12/07/2013
Por que as crianças francesas não têm Déficit
de Atenção?
Como é que a epidemia do Déficit de Atenção,
que tornou-se firmemente estabelecida em vários países
do mundo, foi quase completamente desconsiderada com relação
a crianças na França?
Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças
em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit
de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas
com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças
diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como
é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida
nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação
a crianças na França?
TDAH é um transtorno biológico-neurológico?
Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você
morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os
psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio
biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha
também é biológico – medicamentos estimulantes
psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado,
vêem o TDAH como uma condição médica que
tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas
de concentração e de comportamento com drogas, os médicos
franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando
o sofrimento da criança; não o cérebro da criança,
mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por
tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou
aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de
ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir
todos os sintomas de uma disfunção biológica a
um desequilíbrio químico no cérebro da criança.

Déficit de Atenção em crianças
francesas é inferior a 0,5% (Foto: Ilustração)
Os psiquiatras infantis franceses não usam o
mesmo sistema de classificação de problemas emocionais
infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam
o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou
DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação
Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação
alternativa, como uma resistência à influência do
DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française
des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent),
lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000.
O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais
subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar
os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos
em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança,
menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além
disso, a definição de TDAH não é tão
ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende
a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal
da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa
forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número
muito maior de crianças sintomáticas, e também
os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite
considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente
o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após
a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e
/ ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças
com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças
com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções
dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos,
o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto,
incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores
dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação
infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes
poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente
mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca
os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé.
Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão,
por que o número de crianças francesas diagnosticadas
com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos
Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem
um firme cadre – que significa “matriz” ou “estrutura”.
Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem
um lanche quando quiserem. As refeições são em
quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas
aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez
de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses
também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais
franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante
a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto
os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à
prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de
seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente
de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão
francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas.
Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais
feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria
experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os
pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não”
resgata as crianças da “tirania de seus próprios
desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não
é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido
para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos
para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle
no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias
em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar
é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve
Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos,
enquanto que no estilo de família americana, a situação
é muitas vezes o inverso.
Fonte:
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/05/deficit-de-atencao-nas-criancas-francesas.html
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