feito em outras áreas
do conhecimento”, diz Mário S. Thiago, atual vice-presidente,
que participou da primeira turma com colaborações pontuais
e relevantes, baseadas em seu conhecimento como dirigente espírita
há várias décadas.
Aliás, o que marcou o curso foi
a interação e o diálogo constante entre o grupo
de alunos, professor e organizadores, em que não só era
permitido discordar, mas incentivado a isso. Desta forma, horas pareceram
segundos, e dias, breves minutos na imortalidade da nossa vivência.
Vídeos, imagens, sons, escolas científicas, sorrisos,
abraços, comunhão entre os participantes, teorias, teses,
intuição, ação em um desfile de referências
de pensadores espíritas e não espíritas. Com destaque
a Bezerra de Menezes, que nos lembrou que qualquer ciência seria
inútil se abandonássemos as iniciativas assistenciais
desenvolvidas por centenas de casas espíritas do nosso País.
“A nossa pesquisa deve ser escolhida
de acordo com metodologias que respondam, principalmente, qual a dor
que é preciso consolar”, diz Fialho.
Ou, como disse Marcelo Henrique Pereira,
assistente da vice-presidência de ciência e cultura, em
artigo recente neste portal:
A postura do cientista (espírita),
portanto, deve ser a de encarar, de frente, a verdade (parecemos ouvir
Kardec quando prelecionou “fé inabalável só
o é a que pode encarar a razão, frente a frente, em
todas as épocas da Humanidade”, não é mesmo?),
mas com a ética que se espera dos espíritas, ou seja,
uma pesquisa ética, voltada para o Bem da Sociedade, a partir
da divulgação dos resultados das pesquisas, que se espera
possam alcançar toda a comunidade terrena.
Libertação e busca.
Livre pensar
A S.E. Nova Era foi o grupo representante
da cidade de Blumenau, de acordo com o histórico da casa, que
vem, desde sua fundação no ano 2000, privilegiando o estudo,
as iniciativas de pesquisa sistemática para exposições
públicas, que se juntam ao seu trabalho assistencial e de esclarecimento.
Nas palestras e nos cursos da Nova Era,
outras escolas filosóficas são citadas e estudadas, inclusive
com bibliografia sugerida a seus monitores e alunos para estudos inter-religiosos.
Além disto, o portal da Nova Era, no ar desde 2003, vem se consolidando
como exemplo desta nova proposta dialógica de não “falar
somente para “dentro” do movimento, a publicar artigos e
ideias de pessoas de outros credos e filosofias, tais como o teólogo
Leonardo Boff e o pastor Ricardo Gondim, além de canais temáticos
como Iluminismo Vive (liberdade e tolerância), Ser
Sustentável (ecologia e consciências), Os caminhos
da Ciência (notícias científicas de várias
áreas).
O Curso de Pesquisador Espírita
da FEC/UFSC terá novas turmas marcadas. O objetivo do projeto
é formar uma massa crítica na área e agendar novas
etapas, desta vez por meio de workshops para formação
de grupos de pesquisa com os participantes. Etapas em médio e
longo prazo pretendem desembocar na própria casa espirita, com
a criação de seus departamentos de cultura e ciência,
em uma grandiosa iniciativa que permite reviver Kardec em sua sede de
conhecimento como pesquisador imortal.
Acima de tudo, reviver este livre pensar
que nos liberta cada vez mais, quando buscamos, de forma incessante,
a verdade, mesmo que ela se afaste a cada piscar de olhos.
Renascer todos os dias e prosseguir é uma missão que
nunca deve ser abandonada pelo espírito.

A turma da Nova Era, de Blumenau: Teresinha, Adriana,
Jorge, Mirabel, Manoel, Maickol e Edir: Estudo e pesquisa na pauta.
Fonte:
http://www.se-novaera.org.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1444
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