26/07/2013
Em entrevista à DW Brasil (Deutsche Welle), um dos principais
críticos do conservadorismo católico elogia Francisco,
afirmando que ele começou uma reforma do papado e pode dar início
a uma dinastia de papas de países do Terceiro Mundo.

O papa Francisco vai inaugurar uma nova era para a Igreja Católica
durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Essa é
a convicção do teólogo Leonardo Boff, que em 1992
deixou todos os cargos na igreja, após ser censurado pelo Vaticano.
Em entrevista à DW Brasil na sua casa em Petrópolis (RJ),
o teólogo elogiou Francisco, afirmando que ele é o papa
da ruptura.
"Essa é a palavra que Bento 16 e João Paulo 2º
mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade",
avaliou Boff.
O teólogo, um dos expoentes da Teologia da Libertação,
disse acreditar que Francisco vai falar sobre os recentes protestos
no Brasil.
"Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo
que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que
a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em
conformidade com o evangelho."
____________
DW Brasil: No Rio de Janeiro,
mais de um milhão de fiéis católicos vão
se reunir e celebrar a fé durante a Jornada Mundial da Juventude.
No século 21, o cristianismo ainda precisa da figura de um papa?
Leonardo Boff:
Fundamentalmente não precisaria de um papa. A igreja poderia
se organizar numa vasta rede de comunidades. Mas, à medida em
que a igreja foi se transformando numa instituição e assumindo
uma função política no Império Romano, ela
assumiu também os símbolos do poder: o próprio
nome "papa", que era exclusivo dos imperadores, e aquela capinha
cheia de ouro, que só os imperadores podiam usar, mas que os
papas todos usavam. Então, esse curso de uma igreja que tem uma
função política dentro do Império Romano
em decadência obrigava a igreja a ter um centro de referência.
Francisco, quando ofereceram a ele aquela capinha, disse "O carnaval
acabou, não quero isso".
Então, esse papa chegou para mudar?
Eu acho que esse é o papa da ruptura. Essa é a palavra
que Bento 16 e João Paulo 2º mais temiam. Eles acreditavam
que a igreja tinha que ter continuidade, portanto o Concílio
Vaticano Segundo não poderia significar ruptura com o Primeiro.
Mas não, agora há uma ruptura, a figura do papa não
é mais a clássica, é outra. Francisco não
começou com a reforma da cúria, começou com a reforma
do papado.
O que você quer dizer com "reforma do papado"?
Na Europa vivem só 24% dos católicos. Na América
Latina são 62%, e o restante está na África e na
Ásia. Então hoje, o cristianismo é uma religião
do Terceiro Mundo, que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Acho que
o papa Francisco vai criar uma dinastia de papas do Terceiro Mundo.
Além disso, as nossas igrejas já não são
mais igrejas de espelho, imitando as europeias; são igrejas fonte,
criaram suas tradições, têm os seus mártires,
seus mestres, suas formas de celebrar, têm suas teologias e profetas
e figuras importantes, como dom Hélder Câmara e Óscar
Romero. Essas igrejas estão dando vitalidade ao cristianismo.
Por que o senhor está tão otimista? Os problemas
da Igreja Católica continuam: a exclusão dos divorciados,
a discriminação dos homossexuais, a proibição
de mulheres-sacerdotes...
O papa deu um exemplo claro. Ele soube que um pároco em Roma
negou o batismo ao filho de uma mulher solteira. E o papa disse: "Esse
padre está errado, porque não existe mãe solteira.
Existe mãe e filho. E ela tem o direito de ver o filho batizado,
porque a igreja tem que ter as portas abertas, pouco importa a condição
moral da pessoa". E ele foi mais fundo ao dizer que não
se pode inventar um oitavo sacramento, proibindo os fiéis que
não se enquadrem na disciplina eclesiástica de participar
da vida da igreja e dos sacramentos. Até agora, os temas de moral
sexual, de moral familiar, de celibato e de homossexualidade eram proibidos
de serem discutidos. Se um teólogo ou um padre discutisse esse
assunto, era logo censurado. Agora, ele vai permitir a discussão.
