26/07/2013
Marcus Braga indicou-nos entrevista com a educadora Isabel Cristina
Melo em que fala sobre a temática da inclusão, acessibilidade
e educação especial, no contexto do movimento espírita.
“A resistência para acessibilidade
na Casa Espírita é ainda grande”
A educadora fluminense diz que na questão da
acessibilidade e no atendimento aos especiais há muito a ser
feito no meio espírita
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Isabel Cristina Melo, radicada no Rio das Ostras-RJ, fala nesta entrevista
sobre sua larga experiência na educação das chamadas
classes especiais e também da questão da acessibilidade
nas Casas Espíritas e outros aspectos pertinentes à Educação
Inclusiva que se observam na sociedade em geral.
Isabel, conte-nos um pouco
de sua vivência espírita e de como ela cruzou os caminhos
da educação especial.
Iniciei-me no Espiritismo pela dor,
encaminhada por um senhor que me emprestou O Livro dos Espíritos.
Nessa época eu era umbandista e, após alguns anos de leituras
individuais, percebi que o Espiritismo me fornecia outras respostas,
me permitia avançar nos questionamentos e me trazia um conforto
grande. Optei por este último, mantendo um carinho e respeito
grandes pela Umbanda. No movimento espírita, conheci o Centro
Espírita de Jacarepaguá (Rio de Janeiro-RJ), no qual iniciei
os estudos, e o Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo (também
em Jacarepaguá). Essas duas instituições de trabalho
no bem me possibilitaram conhecer o trabalho de Evangelização
da infância e juventude, que se estenderam em participações
no que atualmente denomina-se SAPSE nas comunidades de Vila Sapê
e Anil, ambas em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Como professora,
um dia fui convidada a atuar com as Classes Especiais/ DM (como era
denominado na época). Apesar de não ter formação
específica, aceitei o desafio e iniciei estudos para me adequar
à nova demanda. Percebi uma identificação quase
imediata e um bem-estar evidente com esse trabalho. A classe foi crescendo
em qualidade graças ao apoio recebido da direção
da escola e do Instituto Helena Antipoff, do Rio de Janeiro, ao qual
serei sempre grata. Nos anos oitenta, a USEERJ convidou pessoas ligadas
à questão do companheiro especial para um encontro em
que seriam discutidas questões voltadas a ele, segundo a visão
espírita. Foi memorável aquele dia. Voltamos para Jacarepaguá
animados e, ao lá chegarmos, já definimos um encontro
no Eurípedes para o outro dia e a partir daí foi iniciado
um grupo de estudos de saudosa lembrança que resultou no Grupo
Dona Meca (http://www.osdm.org.br/quem_somos.htm)
e GAPEB (http://gapeb.com.br), atuantes
até os dias atuais.
Ainda que as últimas três décadas tenham
trazidos avanços inestimáveis nas discussões afetas
à inclusão e à educação especial
no campo da educação formal no Brasil, essa discussão
parece caminhar a passos lentos no movimento espírita, como comprovam
seus artefatos (cursos, livros, eventos, seminários). Que fatores,
em sua opinião, contribuíram para esse cenário?
Questão bastante complexa e
delicada essa que você me coloca. Um dos aspectos que me chama
atenção é que, independente de estar nas fileiras
espíritas, o homem está ainda atrelado às questões
que aliam a deficiência à punição nos seus
mais diversos matizes. Mesmo cientes os espíritas de que Jesus
apresentou-nos Deus como Pai de Justiça, e acima de tudo de Amor
e Misericórdia, o primeiro qualitativo vinculado à punição
parece falar muito mais alto ainda em nossas mentes. Tem-se ainda a
cultura dos mais diferentes povos que reforça causas ligadas
à punição divina. Tudo isso, a meu ver, atravessa
os movimentos religiosos. A resistência para acessibilidade em
Casas Espíritas é ainda grande. Poucas Casas têm
tradução simultânea para Libras em suas reuniões
públicas e as justificativas carecem de consistência. Livros
espíritas em braile ainda são muito poucos (felizmente
já vemos os audiolivros, que suprem de maneira razoável
os companheiros com dificuldades visuais). Rampas nos prédios,
reflexões acerca das possibilidades de crianças e jovens
com comprometimentos intelectuais e de transtornos do desenvolvimento
(TGD) frequentarem encontros de evangelização infantil
e juventude de forma efetiva e real – essas são questões
que o movimento espírita precisa refletir e discutir. Os Espíritos
superiores deixaram questões de inclusão no Pentateuco.
