07/07/2013
por NATALIA JULIO
Folha de São Paulo
Cristina Zelante, 58, não parecia se encaixar no diagnóstico
de uma pessoa com depressão. Tinha dois filhos adultos e era
dona de um escritório de arquitetura, uma floricultura e uma
loja de roupas, que ficavam no mesmo prédio no bairro de Pinheiros.
Em 2008, teve o que chamou de surto: estava dirigindo
e, sem saber o porquê, não conseguia tirar o pé
do acelerador. O carro foi batendo em outros veículos da rua.
Era a doença dando indícios.
Depois desse episódio, decidiu fechar os negócios.
Saía de casa poucas vezes, quase sempre a pedido dos filhos,
e logo voltava para o quarto. Ficou cinco anos em depressão.
"Era uma tristeza, eu não conseguia mais
fazer as coisas. Passei três anos no meu quarto. Antes eu me
achava muito forte, dizia: 'Eu não vou ter depressão,
criei dois filhos após uma separação!'".
Com os medicamentos usados para tratar a doença,
gastava cerca de R$ 900 por mês. Os remédios davam dor
de cabeça, formigamento e a deixavam com a visão turva.
"Eu estava enlouquecida".
Quem vê Cristiana hoje não tem ideia que há poucos
meses a empresária tinha receio de sair de casa até para
ir ao mercado. Falante, sorridente e vaidosa, ela se descreve como uma
nova pessoa. O motivo da mudança? Um tratamento pioneiro e inédito
contra a depressão que está sendo testado na Santa Casa
de São Paulo.
ETCC
Chamado de Estimulação Transcraniana
por Corrente Contínua (ETCC), a proposta terapêutica
é relativamente simples: uma corrente elétrica de baixa
intensidade é aplicada através do couro cabeludo, e facilita
a atividade neuronal em áreas onde está a atividade inibida
e inibe em áreas em que a atividade está exagerada, melhorando
o quadro de depressão.
A empresária está em tratamento há
dois meses com o médico Pedro Shiozawa, autor da pesquisa. Como
ela, mais de 50 pessoas vieram de diversas regiões do Brasil
para participar dos testes em São Paulo, geralmente incentivados
pela família --há pessoas de estados como Pernambuco e
Paraná.
"Há só sete trabalhos publicados
no mundo sobre depressão, e 10% da população
brasileira sofre com a doença", diz Shiozawa. "Dos
depressivos tratados ambulatorialmente, só 70% respondem. E
tomarão remédio para sempre, e com frequência
terão outro episódio depressivo em 10 anos", continua.
A técnica inovadora ainda está em fase
de testes, mas o médico se diz animado com as respostas. O tratamento
deve ser apresentado no Conselho Federal de Medicina ao fim do ano para
aprovação.
"Temos uma taxa de sucesso de 70% a 80%. Daqui
a cinco anos vai estar no SUS", diz Shiozawa, confiante.
MAIS BARATO
Uma das principais vantagens deste tratamento é
a redução de custos. Além do aparelho custar muito
menos do que outros (como o de estimulação magnética)
e poder ser usado diversas vezes, diferentemente dos medicamentos que
precisam ser renovados mensalmente, a técnica é mais sutil
e menos cara que outras terapias, como o eletrochoque, que demanda sedação
e costuma necessitar a presença de dois médicos e um enfermeiro
--sem contar que apresenta risco do paciente ter prejuízos cognitivos.
"É barato, seguro e bastante efetivo",
diz, confiante. "Em termos de saúde pública, será
algo muito plausível. Mesmo comparando com o remédio
mais barato, este tratamento é mais econômico",
afirma o médico, que parece preocupado com outro dado da saúde
no Brasil: cerca de 50% da população toma algum tipo
de psicotrópico.
Em dois meses, os pesquisadores devem começar
outro estudo com 150 pacientes em depressão. Desta vez, para
comparar com um medicamento considerado um dos melhores do mercado,
cujo custo é de cerca de R$ 200 por mês.
"FUI PARA O INFERNO E VOLTEI"
Cristina faz questão de dar entrevistas para
divulgar a técnica, dizendo ter esperança de que outras
pessoas possam ter a melhora que ela teve. Nos pacientes tratados por
Shiozawa, havia casos em que a pessoa com depressão não
falava há décadas e aos poucos tem retomado o convívio
social.
"Os últimos anos foram terríveis.
Fui para o inferno e voltei. Eu andava de qualquer jeito, com qualquer
roupa. Tinha vontade de sair de onde estava e ir para o meu quarto",
conta Cristina. Incentivada pelos filhos, ela fez uma viagem de navio
na época em que estava em depressão. Passava todo o
dia na cabine e chegava a acordar mais cedo para não cruzar
com as pessoas ao tomar o café da manhã.
"Eu era agressiva, brigada com todo mundo. Você perde o
senso do ridículo", diz ela, que as poucos tenta retomar
a vida.
Se antes Cristina passava o dia dormindo, hoje voltou
a pintar, atividade que não exerceu durante os anos da doença.
E se só pensava em ficar no quarto, hoje planeja uma reforma.
"Aquilo é um buraco. E agora eu estou
saindo. Hoje o telefone não para de tocar. A rua não
é tão perigosa assim."
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Quem quiser participar da triagem para os testes contra
a depressão na Santa Casa deve mandar um email para - pesquisa.depressao@gmail.com.
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Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2013/07/1306798-tratamento-pioneiro-testado-na-santa-casa-e-alternativa-contra-a-depressao.shtml
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