No Brasil, nas últimas semanas, milhares de jovens foram às
ruas protestar contra os políticos corruptos e os altos investimentos
nos estádios de futebol. Qual é o recado que o papa vai
dar aos jovens?
Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo
que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que
a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em
conformidade com o evangelho. Eu acho que ele vai fazer uma convocação
crítica aos políticos, para que eles não sejam
mais corruptos e passem a servir mais ao povo. E vai fazer um desafio
aos jovens de continuar a transformação da sociedade,
mas sem violência. E aí exclui todos esses vândalos
que nos últimos dias mostraram uma violência absolutamente
injustificável e estúpida.
O senhor disse que os programas sociais no Brasil "incluíram
uma Argentina inteira na sociedade brasileira". Por que então
as pessoas protestam contra o governo brasileiro?
Curiosamente, elas não são contra o PT, a Dilma ou o Lula.
Elas mostram uma insatisfação geral com o Brasil que temos,
que é um país com profundas desigualdades. São
5.000 famílias brasileiras que controlam 43% de toda a riqueza
nacional. Além disso, o próprio PT atingiu o seu teto.
Ou ele muda e refaz a sua relação orgânica com os
movimentos sociais, ou ele se transforma num partido como os demais,
que buscam o poder e acabam se corrompendo.
A classe média brasileira parece não estar gostando tanto
dos programas de inclusão social do governo brasileiro. Ela foi
deixada de lado?
Com Lula, os ricos ficaram mais ricos, e os pobres saíram
da pobreza. Todo mundo ganhou. Eu creio que o governo do PT não
fez só uma distribuição de renda, favorecendo os
pobres, mas também fez uma redistribuição. Tirando
de quem tem e passando para quem não tem. Só que ele não
aplicou isso às grandes fortunas. Ele tirou da classe média,
que ficou mais pobre.
O senhor acredita que os políticos vão atender
ao recado do papa na Jornada Mundial da Juventude?
Eu acho que ele vai ser muito importante para a América Latina,
porque o modo de ser dele vai reforçar as novas democracias,
que nasceram na resistência aos militares e estão fazendo
boas políticas sociais para os pobres, com inclusão. Então,
ele tem uma função política importante. A Cristina
Kirchner, que vivia em polêmica com ele, entendeu a lição
e fez as pazes. Mas por quê? Porque o papa move multidões.
Talvez ninguém no mundo hoje possa reunir um milhão de
pessoas. Político nenhum, nem mesmo o Obama.
Mas a Igreja Católica perdeu poder e influência?
Institucionalmente, a igreja no Brasil está numa profunda
crise. Pelo número de católicos, deveríamos ter
100 mil padres. Temos 17 mil. Criou-se um vazio, pelo qual entraram
as igrejas pentecostais. E com razão. Como o povo é religioso,
quem vem falar de Deus, ele [o povo] adere, porque indo para Deus, podemos
somar sempre. Para batismo, casamento e enterro, é a Igreja Católica.
Para saber o outro lado do mundo, ele vai para o espiritismo. Para as
questões de sorte e amor, ele vai num centro de macumba. O povo
não tem uma visão doutrinária, tem uma visão
prática. É um supermercado religioso, com muitos produtos,
e o povo vai se servindo.
Com Francisco, a Teologia da Libertação vai voltar?
Com este papa, ela vai ganhar visibilidade. Antes se dizia que a Teologia
da Libertação era uma teologia marxista. Agora se diz
que ela é uma teologia católica. Isso muda a atmosfera
da igreja.
Fonte:
http://www.dw.de/este-%C3%A9-o-papa-da-ruptura-afirma-te%C3%B3logo-leonardo-boff/a-16965882
>>> clique aqui para acessar a página principal
de Notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
>>>
clique para ir direto para a primeira página de Artigos, Teses e Publicações