Precisamos sair das verdades parciais que nos mantêm na zona de
conforto e avançar. A Doutrina Espírita tem uma contribuição
notável a oferecer, quando o movimento espírita se abrir
aos avanços em Educação Inclusiva que estão
se observando na sociedade em geral.
A discussão da acessibilidade passa pela produção
de livros em Braile (ou audiolivros), a tradução de palestras
para Libras, além de banheiros adaptados e rampas, entre outras
práticas. Em sua opinião, como estamos nesses quesitos
no movimento espírita atualmente?
Temos avançado, mas de maneira
muito tímida, como colocado acima. Estão aí várias
obras subsidiárias de autores abalizados (como Nancy Puhlmann
Di Girolamo) que oferecem ótimas oportunidades para sairmos dessa
posição que não se coaduna com os ensinamentos
espíritas, o que nos pede ação com responsabilidade.
A ideia da reencarnação, indicando um aspecto
provacional na questão da deficiência, não deveria
trazer para nós, espíritas, uma abordagem diferenciada
da questão do especial?
Penso que sim, pois não importa
se o companheiro ombreado conosco está em prova ou em expiação,
mas sim que todos nós estamos reencarnados para progredir. Exemplos
não nos faltam de trabalhadores que, ao se defrontarem com provas
acerbas das mais diversas, apenas apoiaram o companheiro e seguiram
aprendendo. O companheiro reencarnado na condição de deficiente
sensorial, do intelecto ou com transtornos não necessita de análises
sobre as causas de sua condição, mas de oportunidades
de usufruir daquilo que a Doutrina Espírita traz e que nos proporciona
forças para caminhar neste mundo de provas e expiações
de maneira mais ou menos equilibrada. Por que aquilo que me consola
e fortalece não faria o mesmo com esse companheiro, envolvido
nessa prova? Dá para pensar...
O convívio da pessoa com deficiência na mesma sala
de aula de evangelização com as crianças e jovens
ditos normais é o suficiente para se efetivar a inclusão,
ou é preciso de algo mais em termos pedagógicos?
Penso que é preciso iniciar
abrindo as portas das Casas Espíritas para acolher esse irmão
e suas famílias. É preciso vencer as próprias barreiras,
deixar de buscar ancoragem em falas ditas espíritas que carecem
de sustentação doutrinária e convidar essas famílias,
pois a partir daí a demanda levará a equipe da Casa a
buscar respostas às inúmeras dúvidas que chegarão.
Se Nancy Puhlmann tivesse fechado as portas à primeira pessoa
que chegou à Instituição Beneficente Nosso Lar
em São Paulo, por faltar estofo teórico a esse acolhimento,
provavelmente não seria para nós hoje um ponto de luz
a assinalar com possibilidades para esse trabalho. E, ainda olhando
para seu exemplo, a equipe de trabalho não ficou nesse primeiro
passo; buscou alicerces teóricos sempre e cada vez mais atuais
na ciência e na pedagogia. Vejo que após o primeiro passo,
tanto para a Casa Espírita como para o companheiro especial que
chega, é necessária a busca junto à literatura
espírita e acadêmica para alicerçar cada vez mais
essa prática, a fim de que ela não fique apenas em aproximação,
que no cotidiano da Casa Espírita configura-se em algumas situações
à criança ou o jovem tendo apenas o convívio social.
A Doutrina Espírita nos afirma que somos todos Espíritos
imortais, com bagagem de muitas vidas, com conhecimento acumulado. Vamos
falar ao Espírito nos encontros de Evangelização,
à centelha que brilha ali naquele irmão limitado na presente
encarnação, e esses princípios, bem como muitos
outros da doutrina, nos ajudarão a crescer dentro da decisão
de dar acesso a ele. Na questão pedagógica, devemos ter
atenção às peculiaridades dessa pessoa e da deficiência
que o caracteriza nesse momento e de como a pedagogia tem contribuído
para criar canais de comunicação efetivos com ele. Não
se trata de um deficiente, mas primeiramente de uma pessoa que traz
uma deficiência, o que determina diferenças consideráveis
no olhar pedagógico.
A casa espírita deve se preparar para lidar com as diferenças
ou deve se estruturar apenas diante dos casos concretos que adentram
as suas portas?
Vejo que quando a Casa Espírita
se prepara apenas para os casos concretos que chegam estará restringindo
a acessibilidade e trabalhando de forma a “apagar incêndios”.
Há que planejar para receber essas pessoas, assim como para todas
as peculiaridades humanas (a pessoa idosa, a criança e o jovem
especial, aquele que sofreu limitações sensoriais durante
a vida física, a pessoa surdo-cega, a pessoa obesa ou tetraplégica...).
Para isso há que buscar também os princípios do
Desenho Universal, tecnologia que prevê espaços para todos.
Entende-se por Desenho Inclusivo ou Universal um conjunto de preocupações,
conhecimentos, metodologias e práticas que visam à concepção
de espaços, produtos e serviços, utilizáveis com
eficácia, segurança e conforto pelo maior número
de pessoas possível, independentemente de suas capacidades.
Nas visitas assistenciais a instituições especializadas
no atendimento a pessoas com deficiência, que reflexões
podemos suscitar aos trabalhadores que participam dessas visitas?
O que me ocorria em algumas visitas
que fiz foram: “Trata-se de pessoas em primeiro lugar!”,
“Não tenha intenções de descobrir seu passado
olhando esse corpo.”, “O que ele (a) espera de mim? Se eu
residisse aqui, o que gostaria de receber nesta visita fraterna?”.
Ocorria-me que eu estava entrando no lar que muitos daqueles companheiros
conheceram nesta encarnação, e isto balizava as minhas
ações ali. Penso ser necessário procurar também
orientar os pensamentos de forma positiva e otimista, trocar poucas
ideias com os companheiros de visitação para olhar e buscar
estar com eles (as) naqueles momentos. Em momento posterior, se possível
fora da instituição, analisar o trabalho junto à
equipe, evitando especulações e elevando um pouco mais
a qualidade dessa visitação. O preconceito em relação
à pessoa com deficiência se materializa em palavras e gestos.
De que forma o ensinamento cristão pode nos ajudar a combater
esse preconceito? O Evangelho não nos diz para não ver,
mas que se tenham olhos de ver. Quando deixamos de estudar na Casa Espírita
e de refletir particularmente nesse e em outros ensinamentos do Mestre
Jesus, podemos cair na falácia de ver o argueiro no olho do outro
e esquecermos a trave no nosso olhar, de apontar o dedo em direção
ao outro permanecendo confortáveis com os nossos defeitos morais
que muitas vezes nos são tão agradáveis!
Conviver com o irmão especial
de maneira a aprender com ele é nos defrontar (felizmente o tempo
todo) com princípios como estes. Percebemos que o companheiro
está em provas difíceis, mas essa análise não
pode engessar o pensamento e a ação buscando justificativas
que não se sustentam com o estudo doutrinário, reforçando
atitudes puramente preconceituosas. Enquanto olhamos o outro, perdemos
a oportunidade de nos examinar descobrindo pontos que precisam ser burilados
através dessa e de outras atividades da Casa Espírita,
que necessita de trabalhadores contentes!
Como palavras finais, que mensagem você gostaria de deixar
para os que trabalham com a educação especial na seara
espírita?
Que perseverem neste campo belíssimo
de trabalho, buscando forças primeiramente no Cristo, que nos
deu a oportunidade desta encarnação para que, através
do livre-arbítrio, experimentássemos a bênção
de aprender com o companheiro que um dia se encheu de coragem para retornar
ao solo terreno e sabe no fundo de seu ser que necessita das mãos
operosas, mas que também tem muito a ensinar. Somos parceiros
nesta jornada. Ele não desistiu. Nós, de nossa parte,
pedimos aos amigos espirituais que estejam conosco para conduzirmos
este belo labor com toda a equipe de trabalho da Casa Espírita!
Fonte:
http://www.oconsolador.com.br/ano7/322/entrevista.html
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